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Coleção pessoal de Eliot

861 - 880 do total de 1102 pensamentos na coleção de Eliot

⁠Hoje -

E hoje?!
Que se passa hoje em meu Coração?!

Amanheceu o dia e a noite cobre-me ainda!
Estranha solidão que me aglutina os sentidos,
- dia turvo e vazio!

E onde estou?! Onde?! Onde fiquei?! ...

Ó Senhor que me não vem a menor
consolação de Ti ...
Porque me tens tão esquecido?!
Tão cego e possuído ...

⁠Intima Impotência: diálogo -

"- Onde foste Ricardo?"
- Fui ali pedir a Deus
que me deixasse morrer! ...

"- E porque vens tão triste?!!"
- Porque Deus me disse que tenho
que viver ...

"- E isso é mau?!"
- Não! É triste ... perturbador...

"- Porquê?!"
- Porque para mim, nesta dor, viver é morrer
e morrer é viver ...

"- Ó Poeta, sempre tão confuso,
sempre a sofrer ..."

⁠A Vida de meus olhos vai morrendo -

Tanto Amor que fica por viver:
- abraços por dar, corpos por sentir,
corações por palpitar ...

E A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRENDO!

Rubras manhãs futuras por chegar,
gritos renovados e floridos, intimos, contidos, por Primaveras a chegar ...

E A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRENDO!

Tanto caminho por andar
em calha de Terra Prometida,
tantas aves a debandar ...

E A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRENDO!

Mares sem fim por nevegar,
paisagens olvidas, ocultas,
montes rios e vales por sentir,viver, tocar ...

E A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRENDO!

Tanto silêncio em minha Alma
em horas de calar e de sofrer,
amargura sem Esperança nem chama ...

E A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRENDO!

É o medo das palavras recolhidas
que espera o amanhecer de cada dia
numa alegria tão fingida ...

E A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRENDO!

Tanta presença por acontecer
no meu intimo cenário!
E quanta pressa em sofrer
nos passos da partida que se adensam
quando a ultima jornada já se vê ...

... PORQUE A VIDA DE MEUS OLHOS VAI MORRER!

⁠Natal ... tempo de memória -

Natal.
Tempo de Memória.
Tempo de celebração.

Celebração de um outro tempo,
de um tempo bem antigo.
Aquando d'um luminoso nascimento:
Deus no seu filho que humano
baixou à Terra!

"... e a noite se fez dia ..."
enorme acontecimento!

Não é, no entanto, velado
na poeira da História,
encapsulado em vagos sentimentos
ou preso na teia obscura da memória
que o Cristo permanece.

Revela-se na abundância
d'uma secreta mutação,
na Vibração eterna
que é a Vida da Alma.

É na presença subtil
do nosso Templo Interior,
que de novo,
em cada Ser humano,
o Cristo se manifestará:
no intimo silêncio
do Ser Interno,
na Alquimia do Sangue,
no Espaço do Incomunicavel ...

Natal é Tempo vivo,
Tempo presente ...
Natal é para todos e cada um
uma imensa oportunidade
de Luz Maior.

Natal é mais um dia
de uma Eterna Revelação ...

⁠No Enterro da minha Gente -

Sou ultimo vivente
d'uma infancia mal fadada
e recordo essa gente
numa fria madrugada
onde minh'alma sò
se via sem nada! ...

Minha vida foi diferente
do que queria a minha gente!

Eles nunca me entenderam...
Eles nunca me sentiram...
Eles não me deram nada ...

E a repulsa que lhes tive,
amargura que senti
fez de mim estrangeiro em casa ...

E o que ficou dessa ferida,
nessa fria madrugada,
entre a casa abandonada
e a minh'alma sem nada?!

Ficou a morte dessa infância
no enterro da minha gente ...

E alguém mais sofrerá a dor desta distancia?!
Haverá alguém mais que assim sente?!

Qu'importa?!

Sepulto os mortos do meu sangue
nessa casa abandonada.
E repouso por fim em paz, nesta hora,
no frio da madrugada...

Eles nunca me entenderam...
Eles não me deram nada ...

⁠Poema inacabado -

Numa praia distante
ficou meu corpo abandonado!

Sonho esquecido,
coração afogado,
naufrago perdido,
abraço não dado.

Numa praia longinqua
ficou este Fado, intimo gemido,
Poema inacabado ...

