Cronicas de Luiz Fernando Verissimo Pneu Furado
Quando num primeiro instante me sobrevém um sentimento de rejeição por parte de outrem, lembro em seguida que as pessoas não existem para suprir minhas expectativas, e que o foco delas apenas pode estar voltado para momentos de vida distintos. Ninguém nasce para ser metade da laranja, mas a laranja inteira.
Existem afetos que nos provocam a dolorosa sensação de tentar segurar água com as mãos enquanto a vemos escorrendo por entre os dedos, mesmo que a presença se mantenha. Ainda que para nós o convívio se mostre tão prazeroso e importante quanto antes, para a outra pessoa esse afeto aparece na história dela como algo gratificante naquele momento de vida, mas que o tempo transformou apenas em lembrança de um passado feliz que se mistura a várias outras.
Abstenha-se de cobrar promessas, ou lembrar compromissos assumidos com você. Quem tem interesse real em atendê-lo vai se antecipar no cumprimento – por mais “distraído” que se mostre – pois que a natureza humana dispara respostas compatíveis com o grau de relevância que atribuimos a cada coisa. Apenas entenda a importância que seu pedido teve para a outra pessoa e a aceite como é, bem como a relação que se estabeleceu entre ambos.
A afirmação sobre o que não pode ser provado nos transforma em ovelhas de um rebanho idiotizado e manipulável. Por sua vez, a negação sem evidências nos coloca numa posição de arrogância estúpida para qualquer cérebro minimamente lógico, donde se conclui, portanto, que toda convicção vazia passa atestado de indolência intelectual.
O “óbvio”, por si só, se opõe a lógica científica, uma vez que não vai além de presunção, da conclusão sem base, de uma ideia não refletida. Surge no vácuo da análise, na esteira da negligência inconsequente que despreza o pensar, da insensatez que dispensa a prudência e acata o preconceito pela ausência do conhecimento.
Insistimos em crenças sobre o que existe ou não existe, na vã tentativa de chancelar verdades inacessíveis a nós. Para piorar, esse homem que se acredita sábio avalia probabilidades com base no universo conhecido, desprezando o desafio que o desconhecido lhe impõe. Faz da prepotência, portanto, a sua grande barreira para romper com a própria ignorância.
O maior desafio dos que nunca serão indiferentes ao outro é conseguir harmonizar a profundidade de sua empatia com sua sede intransigente de justiça; é achar o equilíbrio entre sua indignação frente às iniquidades humanas e a natureza pacífica que busca impor à irracionalidade das mentes nefastas, expondo aquela luta permanente entre o médico e o monstro que se enfrentam no ringue de nossas almas.
Parafraseando Giordano Bruno, a verdade não muda apenas por que se acredita ou não se acredita nela. O importante é que todos têm direito à própria versão, independente de qual seja a verdadeira, e quando defendendo as nossas nos mostremos honestos em relação aos outros, e coerentes em relação a nós mesmos.
Num primeiro momento, ao me comparar com esse mundo louco a que assistimos, cheguei a pensar: "Será que algum papa, diante do que se vê, ficaria inclinado após minha morte a me consagrar como santo?" Mas logo em seguida a realidade se impõe: "Oh, nossa! Se o fizesse estaria reduzindo as escolhas de Deus a níveis absolutamente inaceitáveis!"
Mente e consciência nem sempre são aliadas. Tua mente pode ditar rumos com os quais tua consciência não concordaria. Assim, teu foco deve se voltar para tua consciência: enquanto permanecer vigilante, ela estará trabalhando contínua e diuturnamente para que a mente permaneça saudável e garanta, por extensão, a saúde de cada uma das 30 trilhões de células do teu corpo.
Mente e Consciência são coisas bem distintas: a mente é tresloucada, e atende facilmente aos apelos dos sentidos. Já a consciência escolhe entre muitas alternativas antes de optar por uma. Não dá, então, tanto valor aos que criticam tuas idiossincrasias, por mais inverossímeis que se lhes pareçam: toma por referência a alegria que despertam em ti, e por critério a autenticidade conferida por tua consciência.
