Coleção pessoal de Eliot
Quadra Ausente -
Ausente e triste perdido se ressente!
Assente-se perdido, ausente e triste!
E porque se assente tão ausente?!
Ausente e triste assente-se perdido ...
...........triste ......................
e............................ausente....
.....perdido............................
..................se......ressente......
E não é de ninguém! Infinita solidão ...
Ninguém lhe é ou pertencera!
Só quer Amar! Triste contradição ...
Ninguém o quer! Não há perdão!
Queimou na vela, derreteu na cera,
quadra ausente na cinza do chão!
Sonho Desmentido -
E porque
cheguei
de parte
alguma,
deitei-me
e adormeci!
Imaginei
que
o amanhã
era possível
e entrei
num Mundo
etéreo
e invisível!
Por lá
deambulei,
austero
e incompleto!
Um sonhador ...
... O que
procurava ...
... não sei!
Mas era tudo
tão real ...
...tão falsamente
verdade ...
... como tu!
Estranho
odor a
fantasia!
Tu
e Eu!
Um
sonho
desmentido!
Uma promessa
inacabada!
Um Nós
tão iludido,
um Eu
tão manchado,
um Só
tão perdido ...
E despertei!
O dia, real
e verdadeiro,
finalmente
acontecia!
Mágoas Intimas -
Quando recordo
a mocidade,
vem-me à
lembrança,
aquela triste
criança de
tenra idade
no tempo
da infância!
E recordo o
sonho que me
jazia
numa única
ganância.
Ver-me ao
longe,
bem distante
daquela
infância!
Gritos que
soltei em
desajustes
tão crueis,
coisas que
passaram
em casas
que desabei!
Tantos sonhos,
tanta gente
em mim matei!
Mas matei!!!
Juntei as mãos
e rezei!
Foi assim
que suportei!
Pobre criança!!!
Acreditei!
Senti-me
folha-de-pael,
não-escrito,
em branco,
sem linhas,
proscrito ...
Fui poema
inacabado,
passaro ferido,
morto, desgarrado!
Sem tino nem
destino!
Coração perdido,
sangrado,
rosto escondido,
marcado!
Ser distante,
infeliz,
magoado ...
Fantasma triste,
vindo do passado!
Arcanjo sem
asas, depenado!
Passaro caido,
alado!
Mas houve
um dia
que vooei!
Fui p'ra lá
daquela infância,
daquela mocidade,
e hoje, já não sou
a pobre criança
que outrora
sofreu a dor
daquela idade ...
E essa gente,
Seres tão castos,
ainda mente!
É gente
que ressente
e permanece,
fria e austera,
perto e distante ...
Coitados!!!
Coitados!!!
Até aos 24 Anos -
Nasci póstumo!
Neto de Alguém…
Avô de mim mesmo…
Filho de Ninguém ...
E de onde vim?!
De parte incerta
- por certo! -
Vivi póstumo na Vida,
tão póstumo,
que da Vida me perdi ...
E o que de mim fiz?!
Alguém que longe,
de tão longe
chegou a Si!
Profunda sintonia,
estranha contradição...
Mui mal me senti ...
Aqui e ali ...
Sem Coração!
Aquém-de-mim !
Num Universo sem fim ...
Meu triste e pobre Universo!
Sem verso, nem reverso,
fui Poeta, Solidão, Fado e Asceta,
intima Espiral de profunda comunhão!
No Largo da Igreja -
Há neste recinto
uma Paz
consoladora
qu'invade
o Coração!
No altar da
capela,
a Senhora
da Orada
de branco
vestida
de flores
adornada
dá-nos a
bênção!
Alta, risonha,
de mãos postas,
cabelo a cair,
em ondas,
p'las costas!
Na fina incarnação
dos lábios seus,
descerrados,
há nenúfares
de Amor,
em seus olhos
constelados...
E Confundindo-nos
a razão frente
ao sentimento,
a Sra. da Orada
é a Luz no
Firmamento!
E segue a
Procissão
p'lo adro
da Igreja,
com tal
graça,
devoção,
qu'ilumina
as Estrelas
e engrandece
o Coração!
Tlão! Tlão! Tlão!
Soa o Sino
no torreão ...
E o Povo
com devoção
leva a Senhora
da Orada
em grande
Procissão!
Entre foguetes,
bombas, cantares
e oração ...
A Senhora
do Convento,
num andor
de madeira,
manto de seda
esvoaçando
ao vento,
brincos, anéis
de estimação,
rodeada de flores,
mãos postas
junto ao ventre,
véu branco
sobre as costas,
irradia p'la aldeia,
Amor, paz e unção ...
