Coleção pessoal de Eliot
Erguido em alto monte
me encontro solitário ...
Permaneço em Oração, vigilante,
frente à Criação.
E eis:
Do alto dos Céus, pairando pelo
Éter, desceu em minhas mãos
a Espada-de-Luz de S. Miguel
e o Escudo-de-Paz de S. Jorge!
E eis-me, ungido, Cavaleiro-de-Cristo!
Nos românticos Poetas
a Lua perpetua
Amar, Amar de Terra em Terra,
Amar, Amar de Rua em Rua ...
E na loucura da Noite
esse Amor abrevia
até ao Nascer do Sol,
até ao romper do Dia.
Lua Pálida que vai tão alta
nas raias da morte,
frígida ou cálida
nas asas da solidão,
de face livida seráfica,
esquálida, perdida
que se esmalta e recorta
num infinito tão finito,
na imensidão do Coração!
Lua funda tão profunda
que m'inebria de Poesia,
rara calma suavidade
que meus lábios acarinha ...
Toma minha Alma tão sozinha,
será tua, sempre tua,
sê tu minha, sempre minha,
Pálida Lua!
Nasci da estranha
noite dos Poetas
num mundo que nunca
me entendeu,
uma infância distante
onde minh'Alma arrefeceu!
Alentejo -
P'los prados verdejantes
do meu Alentejo
há rebanhos de solidão
que pastam horas solenes,
guiados p'lo cajado,
conduzidos ao bordão:
campos-de-silêncio
de lirios pintados
de roxo adornados
nas telas do Coração!
Oh Ceifeira do monte! ...
Ceifas ao relento
ceifas à calma,
deixa que te conte,
ouve este canto,
leva as minhas penas
a Saudade e o pranto!
E quando à sombra do montado
enfim descanso minhas culpas,
repouso meus pecados,
agradeço ao Universo
e deixo ali um Beijo:
serás sempre tão meu,
meu-doce-Alentejo!
A outra Face da Vida -
A Morte não existe,
somos Seres Imortais ...
Estamos vivos desde Sempre
e viveremos para sempre!
Fazemos parte de um Sistema Vivo
que Eternamente se Recicla ...
Somos Seres Reencarnantes,
a parte Humana de Deus
que habita a Eternidade.
A Consciência de "não-Morte"
é a percepção de que a Morte
é a outra Face da Vida.
Somos Almas e não corpos!
Verbo Amar -
EU AMO o que tu és
expresso p'lo teu corpo,
nascido da tua Alma...
TU AMAS o mundo naquilo que ele é
fugindo de nós ...
ELE AMA o que tu não és,
quando estando tão perto
está tão longe de ti.
NÓS AMAMOS, quando juntos,
envolvidos, nos tocamos, entregamos,
...instante... apenas isso ... breve instante!
VÓS AMAIS somente,
o que separados nós não somos,
quando longe nos situamos...
ELES AMAM sem sonhar
o desejo que os possui,
apenas querem outros corpos
não nos sabem AMAR!
Quem sabe um dia,
se aprenderei a conjugar
de forma mais Feliz
a Profundidade do Verbo AMAR
Louro -
Sobre um ramo de Loureiro floresceu meu Coração,
nasceu densa, obscura, minh'Alma inspirada ...
Fiquei longe, na lonjura ... pena-de-Poeta,
linhagem d'oiro, geração desprezada!
Depois, gritei distante, fiquei a sós
e escutei ao longe, o Nome de meu Avô!
Ao ouvi-lo, escaldou-me o sangue na voz
por também Ser "LOURO", por lembrar que o Sou!
"Nobre-LOURO", teara-de-Poeta!
Raiz funda no mais fundo do meu Ser,
coroa-do-heroi, meu punho d'Asceta!
Não chorem por mim se Eu morrer!
Irei "coroado-de-Louros": nasci distante, cresci na dor, "morri Poeta!"
Minha Vida foi toda um bem-querer!
