Coleção pessoal de TiagoScheimann

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⁠E brilhavam as estrelas e a terra exalava perfumes, rangia a porta do jardim, e um passo roçava a areia… Ela entrava, perfumada, e caía em meus braços… Oh doces beijos, oh ternas carícias, enquanto eu, trêmulo, desnudava as belas formas de seus véus! Sumiu para sempre o meu sonho de amor… A hora passou… E eu morro desesperado! E nunca amei tanto a vida!

Se essa minha velha amiga, a lembrança, não me procura, talvez seja porque anda ocupada demais consolando saudades que gritam mais alto que as minhas, ou, quem sabe, reabrindo dores que o tempo tentou em vão enterrar. Pode ser que esteja vagando por corações mais frágeis, atravessando noites insones onde os fantasmas ainda têm nome e endereço. Não a culpo por seu sumiço, há memórias que demandam mais urgência do que as minhas, há histórias que ainda imploram por algum desfecho. E tudo bem. Aprendi a conviver com a ausência dela como quem se adapta à mudança das estações, aceitando o frio que permanece quando ela parte, e suportando o calor sufocante de sua presença quando decide voltar, sempre sem pedir licença, sempre com os bolsos cheios de passado.

⁠Na escuridão do sol, o tempo chora memórias que nunca chegaram a florescer. São lembranças inacabadas, suspensas no vazio entre o que quase foi e o que jamais será. O vento passa com o perfume do que não vivemos, e cada silêncio carrega o peso de uma saudade que não tem nome, mas ainda assim dói, como uma ausência sem começo, como uma ferida que nasceu do nada e insiste em permanecer. Há ecos de palavras que nunca foram ditas, gestos interrompidos pela pressa do destino, e olhares que não se cruzaram a tempo de mudar alguma história. Tudo parece repousar num limbo entre o sonho e a desistência, onde o coração ainda espera, mesmo sabendo que já é tarde. E nessa espera muda, nessa penumbra sem rosto, até a luz parece hesitar, como se o próprio sol também sentisse falta de algo que não viveu.

Gosto das estrelas... há nelas uma memória antiga, sentimento de permanência, uma quietude que não se desfaz. Enquanto os homens se matam e depois se esquecem, enquanto as estações morrem em folhas secas, enquanto os nomes se apagam das pedras e as vozes se perdem no tempo, elas permanecem. Distantes, inalcançáveis... mas fiéis ao mesmo brilho, como se soubessem de algo que esquecemos. Como se fossem testemunhas mudas de tudo que passa, e ainda assim, jamais partem.

⁠O amor, para mim, é uma ideia em estado de latência, uma presença ausente cuja inexistência moldou silenciosamente minha gramática emocional.

⁠Talvez eu não saiba o que é o amor porque aprendi a reconhecê-lo mais pela carência do que pela presença.

⁠Não sei bem o que é o amor, talvez porque ele nunca tenha se revelado a mim em sua forma plena, ou talvez porque sua essência escape à razão, como tudo o que verdadeiramente importa. O que conheci foram fragmentos, alguns gestos partidos, promessas sem permanência, afetos que vinham com prazo e medo. O amor, para mim, foi sempre uma hipótese, nunca uma certeza. Uma palavra grande demais para caber nas experiências que vivi. E talvez, no fundo, o que me dói não seja a ausência dele, mas a dúvida eterna se um dia o reconheceria, mesmo que estivesse diante de mim.

Talvez essa realidade crua que a existência nos impõe seja o reflexo paradoxal de uma verdade que a humanidade teme encarar, mas que o espelho metafísico do tempo insiste, obstinadamente, em revelar.

⁠Dissolvi o sal num copo e a água tornou-se intragável. Era pouco, mas bastava pra fazer da sede, aflição. Joguei então o mesmo sal nas águas calmas de um lago e ela sumiu. Sem gosto, sem espanto, o lago seguiu sendo lago. Assim é o sofrimento: num coração apertado, tudo dói demais. O sal se impõe, o gosto amarga e a alma afunda em seus ais. Mas num peito vasto e profundo, a dor encontra espaço, se espalha, silencia, dissolve. Não porque deixou de existir, mas porque já não domina. Talvez o segredo não seja fugir do sal, mas crescer por dentro, tornar-se lago.

⁠Talvez seja a intensidade do que vivi, em tão pouco tempo, que tenha ensinado meu coração a se esconder no frio dos sentimentos.

⁠E o grande amor, que de mim ganhasse, meu coração maravilhado, tão grande para mim, e seu amor, como as estrelas, tão de mim distante, não vejo a brilhar, com vivido esplendor.

⁠Embora, em algum momento do meu breve existir, eu tenha buscado a morte, amo, inexplicavelmente, a minha vida.

⁠Lembranças são gatilhos, não apenas disparam, mas insistem em recarregar. As minhas martelam sem trégua, provocam, testam, dilaceram.
Elas se infiltram, adicionam raiva gota a gota, semeiam pensamentos que corroem por dentro. E eu, silenciosamente, vou me desfazendo.

Assim como disse Heráclito, "nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio" pois, na segunda vez, nem o rio guarda as mesmas águas, nem o homem conserva o mesmo ser. Tudo é fluxo, impermanência, transformação. A água que escorre já não é a de antes, e aquele que retorna traz no corpo e na alma as marcas do tempo, as cicatrizes do caminho, os ecos do que aprendeu e do que perdeu. A vida é esse eterno vir-a-ser, uma travessia por instantes únicos, que se esvaem como a correnteza, deixando apenas a memória breve do toque, do passo, do olhar. Somos feitos de passagens e nunca mais seremos os mesmos de um momento atrás.

⁠Talvez, se eu não tivesse enlouquecido no percurso, hoje seria uma pessoa brilhante.

⁠A ciência busca o saber do mundo, mas é a consciência que nos revela o saber de nós mesmos. Reduzir o ser humano à matéria ou ao espírito é limitar sua complexidade. O dualismo é um eco de nossa ignorância, pois a mente e o corpo, o mundo e o eu, não são entidades separadas, mas expressões distintas de uma mesma realidade integrada.

⁠O amor, em sua natureza mais crua, é um paradoxo temporal e emocional, sua verdadeira dimensão só se revela na experiência da perda. Enquanto presente, é banalizado pela rotina, negligenciado pela falsa segurança da permanência. Somente na ausência é que suas camadas mais profundas se tornam perceptíveis, como uma arquitetura invisível que só se desenha no vazio.

⁠O tempo é um mestre tardio, só entrega respostas quando já não há perguntas, cura quando a dor já foi assimilada e oferece lições quando já não há mais como aplicá-las. Sua sabedoria chega sempre depois da necessidade.

⁠O paradoxo revela a dor de existir sabendo que a própria presença ou ausência não altera o curso do mundo. É a consciência da própria irrelevância diante de um universo indiferente, onde o desejo de significado colide com a certeza do esquecimento. A ferida nasce do conflito entre querer importar e perceber que, no fundo, o vazio permanece o mesmo.

Como uma criança, anseio por sentir com verdade, falar com leveza e desconhecer a mentira, pois nela, nada há de natural. A criança não finge, apenas existe, inteira e sincera no que sente.