Lord -
Nossos olhos se cruzaram
pelas ruas do Chiado em horas de temor
e em nossos Corações
logo soçobrou a expectativa d'um Amor!
Foi entre gentios que o nosso encontro
brotou! ... e ficamos a sós!
Alvo, esguio, sereno,
trazia charme nas mãos!
- um Lord -
Vivia nas recepções da embaixada
entre a Corte e a Diplomacia
mas era uma Alma atormentada,
quando só, tão só, se revia!
Culto, fino, bem-talhado,
mas só, tão só, se sentia! Dizia!
Mas quem acreditaria,
ante aquele encanto,
que o Cônsul do Consulado
vive-se num pranto
sem Amar nem ser amado?!
Depois de horas de Mistério,
olhares, ternuras e abraços,
num imenso desidério,
o Cônsul do Consulado,
saiu à pressa, muito sério ...
"- Até breve! Em breve regresso …"
Telefonou!
" -Perdão, mas tenho que voltar
àquele que me deixou!
Tenho que tentar ...
Teria sido para Nós um bom começo!
Adeus ..."
E não voltou!
Era o que temia!
Alguém a quem amava
mas que junto a mim não existia!
Tudo desfeito! Conta errada!
Eu de novo sem expectativa,
ele de volta à Embaixada!
O Leque Rendilhado da Infância -
Recordo um tempo que passou
da minha infância tão longínqua!
Quando vivia acompanhado mas tão só ...
E alembro o olhar doce de meu Avô
sobre o rosto de minha Avó!
Mas minha Alma fica amargurada
ao sabe-lo morto, tão distante,
e minha Avó, ao vê-la, tão velhinha,
em ultima jornada!
Que lúgubres caminhos!
Que solidões ardentes!
Vendaval de lívidos horrores
onde nem as orações já salvam
os seus crentes!
Que triste sonho o meu!
Vejo-me sozinho!
Sem ninguém que me conforte!
Nas tristes ilusões do meu caminho
só já pressinto as lágrimas da morte!
Que triste sorte!!!
Os anos vão passando ...
E essa branca Senhora, serena, minha Avó,
que sempre vi atrás de mim chorando,
no decorrer da minha curta Vida,
vai a cada dia, a Deus, sua Alma entregando ...
Recordo o leque preto, rendilhado,
que nas suas alvas mãos, tão delicadas,
lhe refrescava o colo, na Igreja!
Com ele, tapava as lágrimas choradas,
nas longas Orações, rezadas, tão sentidas,
que fazia à Senhora da Orada ...
Era branca, minha Avó,
como as esculturas
dos mármores Cristãos!
E em suas pálidas mãos,
tinha o leque preto, rendilhado,
sempre refrescando o Coração ...
Ai aquele leque!
O leque preto da Avó!
O leque rendilhado da infância!
Que ao recordar
me deixa menos só!
- À Senhora Condessa de Monsaraz -
Há no espaço um aroma que perdura!
Vai passando a Senhora Condessa de Monsaraz.
Que graça, que encanto, que candura
nos deixa, ao olhar, aquela alvissima escultura
que um artista já não faz!
Que doce e fundo olhar, mensageiro, de Alma pura!
Amor em canto de Poeta, que nos apraz,
alvissima, pairando pela vida, vestida de ternura,
a Senhora Condessa de Monsaraz!
Ao vê-la, meu Coração, intimo, murmura
uma oração à sua magnifica beleza!
E sinto, dentro em mim, uma unica certeza,
que sua Alma se desfaz em água pura ...
Pois paira alvissima, vestida de ternura,
a Senhora Condessa de Monsaraz!
Poetas que escreveis sobre a beleza,
pintores que pintais a formusura,
fixai essa eterna e etérica figura
que com certeza, pelo mundo, já não há!
Que permanece alvissima, vestida de ternura,
a Senhora Condessa de Monsaraz!
Alembradura -
Horas convulsas
da minha
aldeia!
Noites sem
Lua,
dias sem
Sol,
campos de
flores,
trigo e aveia,
tantas sementes
que o espaço
alteia ...
E um monte
de estevas,
ergue ao longe,
na umbra,
uma Terra audaz!
"- Ó menino,
tu não te
atrevas ir
sozinho a
Monsaraz!"
Dizia meu Avô!
Dizia minha Avó!
Montes e vales,
rochas traiçoeiras,
hortas e vinhedos,
cercas perturbantes,
bichos e cobras,
por aí, nas eiras,
onde eu andava
dantes ...
No Outeiro!
Na minha Aldeia!
Criança sem rumo,
pelo orvalho,
diziam meus Avós,
atormentados:
"- o menino
não levou
agasalho! ..."
E quando regressava
dessas voltas,
sempre, de meus Avós,
preocupados, escutava
um ralho!
