Coleção pessoal de HermesFernandes
Sem acanho - Por Hermes C. Fernandes
Uma sensação teima em me perseguir
Tal chama que queima sem se extinguir
Chamem do que quiserem chamar
Isso não altera o que está no coração
Mesmo que venham a se lamentar
Devo admitir minha inadequação
Viver num mundo que não é o seu
Gritar bem alto em sala vazia
E só ouvir o eco de sua própria voz
E por um segundo ver que se esqueceu
De dar o salto que sempre queria
Não ser mais boneco do destino atroz
Talvez seja esta a minha sina
Sentir-me estranho no próprio ninho
Quem sabe a vida é quem nos ensina
Que é sem acanho que se acha o caminho
Duvido, logo insisto
Quem me vê
Pensa que sou só certezas
Que tenho respostas
para toda e qualquer questão
Quem assim me vê
Não imagina as represas
Paredes impostas
Destinadas à implosão
Certezas são estacas
Dúvidas são remos
Que nos fazem navegar
Oceanos extremos
Certezas são âncoras
Dúvidas são velas
Certezas são portas
Dúvidas, janelas
Certezas, palácios
Dúvidas, caravelas
Certezas confortam
Dúvidas confrontam
Certezas tranquilizam
Dúvidas desafiam
Certezas, sonhos
Dúvidas, insônia
Certezas, caverna
Dúvidas, ar puro
Certeza hiberna
Dúvida veraneia
Certeza inspira
Dúvida suspira
Certezas, alicerces
Dúvidas, terraço
Certezas, arco-íris
Dúvidas, mormaço
Certezas, ouro
Dúvidas, aço
Certezas, tempo
Dúvidas, espaço
Certezas, memória
Dúvidas, lapso
Certezas, história
Dúvidas, colapso
Certezas, lago
Dúvidas, correnteza
Certezas, assoalho
Dúvidas, telhado
Certezas, sinfonia
Dúvidas, bossa-nova
Certezas, ironia
Dúvidas, sarcasmo
Certezas, distração
Dúvidas, atenção
Certezas, exclamação
Dúvidas, interrogação
Certezas, ponto final
Dúvidas, reticências
Certezas, dogma
Dúvidas, ciência
Certezas, satisfação
Dúvidas, desejo
Certezas, rotina
Dúvidas, imaginação
Só os que firmemente creem
Podem expor suas dúvidas
Pois onde há tanta certeza
Não resta espaço para surpresa
Não confunda dúvida com incredulidade
Nem fé com ansiedade
Quem tem dúvida, quer saber
Para errar menos, acertar mais
Nenhum mandamento é tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo quanto o que nos ordena amar o próximo. Há vários tipos de proximidade: geográfica, cultural, étnica, religiosa, e sobretudo, a temporal. Neste caso, amar o próximo é amar o que vem depois de nós. É preparar-lhe caminho para que desfrute o melhor da vida.
Diário de bordo
Querido diário de bordo
Acabei de embarcar
Que a viagem seja tranquila
Tão serena quanto o mar
Já até me aconcheguei
Vou dormir até o cais
Neste barco sou o rei
Não perturbem minha paz
Querido diário de bordo
Sinto o barco balançar
E por pouco não acordo
Vamos ver onde vai dar
Se for só uma marola
fico quieto em meu canto
Meu timão Deus quem controla
Pra que todo este espanto?
Ouço gritos no convés
Corre-corre pela nau
Da cabeça até os pés
Eu me cubro integral
Deve ser um pesadelo
Logo, logo vai passar
Quer por medo ou desmazelo
Me recuso a aceitar
Querido diário de bordo
Alguém bate à minha porta
Quem sou eu? Já nem recordo
E quem é que se importa?
Ei amigo, por que dorme?
Todos fazem sua prece
A tormenta está enorme
É melhor que se apresse
Por acaso você sabe
a razão desta má sorte?
Tanta água aqui não cabe
Não há barco que suporte
Sou rebelde e infiel
Não devia estar aqui
Do juízo sou o réu
A Deus desobedeci
Não me poupem, por favor
É melhor lançar-me ao mar
Não duvidem, o furor
certamente acalmará
Quero ser um homem honrado
Não descartem a esperança
Depois que eu for lançado
Virá logo a bonança
Ao ouvir meu argumento
tão estranho, tão insano
Sem remorso ou lamento
me lançaram no oceano
O meu corpo cai inerte
e chega ao fundo do abismo
Lanço na morte o meu flerte
Lá se vai meu otimismo
Pelo menos ninguém mais
vai pagar pelo meu ato
Se eu sofrer, sofro em paz
É mais justo e sensato
O que foi que aconteceu?
Onde é que fui parar?