⁠Não Chorem -

Não chorem por mim quando eu morrer!
Desfolhem antes rosas brancas sobre o meu caixão.
Para que minh’Alma se eleve aos Céus,
num intimo acenar, Sem medo de vos perder …

⁠Perdão -

Quando passaram todos e quedou silêncio
sobrou a raiz da noite onde só é presente
o que sabemos vão!

E eis que quando a dor já de ninguém
se esconde, tudo na Vida é contradição.

Senhor, Senhor que nos foi dado Amar,
porque nos afogamos nós, sem nadar,
em Águas-de-solidão?!

Perdão Senhor ... perdão ...

Os olhos só devem chorar
Quando a dor não tiver tamanho!
É aí que tudo começa ...
É aí que tudo termina ...
As lágrimas viram pó
E os olhos ficam secos
Como a terra árida dum deserto!
Nada fica! Tudo morre!
Até a morte se esvai ...
Só eu fico nesse fundo que não
Sabia!

⁠Um Gin apenas -

Porque serão as noites tão sombrias
quando não estás em mim?!
Porque serão os dias tão claros?!
Os Mares tão fundos?!
As gentes tão normais?!

Tudo passa tão igual,
tão intenso, tão discreto!
Mas nada é igual ...

Não te vejo.
Não te sinto.
Não te encontro.
Porque não estas aqui?!

És um Gin - apenas!
Este Gin!
Um pobre Gin ...

Mas nada é igual! Nada!
E onde estarás tu nesta noite
tão fria?!...

És um Gin ... um Gin apenas ...
... um pobre Gin ...

⁠Eu sou Noite -

Eu sou noite!
E vim de parte incerta.
Espaço que não existe ...

Eu sou noite!
Sou vento que resiste - que insiste ...
Vim amar-te - sem meta!

Cheguei e estou aqui!

Eu sou a tua noite, agora,
sem tempo, nem hora ...

⁠O que nos Separa -

Entre mim e ti
há um vazio suspenso
que nos separa!
Um espaço imenso manchado
de saudade.
Vontade que não domino,
solidão a que pertenço!
E repara, eis a verdade:
cruel, dura, fria!
Lamento que assim seja,
mas é mais forte o que nos afasta
do que o que tu queres que nos una!

⁠Elegia a Monsaraz -


Ó minha terra!
Terra minha, tão perto
e tão distante ...
Navio imerso nos meus sonhos!
Berço onde desci
ao mar da vida sem ternura.
Deixa que te veja, hoje e sempre
entre noite escura.
Monsaraz,
senhora minha,
madre,
raiz!
Diz-me onde te feri!
Teu semblante me proteja!
Teu olhar, sombras e recantos,
me afague, sossegue, recolha ...
Não há planura sem horizonte
ou pátria sem Alma,
não há prados como os teus
cobertos por um véu ...
Monsaraz, aia dos meus dias,
senhora dos meus cedros,
madre do meu tecto,
raiz do meu loureiro.
Diz-me onde te perdi!
Ai, quanto me dói em ti meu coração!
Talvez por magoa ou saudade, angustia
ou solidão ... aquela solidão,
a nossa solidão!
Solidão imensa de quem é teu!
E eu sou-o sem demora.
Desperta Monsaraz, vila morta!
Que o tempo passa e com ele passo eu,
fecha-se-me a porta ...
Acorda! Desperta! Recorda!
Tu ficas, intima, infinita ... eu parto,
poeta, errante!
Ó minha terra-fria,
tão perto, tão distante ...

⁠Passo de Solidão -

Eu sou no mundo
um intenso respirar d'angustias!
Sou na vida um imenso passo-de-solidão...

E rasgo a noite sem dizer que vou ...

Choro e escrevo poemas de dentro da Alma.

Mas ninguém me vê como realmente sou
porque eu só passo á hora estranha
de ninguém!

Sou aquele que está onde ninguém passa ...
Sou o que passa onde ninguém está!

Eu sou no mundo um intenso respirar d'ângustias!
Sou na vida um imenso passo-de-solidão!

⁠Mãos Cansadas -

Mãos cansadas
da vida qu'inventei
do olhar que ceguei
dos gestos que não fiz
das palavras que calei ...

Mãos-feridas
em corpos qu'enterrei
braços que fechei
palavras que não disse
beijos que não dei ...

Mãos-frias de coração quente
amor-morto por punhal-ardente!