E hoje, mais só,
que dura saudade!
Desse Tempo ...
Desse Espaço ...
De meu Avô ...
De minha Avó ...
Saudade que perdura,
nessa Casa da Infância,
nesta fria-alembradura ...
Maria da Graça -
Nos longos madrigais
destes campos do Alentejo
andam moças aos Ais
de-desejo-em-desejo ...
Campos de trigo, campos de seiva,
plantados com suor por esta gente!
Que a Senhora da Orada lhos proteja,
hoje aqui e para sempre ...
E no Outeiro da saudade,
junto à Monsaraz do Coração,
há hortas, campos de piedade,
vinhedos, imersos em solidão!
E ouve-se ao longe, no Outeiro, uma canção!
É uma jovem com ternura e encanto
que canta e encanta a ilusão
ao ponto de calar até o pranto!
Agita-se-lhe o canto na garganta,
sai-lhe pela boca graciosa,
e toda a gente se espanta
ao ouvi-la cantar tão formosa...
Seus olhos quando chora,
sua boca quando ri,
são graciosas auroras,
pedras preciosas: esmeraldas e rubis.
E quando feliz ela passa
pela porta das gentes,
chamam-na: "- Maria da Graça!
Canta lá o que sentes ..."
Que Graça, que encanto, que ternura
levava a Maria no Coração,
qu'inda hoje, na memória, perdura,
a jovem Graça e a sua canção ...
(À graça, à ternura e ao encanto, da sempre jovem, Maria da Graça, minha Mãe .)
Cinzas - poesia por cumprir -
Quando lançarem ao mar
minhas cinzas,
rezem uma oração!
Pedaços de mim ao vento
ao som d'uma canção
serão lançados dum penhasco,
e num imenso respirar, intimo pulsar,
ficarão no espaço,
entre-águas-de-solidão!
E eu irei, entre nardos
e ondas de nostalgia ficarei, a pairar ...
E das águas mais profundas do meu ser
hão-de um dia ver-me emergir,
e inda que seja cinzas-entre-mar,
hão-de saber-me poesia por cumprir ...
Versos, meus versos,
imersos em saudade - meu mal!
Poemas por viver, controversos,
- pó e cinza, cinza e sal!
Na Poeira dos dias que me deste -
Ferido d'angustia, ajoeilhei Senhor,
na poeira dos dias que me deste ...
Rasguei um longo olhar sobre o Passado,
mas vi-te, ó Deus, sempre a meu lado!
Inda quando louco não te amei!
Ferido d'angustias, caí na poeira dos dias
que me deste ... mas ergui-me ... e segui-te!
E agora! Quem sou? Dize-me Senhor - dize-me!
Eis-me na dor, por vezes, ainda ...
- tombado e inutil, verdadeiro e igual,
ferido d'angustia na poeira dos dias
que me deste! -
Sinto Ciúme -
Sinto ciúme
das negras nuvens a passar
das gaivotas a voar
dos corações dos amantes
e das ondas do mar ...
Sinto ciúme
da noite que chega
da morte que nos leva
da Vida que nos beija
dos lagos, dos prados e da erva ...
Sinto ciúme
do nevoeiro que nos cobre
do dia que amanhece
da Terra que sepulta
da minh'Alma que perece ...
Sinto ciúme! Eterno ciúme!
Pena negra na aza alvissima do Amor,
olhos cegos, sem cor,
corpo frio, sem calor!
Sinto ciúme - ciúme de ti
- meu amor!
- meu Amor!
Regresso -
Vem, meu Amor, estou à tua espera:
meus braços abertos, serão para Ti,
como prados floridos que te abraçam
numa doce Primavera!
E surge no peito um grito, um alvoroço,
surge nos montes um cantar,
um beijo, um abraço de saudade
que se espalha pelo ar ...
Nesse momento, recordaremos o que passou,
sonhos, promessas que fizemos,
a distância ofegante que nos afastou!
Lembra-te, meu Amor, das palavras lindas que dissemos!
E seremos um Só,
nova Chama, novo Fogo!
Pois na Vida,
tudo vem e tudo vai,
só tu ficas,
meu amor, meu amor ...
Louros e Acácias -
Porque regressas tu assim,
tolhido e sem pressas?!
Choram-me os olhos
adentro aos teus ...
Que entre a Vida e eu
há já o costume d'um altar
em preces absorvido,
esquecido, perdido -
- na insistência dos dias,
na persistência das horas,
frente a tua ausência que tornou,
mas que agora, ao voltar,
foi-se-me à Vida que matou!
E sem ti, e sem mim,
mormente o tempo passe,
que minh'Alma se resgate,
e que Louros e acácias,
como frias-sentinelas
em sacadas de solidão,
adornem o altar da capela
do meu triste e pobre coração!
