A PELEJA DA ABELHA COM A MOSCA I Num... Jose Vidal de Negreiros Neto...

A PELEJA DA ABELHA COM A MOSCA


I


Num jardim nasceu a peleja,
Que o destino foi traçando;
Abelha, rainha das flores,
Seu trabalho cultivando.
Mosca vinha do outro lado,
Cada qual seu rumo andando.


II


Disse a Abelha, muito altiva:
— Eu vivo do puro mel,
Faço cera, gero vida,
Cumpro um nobre e bom papel.
Quem visita flor perfumada
Nunca perde seu troféu.


III


Respondeu logo a Mosca,
Sem baixar sua cabeça:
— Cada ser tem seu caminho,
Sua sina e sua peça.
Não escolhi meu destino,
Nem a vida que me cerca.


IV


A Abelha retrucou ligeiro:
— Gosto bom é o da flor!
Quem procura coisa limpa
Leva paz, perfume e cor.
Quem vive entre imundícies
Não conhece o verdadeiro amor.


V


A Mosca falou sorrindo:
— Prazer muda de pessoa;
O que é doce para uns,
Pra outros não se entoa.
Cada qual segue o costume
Que a existência lhe abençoa.


VI


A Abelha fez ferrão,
Defendendo seu reinado;
A Mosca bateu as asas,
Sem mudar de seu traçado.
Cada qual julgando a outra,
No seu mundo fechado.


VII


Uma buscava o néctar
Nas campinas coloridas;
Outra rondava os caminhos
Das sobras já esquecidas.
Duas formas de viver,
Duas rotas tão distintas.


VIII


Mas o tempo, velho mestre,
Ensinou sem humilhar:
Nem só flores dão sustento,
Nem só lixo há de ficar.
Toda vida tem seu ciclo,
Seu nascer e seu findar.


IX


Disse então a Natureza:
— Parem já de discutir!
Cada qual cumpre um serviço
Que não pode se medir.
Quem condena a escolha alheia
Pouco aprende a refletir.


X


Abelha produz o mel,
Mosca limpa o que apodrece;
Uma encanta os jardins,
Outra evita o que fenece.
Mesmo sendo tão diferentes,
Cada qual à vida tece.


XI


Gosto, hábito e costume
Nem sempre são iguais;
Cada um faz sua estrada
Entre erros e ideais.
Não existe um só caminho
Para todos os mortais.


XII


Terminou-se a velha peleja
Com lição de igualdade:
Quem despreza o semelhante
Só cultiva a vaidade.
Abelha e Mosca, no fim,
São iguais nas diferenças da humanidade.