Habitualmente confundidos, um homem maduro não será, necessariamente, uma pessoa madura. Esta se refere a um estágio mental avançado, enquanto o primeiro diz respeito apenas ao passar do tempo, em seu sentido cronológico. O que difere uma condição da outra? A pessoa madura desponta no momento em que o homem circunstancial cede lugar ao homem de consciência.
Sempre que abrimos mão da comparação para nos deixarmos conduzir por uma única fonte, corremos o sério risco de levantar a bandeira do absurdo surgido na cabeça de mentes doentes. A lógica jamais dispensará o cuidadoso trabalho de reunir dados dos mais diversos e compará-los até a exaustão, antes de concluir pela verdade que se esconde por trás de todos eles.
Sou um triângulo equilátero quanto à posição no mundo, mas escaleno e libertário no plano das idéias, pois que rebelde a sectarismos que se expressem por meio de bandeiras, trincheiras, ordem unida, palavras de ordem, gritos de guerra, sociedades, clubes, irmandades, confrarias, torcidas, doutrinas, dogmas, partidos, segmentos rotulados, pensamentos por osmose e “ismos” ideológicos que me puxem para qualquer lado que a soberania da minha lógica rejeite.
Formação científica não constrói necessariamente o tipo de cérebro que trocará crenças equivocadas pelo resultado de cuidadoso trabalho de pesquisa. Alguns colecionadores de títulos nunca abandonam "verdades de berço" nas quais não tiveram a menor preocupação de usar a ciência para confirmar ou refutar.
Pessoas manipuladoras se mostram perigosamente nocivas porque adulteram tudo a seu favor no contato com as demais, comprometendo suas reputações por mais íntegras que se mostrem. E isso porque são hábeis em culpar os outros pelo que intencionalmente produzem na tentativa de obter vantagens. Mas o pior vem depois, quando espalham aos quatro ventos que elas é que foram vítimas das artimanhas criadas para manipular aquelas das quais se aproximam. A única forma de proteção é permanecer bem longe de suas teias, por mais sedutoras que se mostrem, já que a sedução também é parte indissociável do processo.
Os descrentes, amargos e agressivos que nos são próximos estão fadados a uma vida triste e solitária, além de bem mais breve que as dos demais, uma vez que afastam de si todos os que poderiam oferecer-lhes auxílio. Quantas vezes temos a solução para o que precisam, mas nos vemos impedidos de ajudá-los, pois que nos constrangem o espírito e, para nos protegermos de suas amarguras, somos obrigados a permanecer à distância, por mais que isso nos entristeça.
Uma encruzilhada apresentará sempre duas direções além daquela de onde você veio: uma à direita e outra à esquerda. Qualquer delas o afastará do caminho do meio, conduzindo-o a um dos extremos. Mantendo-se na que vem seguindo, o risco será reduzido por já conhecer a estrada, além da reta mostrar de longe para onde leva. Extremos nunca se mostram, portanto, como referência de equilíbrio e bom-senso.
Independente de quem esteja certo em um dado momento, é lamentável tentar convencer a nós mesmos que o lado que defendemos nunca comete erros, e o que se combate é o único responsável pelos erros de ambos. A tal atitude não se deve olhar como apreço pela verdade, mas apenas sintoma de extremismo por um dos lados mesmo nos casos em que o doente não se mostre consciente disso.
A verdade nunca será uma questão de crença, mas de lógica. O falso pode existir sem um antes ou um depois; mas a realidade requer várias peças ligadas pela coerência de todo o conjunto, e ela seguirá sendo o que é, quer você acredite ou não. A pergunta a ser feita, portanto, não é se o registro que se tem é verdadeiro ou falso, mas se todos os elementos da sequência conduzem o entendimento até revelar sentido, mesmo quando resistimos em aceitá-lo.