Hemisfério -
Só!
Assim
me vejo
além-de-mim...
Tão só!
Assim me sei
neste
hemisfério
sem fim...
E o Amor,
esse,
nunca
o encontrei!
E tanto
que o
esperei!
Ai
de quem
chora,
p'la Vida
fora,
o desamor,
de quem,
não sei ...
E o
Coração
que lhe
dei,
deixou
meu corpo
frio,
sem calor!
E
p'la solidão
do Amor,
eu sinto
que estou
morto,
pálido,
sem cor,
vazio,
distante,
que voo,
além-
-da-
-dor ...
Elegia a Nós -
Eu sou
esse espaço
onde ninguém
pode habitar.
Sou essa Vida
que ninguém
pode viver.
Sou esse Fado
que ninguém
pode cantar.
Sou aquele
que ninguém
pode entender!
Eu sou alguém
que ninguém
pode tocar.
Esse
que apenas
será livre
à hora
de morrer ...
E tu!
Sempre
tão tu!
A quem
ninguém vê
mas sente!
E onde
nos perdemos?!
Onde?!
Ai de nós,
neste
desencontro,
permanente,
que
morremos,
que
morremos ...
Junto ao Horto -
E é aqui,
Senhor,
em horas
d'agonia,
horas-desespero,
que encontro
neste mundo
o meu lugar.
Junto ao Horto
da angustia
do vosso altar!
Só aqui me
vejo!
Ai, Senhor,
Senhor,
que me sinto
morto,
sem Luz!
E onde estás
Tu,
que de Ti
me não vem
a menor
consolação?!! ...
Ai,
meu pobre
Coração!
Navega perdido,
sem estio,
em Eterna
solidão!
Senhor,
perdão!
Se estás aí
e Te não vejo,
perdão!
Meus passos
solitários,
baços,
ingremes,
carregam
pecados
de Seres que
ja fui,
alados ...
Mortos
que não
morreram
em meu corpo
naufragados!
Angustia
de Seres calados,
em mim,
sufocados!
Desejos
que d'eles desejei,
indesejados ...
E meu fim,
Senhor,
te peço,
p'ra quando
esse-meu fim?!
Tão pedido,
desejado,
prometido?!
Levai-me,
Senhor,
levai-me
p'ra donde
eu vim!!!
Ao Poeta /Conde de Monsaraz -
Tens em minha Casa
um lugar onde podes pernoitar
sempre que venhas.
Tens em meus braços
um ninho de amizade que te espera.
Tens em minha Alma outra Alma
que sempre esperará a tua Alma...
(Para Macedo Papança)
Carta à Mãe ( sobre o cancro) -
Estou diante de um velho espelho e vejo a minha imagem turva. Estou sozinha mas viva, e isso vale por mil companhias. Lá no fundo brilha uma esperança de futuro, de vida, de cura, ainda que vaga … o que não apaga tudo aquilo que vivi e senti. Agora quero acreditar em Deus, sinto que mereço acreditar nele e no seu poder de Equilíbrio … porque acreditar em Deus é acreditar na Vida. Vida que ainda sinto, que ainda respiro, que ainda me habita. Vida que nunca ninguém em tempo algum me poderá tirar … agora Sei! Agora Sinto-o!
O cancro é um mal que entra no corpo sem se dar por ele. É um estranho negro que começa a viver lá, a virar a nova casa em que habita contra si mesma. Esta é a fatalidade do cancro. Ele começa por ser um invasor mas torna-se uno com o invadido forçando-nos a destrui-lo. Destruição que nos destrói, dor que gera dor, fim que nos aniquila. É a presença do diabo! O tratamento é o exorcismo da ciência.
Mãe … espero que nestes termos o Ames a ele e a mim porque os dois formamos um só. Espero que aceites este estranho que muitos conhecem mas que poucos conseguem expulsar completamente … e se ao leres isto que escrevi, a escuridão me tiver engolido, não podes pensar que fizeste pouco por nós. E apesar de sempre termos alcançado tudo juntas, este ultimo percurso tem de ser feito obrigatoriamente por mim, e só por mim. Perdoa-me o individualismo mas é assim que a Vida quer! O passado dos nossos sorrisos parece ter-se afastado, parece ter-se evadido … sinto o presente tão doloroso na Alma e no Espírito que o futuro se torna numa incógnita fatal.
Que o teu Coração de mãe se acalme com a recordação do nosso Amor porque o meu está em Paz … e se eu tiver que partir mãe, nessa hora de partida, levarei impressa no meu Ser a tua Alma de Mulher.
in Uma Alma de Mulher
Do mesmo autor
