Coleção pessoal de HermesFernandes
Fico a me perguntar: Onde foi que perdemos Jesus? Penso que a exemplo de Maria e José, nós o perdemos dentro do templo, isto é, em nossa própria religiosidade.
Na busca frenética por um atalho que nos devolva a relevância, tomamos um beco se saída. Só nos resta dar marcha-ré e voltar ao primeiro amor.
Como cristão, não posso "cobrar" nada do mundo. Devo vencer pelo exemplo. Uma postura ética, comprometida e compassiva poderia constranger quem quer que se pusesse como oposição.
Segundo João, a vitória que vence o mundo é a nossa fé... e segundo Paulo, essa fé só opera pelo amor... o mesmo amor que, segundo João, lança fora todo o medo. E o mediador entre a fé e o amor chama-se esperança. Por isso, depois que tudo passar, somente esses três mosqueteiros permanecerão: a fé, a esperança e o amor.
A esperança é fruto da conjunção entre a fé e o amor. Fé desprovida de amor provoca o aborto da esperança.
A teologia moderna é responsável pelo divórcio entre o amor e a fé. Razão pela qual a esperança sequer é cogitada. O futuro deixou de ser o que era antes. Vivemos somente pelo aqui e agora. Nada mais nos interessa senão as demandas existenciais do momento.
Ainda prefiro o estresse ao tédio, o ativismo ao ócio, a frustração de não ter conseguido à de não ter sequer tentado.
Geralmente damos boas vindas a Jesus. Desde que Ele não se intrometa com nossos negócios, com a maneira como conduzimos nossa vida. Ele é muito bem-vindo na sala de estar, mas os quartos de nossa vida são mantidos impenetráveis. Se Ele se atrever a ultrapassar os limites impostos, nós mesmos o crucificaremos novamente.
Deus nos prepara uma mesa na presença dos nossos inimigos, não para envergonhá-los enquanto nos exalta, mas para que repartamos com eles o nosso pão e, assim, sejam constrangidos pelo poder do amor.
Entre o reino de Deus que devemos buscar e o acréscimo de todas as coisas (tão sonhado por muitos) há uma palavrinha que há muito tem sido negligenciada: JUSTIÇA.
Catequese
Quanta pretensão a minha!
Achar que detinha
o monopólio da raça
Que estupidez a minha!
Pensar que eu vinha
com o portfólio da graça
Eu com catequese
Tu com hospitalidade
Um rio que não se represe
desafia minha vaidade
Eu, civilizado
Tu, selvagem
Eu, educado
Tu, à margem
Teu sorriso fez calar o meu sermão
Onde piso não há lama, não há chão
O meu siso já nasceu, dói mais não
Meu juízo se perdeu na razão
O que pensava te levar
Tu trouxeste a mim
O Deus que fui te apresentar
Surpreendeu-me enfim
Minhas roupas, meus costumes
Não parecem te atrair
Tu me poupas de queixumes
Te contentas com o que vir
Não bastasse a pretensão
de impor as minhas crenças
Além da religião
Também trago-lhe doenças
Pela fé no deus do império
Te escravizo, te anulo
Roubo todo teu minério
Te ironizo, te rotulo
Quem levaria a sério
interesse travestido de amor
Se em nome do Mistério
se explora até a dor?
Com a cruz que se estampa
tanto escudos e brasões
Se conquista, se acampa
tantos mundos e rincões
Se déssemos ouvidos
ao que diz nosso Senhor
Em vez de oprimidos,
gente livre em amor
Que vergonha, que vexame
Deus não está nas catedrais
E quem sonha, busque ou ame,
Vai encontrá-lo nos quintais
Sob pontes, a relento
Em barracos de sapê
Na favela, assentamento
onde ninguém quer ou pode ver
Não te afrontes, te apresento
Nosso Rei e bem-querer
Velhos amigos são mensageiros do passado, que nos fazem ver quanta estrada já percorremos... Novos amigos são mensageiros do futuro que vêm para nos avisar o quanto ainda temos pela frente.
Penso que como seguidores de Cristo, deveríamos amar à humanidade como um todo, o que incluiria tanto o distante quanto o diferente, e não apenas o próximo e o semelhante.
Tenho sonhos que uma vida só não daria conta de realizar. Almejo coisas que estão pra além da minha própria existência.
Conheço bem a trilha sonora do meu passado, mas a do meu futuro ainda está sendo ensaiada. Já ouço seus primeiros acordes.
É diante da tragédia que percebemos o quão superficiais têm sido nossas mensagens, nossas canções, nossos estudos bíblicos, pois não nos preparam para encarar a vida como ela é, com suas demandas, suas dores, suas inquietações. Tornamo-nos numa geração mimada pela teologia da prosperidade e hinos triunfalistas. Sinto pesar pelas vítimas e vergonha por nossa apatia crônica. Deus nos desperte a tempo.
Qualquer expressão religiosa desprovida de misericórdia não passa de presunção, nada tem a ver com a proposta de Jesus, e por isso, deve ser rechaçada.
Aproveitar a dor alheia para empurrar nossa visão religiosa não é evangelismo, mas proselitismo, do tipo adotado pelos fariseus; em vez de alívio, agrava o sofrimento, tornando-o insuportável.
A falta de compaixão denuncia o estado miserável em que se encontra nossa alma. Como podemos anunciar uma salvação da qual carecemos desesperadamente?