Este cheiro, este breu
No inferno devo estar
Oh Senhor, ouve minha prece
Recebi o que merece
todo que te aborrece
e a tua Lei desobedece
Oh Senhor, ouve minha voz
Eis-me aflito, arrependido
Meu castigo é atroz
Porém, justo e merecido
Quero a chance de seguir
O caminho que traçaste
Que eu alcance no porvir
Tudo o que Tu planejaste
Querido diário de bordo
Uma luz à frente raia
De alegria me transbordo
Vomitado nesta praia
O que foi que me engoliu
Parecia meu castigo
Era a graça que sorriu
e me pôs em seu abrigo
Avalanche
Não repare minha voz estar fanha
Se algo me engasga e embarga
Nem me encare, pois o trauma me acanha
O que era doce me rasga e amarga
Quero expor o que quer que eu tenha
Dar à luz, pois minh’alma está prenha
Sensatez naquele que sonha
cede a vez à dor e a vergonha
Não importa o que se proponha
Travesseiro perdeu sua fronha
Se quer me encontrar, então venha
Se vai me acessar, eis a senha
Mas para conter a avalanche
O perdão em vez da revanche
Se custou pra montar, não desmanche
Se já está limpo, não manche
Perdoe-me se te insulto
Se exponho o que estava oculto
Do que vale se tudo te estranha
Se nem tua superfície arranha
Só há cura se a ferida é exposta
Se o amor for além da aposta
Ideal
Não é por fama ou por aplauso,
Nem pela luz do holofote
Se o escândalo eu causo
Ou soberba que eu arrote
Que esta chama, que este alvo
Se me apague, alguém sabote
Que milagre ou prodígio,
Vai impor o meu querer?
Não busco posse ou prestígio,
Nem prazer, ou o poder
Mas...
Um ideal pelo qual morrer
Um amor para o qual viver
Ao oprimido estendo a mão
Às injustiças eu cerro o punho
Ao desterrado, pedaço de chão
Ao desesperado, meu testemunho
Saio às ruas para proclamar
Que um novo tempo já se insinua
No horizonte a esperança a raiar
Que a distância entre nós diminua
E o que a mão esquerda fizer
A direita não saiba jamais
Que eu sofra a perda que vier
Mas não desista, nem olhe pra trás
O Seu amor hei de manifestar
No sacrifício pelo semelhante
Com o Seu perdão quero aterrar
o precipício que houver adiante
Quero ser voz para o mudo
para o mais fraco, hei de ser um escudo
Quero ser luz no escuro
Faz de mim seta que aponte o futuro
Jogo da vida
A banca está aberta
para quem quer apostar
Se falha ou acerta
só sabe quem pagar
O futuro está em jogo
roletas a girar
Depois de aceso o fogo
quem pode apagar?
Os dados viciados
garantem a ilusão
os mesmos resultados
eis a conspiração!
Rebeldes contra o mal
Que rompem com o jogo desleal
Vamos nos rebelar
e toda injustiça denunciar
Prudência não faz mal
Quem vence é quem luta até o final
Não é questão de sorte
nem jogo de azar
Nem sempre é o forte
que entra pra ganhar
Se a regra agora é esta
as fichas vou lançar
O que me espera é festa
O futuro certo está
Ambidestro
Desnudo minh’alma
devagar, peça a peça
Ninguém sequer nota
Meu escudo é o trauma
de ter vida destra
e alma canhota
Nem tudo me acalma
Nem me interessa
Me aponte uma rota
Iludo a palma
da mão que tem pressa
e a outra boicota
Ao espelho sem pose
Somente reflexo
Imagem reversa
Se a lente der close
Verá quão complexo
é o ser que dispersa
Sob várias camadas
Sob a superfície
Esconde-se o magma
Energias domadas
Um vulcão na planície
Onde o ser não estagna
Meu prazer será
ultrapassar meu dever
Vou extravasar, porque
não há o que esconder
Dormir é ensaiar para morrer. Enquanto dormimos, o mundo segue funcionando normalmente. E quando partirmos, ele permanecerá girando e hospedando novas gerações.
Prefiro um cético ético a um crente incoerente. A incoerência deste pode ser responsável pelo ceticismo daquele.
Basicamente, existem duas ênfases contrastantes no meio cristão contemporâneo. Uma incentiva a fazer o bem, a outra, a como se dar bem. A primeira é ética, a segunda, patética.
O lucro é prejuízo quando o que foi negociado é a sua integridade. O prejuízo é lucro quando sua integridade mantem-se intacta.
O amor, e só o amor, deve pautar nossas agendas. Reduzir o amor a uma disputa insana do tipo "quem ama mais" é um absurdo. Ame e permita-se ser amado. Sem culpa, sem medo ou desejo de se afirmar... O detalhe, o segredo... é amar por amar.
Continuar a acreditar em quem lhe pediu que confirmasse uma mentira é passar atestado de ingenuidade.
Desejo que nossos sonhos de consumo não nos consumam! Que nosso amor ao poder não nos torne insensíveis ao poder do amor. Que aprendamos a dar valor às pequenas coisas que verdadeiramente dão sentido à vida, e nos desapeguemos daquelas que insistem em nos convencer de que são essenciais
"A manjedoura tipifica o coração humano onde Cristo escolheu nascer. Que conforto teríamos a lhe oferecer? Ainda assim, movido de amor, Ele Se aconchegou em nós".