DISSE UM DIA O ORÁCULO DE KUNIAM SOBRE MIM:
23) "Subindo ao Loureiro"
" Se ascenderes ao palácio da Lua,
atravessando Loureiros,
não penses se o portal celeste
te será aberto ou não,espera,
de todos os lados chegarão boas notícias,
e no topo da montanha desabrocharão sorrisos como
flores ..."
meio morto, meio vivo,
Amor-perdido, doer calado,
sem passado nem presente,
- ser sofrido!
meio aqui, meio nada,
Amor-sem, doer confuso,
ser distante, esvaziado
- de tudo!
meio cego, meio tonto,
ser que sente fora,
meio vazio, abandonado
- em luto!
Amor-confuso que não entendo,
tão louco, tão vencido,
repensar pensando, pensamento
- louco!
De tanto esperar arrefeci:
Olhei em torno da Vida
e não te vi, senti que te perdi!
Corri, chorei, sofri ...
De tanto olhar ceguei:
Esperei perdido onde não sei
que o tempo parou em teu retrato
onde também eu parei.
De tanto Amar morri:
Chegaste, gritaste ... mas já não ouvi.
Era tarde! Estava longe, tão longe
que nem te vi ...
Ficou o beijo que me deste
e que trouxe em minha mão.
Talvez tivesse esperado mais
se conhecesse bem teu Coração!
Às Dores de minha mãe -
Eu que não era
vim de onde não sei
e foi em breve Primavera
que em teu ventre me gerei.
Mãe! Eu nasci das dores de minha mãe!
Oh minha mãe! Foi em teu ventre,
foi no ventre de minha mãe ...
Poderei algum dia esquece-lo?!
Deverei juntar minhas mãos
e algum dia agradece-lo?!
Serão apenas momentos vãos,
palavra alguma poderá agradecer
ao ventre de minha mãe.
Oh minha mãe! Foi em teu ventre,
foi no ventre de minha mãe...
Mãe minha, minha mãe ...
Em ti me fiz poeta
em águas-de-solidão
e masceu minh'Alma insurrecta
do teu sanguíneo coração.
Mãe, minha mãe! Foi em teu ventre,
foi no ventre de mimha mãe.
Toma-me ó Vida
em teu regaço extenso,
em teu seio Sagrado e Oculto
num gesto longo e profundo!
Deus!
Vida implantada no meu Rio,
espiral de brilho e memória
onde a morte desvanece!
És Sopro!
Tempo,
Alento,
Vento ...
Évora (Cidade onde Nasci)
Évora! Cidade onde nasci
e onde minh'Alma pereceu.
Terra de palavras agudas
e olhos que culpam
onde meu Coração se perdeu.
Évora! Ruas negras, escuras, escusas
sem nada ... de calçadas incertas
e vozes caladas que tanto sentiram
o penar dos meus passos.
Terra de pedras e punhais,
de farpas e de foices
onde sinto ainda o peso da solidão!
E só à noite, quando os Credos recolhem
e os Ecos se calam...aí Sim!... Évora...
posso ver o teu olhar, o teu encanto,
o teu perfil!
Não era tua a voz que gritava,
eram as vozes das gentes,
empedernidas, austeras!
Ah Évora, como é bom ter-te na noite,
no silêncio do teu olhar, no sussurro das tuas águas,
no calor das tuas ruas, nas Brumas da tua Alma!
Oh Évora, encanto dos meus olhos
que embala os meus sentidos...caminho-te...
meu berço de Paz na quietude criança...
e se um dia partir, sei!
Levarei em meu regaço tua Alma,
teu jeito de Flôr Bela,
teu olhar de menina e moça
num mês de Abril!
Nevoeiro dos Sentidos -
Os mortos dos meus mortos
trago nos sentidos,
num berço de saudade
os trago adormecidos.
Ai,saudade efemera sem paz
que vive em mim
pobre mortal de Deus nascido!
Minh'Alma sepultada
neste espesso nevoeiro
adormece os mortos
no frio dos meus sentidos,
mas se acordado
os sinto adormecidos,
despertam depois quando adormeço.
E em cada noite que me deito
liberto-me da matéria,
abraço-os, recordo-os...
Esvai-se o nevoeiro espesso
e numa imensidão aerea
sonho, acordo e adormeço.
"quasi madrugada"
Sinto-me um TODO enquanto Alma singular quando atinjo o além-forma. É o extase total desta minha Humana existência...
