RIQUEZA DE POBRE Na riqueza do homem... Jose Vidal de Negreiros Neto...
RIQUEZA DE POBRE
Na riqueza do homem simples
há tesouro sem cifrão;
mora dentro do abraço,
da amizade e do pão.
Quem reparte o que possui
nunca sofre de ilusão.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Vizinho era quase irmão,
porta aberta o dia inteiro;
um chamava, o outro vinha,
sem convite, sem roteiro.
Na tristeza dividia,
na alegria era o primeiro.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
As brincadeiras de rua
eram festa sem dinheiro:
bola de meia, pião,
pipa cortando o terreiro;
cada riso da infância
valia um mundo inteiro.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Na panela, o bom cuscuz,
feijão quente e macaxeira,
tira-gosto no alpendre,
café forte na chaleira;
quem comia repartindo
nunca viveu na canseira.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
O contrato era na fala,
aperto firme na mão;
a palavra tinha peso
feito pedra no sertão.
Quem mentisse por ganância
perdia toda razão.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Compadre era um parente
escolhido pelo amor;
comadre era confiança,
respeito, estima e valor.
Na aflição eram escudo,
na bonança, flor em flor.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
A bênção aos mais velhos
era lei de cada dia;
o ancião era biblioteca
de coragem e sabedoria.
Quem ouvia seus conselhos
colhia paz e alegria.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Banho bom era na chuva
ou no rio a mergulhar;
cada gota era brinquedo,
cada canto um festejar.
A natureza ensinava
sem jamais cobrar vintém.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Nas férias, a casa do tio
era um reino encantador;
rede armada no terreiro,
história contada com amor.
Cada primo era um tesouro,
cada abraço, uma flor.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
O futebol na campina
era Copa do lugar;
gol marcado no chinelo,
sem juiz pra apitar.
Quem perdia dava risada,
logo queria jogar.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Tinha fofoca de esquina,
mas sem ódio ou traição;
mentira sem maldade,
vaidade sem ostentação;
valentia sem braveza,
respeitando cada irmão.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
A fé morava na alma,
na novena e na oração;
Deus entrava pela porta
e habitava o coração.
Quem possuía esperança
nunca viveu na solidão.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Hoje muitos têm de tudo,
mas lhes falta o essencial;
compram ouro e compram luxo,
sem riqueza espiritual.
O pobre guarda no peito
o tesouro mais real.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
Que não morra essa herança
da mais sábia natureza:
ser humilde, ser honesto,
cultivar a gentileza.
Pois a alma vale mais
do que qualquer riqueza.
Riqueza de pobre, quando os ricos descobrem,
sabem quem são os verdadeiros ricos.