Ninguém vê o que minh'Alma sente!
E quem diz que me vê mente!
Porque apenas pensa, não me sente!

À Ophélia de shakespeare -

⁠Está morta Ophélia
em ataúde fechado - matou-se!
Seus olhos selados, longínquos,
rasos d'água dois pássaros caídos
vindos do passado.
Suas mãos em flôr dois barcos sem amarras,
sem côr.
O crepúsculo seu corpo inteiro, imóvel,
parado...
Ophélia matou-se! Matou-se!
E de braços em Cruz sobre o peito,
segue Ophélia pela morte, sem jeito,
como segue um romeiro ...
E aonde irá?!...
Qual será seu mote?!
Lívida a face.
Leva nos olhos a morte!
Dois pássaros caídos dum céu aberto.
Um céu que é longe mas que já foi perto.
Ophélia matou-se! Matou-se!
E com estrelas repousando no regaço,
botões de esperança a cada passo,
procura ainda sem descanso,
jaz morta arrefecida, no abraço do rio,
p'la face do seu amado ...

⁠Noite I -

Não há nada! Ninguém!
Só o pó do dia que passou.
As pedras congeladas, ao frio,
num imenso Céu aberto.
Nem o vento se ouve ...
Não há nada! Não há gentes!
Só solidão! Saudade!
Folhas caídas no chão.
Casas sem idade.
Mas onde? No Além?!
Lá também não há ninguém!

⁠Vozes de Ricardo Maria Louro -

Desperto me Sou
no silêncio da madrugada
adormecida ...
Oiço Vozes! Tantas Vozes!
Mil VOZES que oiço!
Meu leito está vazio.
Ausente. Sombrio.
Não me sinto!
Sinto medo ...
Porque escorrem águas
do meu Ser?!
Tantas águas!
Mil águas que escorrem!
E as VOZES já são gritos
e os gritos agonias
e as agonias saudade!
Tanto que meu corpo envelheceu!
O Tempo passou ... passou ...
Foi a morte que o levou!
E minha Vida se morreu ...
Foi-se como um vidro partido!
Mas afinal o que se perdeu?
O Poeta ficou!
Nos versos que escreveu!
Das VOZES que escutou ...

Noite de Gelo -

⁠Longe, embora perto,
o murmurio rouco e confuso
de vozes na noite
num Porto sempre por achar!

Estranha noite aquela,
noite em que me vi só,
tão só ...

Poço! Onde mãos, corpos,
Almas se confundem, se tocam,
se contaminam ...

Distancia imensa,
dolorosa e sangrenta.
Coitos de morte,
onde gestos amargos,
inquietos, obcessivos
nascem da memória de outros gestos.

- Esses, onde a Vida corre
e a ternura é o fio.

Em mim, uma plena consciência
do marulhar desse pantano humano
e distante.

- Uma fracção de voz,
um grito, um gemido.

Em mim, um imenso desidério,
cósmico, Lunar afastamento.

- Misto de Luz e frio,
proximidade real,
lonjura sem alcançe!

⁠Aquando da tua Morte -


Diz-me porque não ouves?
A rua continua - e o barulho da gente
que vai e vem e volta sem sentido.
Só tu ficaste - num fundo
que não sabias.

Porque ficas assim? Já nem há lágrimas
nos teus olhos excessivamente abertos.
Devem correr nos rios em qualquer parte.
E a Primavera há-de voltar um dia
ao Coração das flores.

Porque ficam os teus dedos imóveis
e o teu corpo - como se acabasses para sempre?

Prendeu-se-te aos ombros uma noite tão funda.
- Teus frágeis ombros.
A minha Alma é parada e enlouquece.
É terrivel a hora - imenso
o espaço aberto em teu redor.

Que fazes a meio dum espaço tão imenso?
Teus lábios são longe das palavras.
Só a dor é presente e cega-me os sentidos.
A dor agarra-se-me ao corpo.
- E a tua noite - veio - cobre-me todo!

Haverá Rios ainda?!

Não sou mais nada que a tua noite - agora -
assim, parado, a meio tempo ...
Subito foi-se-me a Vida como um vidro partido!
E todos os gestos me são inuteis.

Haverá Mães em lugares aquecidos
que embalem docemente um Filho?!
Em mim não nasce nada!
Estou. - E olho-te como quem não vê!

- Sentes o longo gemido da Terra?
O que fica.
Depois de tudo se fechar!!!