ÉVORA -
Ir àDescoberta de Évora é ensinar a todos os interessados, mais ou menos conhecedores da cidade, que olhem para Évora com outros olhos, que descubram nas actuais pedrarias, ruas e edificios quem, como nós, a já habitou, viveu e construiu. Outros Tempos, outras Eras, outras Idades, tudo ainda subjacente ao aqui e ao agora que vivemos. Pormenores que desvendam épocas agora encobertas pela actual modernidade mas tão presentes ainda.
Virgilio Ferreira que a habitou escreveu certa vez:
"Évora é uma cidade branca como uma capela. As veredas dos campos convergem para ela como os rastos de esperança dos Homens. E, tal como uma capela, Évora é habitada pelo silêncio dos séculos e dos campos que a envolvem ..."
Por sua vez, Florbela Espanca descreveu-a nos seus sonetos como "(...) Ruas ermas sob os Céus cor de violetas roxas ... ruas frades pedindo em triste penitência a Deus que nos perdoe as miseras vaidades."
Cecilia Meirelles, poetisa Brasileira que certa vez a visitou, chamou-lhe Évora Branca e disse que sentia "como se o escultor tivesse querido imortaliza-la. Porque há em Évora um silêncio de cetim, franzido apenas de repente pelo fernesim dos pombos, pelo frémito da água esverdeada ... amo a sobriedade gráfica das suas muralhas que caminham para longe como o dorso eriçado de um animal ante-diluviano, e as torres quadradas, e os parapeitos sobre os arcos, e o vulto maciço dos palácios ... tudo tem uma grandeza, uma dignidade que o cimento armado, a meus olhos, não consegue ter ..."
Miguel Torga cita-a: "Não tenho nas minhas veias, nem o templo de Diana, nem a praça do Geraldo, nem a brancura redonda da água das tuas fontes..."
Em Évora Romântica Ricardo Louro escreveu: E vejo o Templo, a Sé, em longas margens de sossego, na serenidade dos heróis, na tristeza das fachadas, na dolência dos jardins, na quietade dos olhares, na plenitude das gentes, que, pela vida, agora, tantos anos volvidos, ainda vão passando, serenas, imutáveis, imberbes!
Venha ao encontro de Évora onde tanta vida se já viveu, tanta vida se vive agora e tanta há ainda por viver.
Aqui -
Aqui
encostado à madrugada
e ao silêncio
todo o meu ser se encontra
nú
cheio de brocados
cheio de sonhos
cheio de abismos e nostalgias!
Aqui
frente a frente com o mar
não sei o que me espera
nem tampouco se viverei
perdi-me da infância
perdi a juventude
mas a vida ainda está Aqui!
Estrelas no Olhar -
Trazia estrelas no olhar
as esquinas de cada rua
os cantos de cada Alma
e ninguém podia imaginar
que um dia seria sua
a alegria, a paz e a calma!
E tanta vida por viver
nas teias que o destino dá ...
Na verdade de cada gesto
há sempre tanto por saber
vá cada um por onde vá
num silêncio manifesto!
E chega de viver a vida
como barcos ancorados
cheios de noite e solidão
essa mágoa concebida
dos nossos antepassados
deve sair do coração!
Que a vida gasta e sombria
imóvel e cansada
incapaz de amar alguém
vaga, triste e vazia
vento sobre água parada
nunca serviu para ninguém.
- AVES PARADAS -
Aves paradas numa tarde que voa
oblíqua madrugada cheia de mãos vazias
silêncio que em meus lábios canta e ressoa
tudo fechado naquilo que dizias!
Tudo parado cheio de dor e espanto
a vida passando num dobrar de engano
na aridez do deserto, num mudo canto,
hora a hora, dia a dia, ano a ano!
E as forças de uma ausência revelada
geraram frutos para as mãos vazias
gemendo sob uma lágrima chorada ...
E a nós, desembarcados, nús ... maldizias:
não somos mais do que aves paradas
na tarde que passa voando de mãos vazias!
Sempre que morre um Nobre
com Ele segue parte da História
da sua Pátria
porque Ele é a própria História...
