Coleção pessoal de audreyponganborteze
Meu querido Rick, sei que não escrevo há muito tempo, e eu inclusive deveria tomar juízo e parar de escrever estas cartas bobas. Hoje, no entanto, estou aflita e precisei escrever para não sufocar com minhas preocupações. A prova de matemática é amanhã e por mais que eu tenha passado a semana estudando, não sei se saberei resolver as questões. Eu não sei lidar com ângulos, formas geométricas e raízes quadradas juntos e misturados em uma questão. Pensando bem, eu não sei nem lidar com eles individualmente. Acontece que eu não sou feita de números e lógica, nada disso. Eu sou feita de palavras, de advérbios que intensificam, de substantivos que explicam, de verbos que dramatizam, e de pronomes que apresentam, demonstram e captam todo amor que eu sinto por você. Sinto-me neste momento banhada de luz pelo sol que se põe e pelas listras azuis e rosas que se formam no céu da tarde. Imagino se você está olhando para o céu agora, mas creio que não...você deve estar flertando com uma garota qualquer, comemorando um gol ou andando de bicicleta na avenida em alta velocidade e de braços abertos para mostrar que você é destemido. Você deve estar tendo uma vida incrível, cheia de amigos, de novidades, e eu estou perdendo essa parte da sua vida. Cada dia que passa, uma nova página da sua vida é escrita, cada mês, um capítulo, cada ano, um novo livro, e eu vou sendo deixada para trás, e o garoto que eu conhecia vai ficando no passado e eu vou deixando de conhece-lo, de reconhece-lo, de entende-lo, como se eu fosse uma leitora voraz tentando ler todos os capítulos da sua vida, mas sempre acabo ficando para trás, em algum canto esquecido de sua história, de sua memória.
Fico pensando se eu te encontrasse por acaso na rua um dia, em uma dessas reviravoltas do destino, eu fico me perguntando se eu te reconheceria e se você me reconheceria. Uma parte do meu coração me diz que eu sempre vou te reconhecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer situação, mas será mesmo? Será que você mudou tanto quanto eu sinto que mudei? De qualquer modo, eu lhe desejo sorte na sua vida e jogo mil beijos às estrelas, como se elas pudessem entrega-los a você...
-Annie.
(Anseios de uma jovem escritora)
No final da tarde sentei na sacada, fiquei olhando o pôr do sol e ouvindo uma música de Ana Carolina. Meu pai tem ouvido muito Ana Carolina por esses dias, um CD dela em que ela canta com Seu Jorge, e por isso meio que assimilei isso. A música que eu ouvia era “Prá rua me levar”. Quando ela começou a cantar: “Não vou viver como alguém que só espera um novo amor, há outras coisas no caminho onde eu vou. Às vezes ando só trocando passos com a solidão, momentos que são meus e que não abro mão” eu me encantei e me encontrei porque de repente aquilo parecia ser cantado só para mim. Ouvi a música a exaustão, até decorá-la por completo e quando o sol finalmente se pôs e a primeira estrela surgiu, eu sussurrei um “e eu vou lembrar você” para a noite. Não sussurrei para a estrela em especial, nem para a noite, mas para o Rick, como se de alguma forma mágica o vento pudesse levar minhas palavras para ele. Queria que ele ouvisse essa canção, queria que ele entendesse a extensão de meus sentimentos por ele e queria contar para ele tanta coisa! Contar que mudar de escola nem sempre é fácil, que amizades não duram para sempre, muito pelo contrário, elas têm como que um prazo de validade, algumas mais longas, outras nem tanto... contar que olhar o pôr do sol era essencial, como se nos fizesse crescer como pessoas, contar dos livros que li e de como as palavras eram bonitas e mágicas...Contar que os olhos dele eram belos como a noite (comparação), ou que ele era turbulência e eu era poesia (metáfora) e de como o amava, o amava infinitamente.
Desculpe-me pela sinceridade, mas a verdade é que eu sou uma pessoa incrível! Eu tenho várias qualidades, assim como vários defeitos, mas não é qualquer um que se encaixa nos meus versos, preenche meus intervalos introspectivos ou desafia meus princípios jurídicos. Não é qualquer um que integra meu ordenamento, que me desalinha de A a Z e causa um vendaval em minh´alma, por isso, eu não preciso dele. Aliás, eu nunca precisei, mas agora é diferente, porque eu não o quero.
Eu acho que a liberdade é o direito fundamental mais bonito e jamais iria restringi-la de alguém. Entretanto, ela o domina e o mantém preso a ela como um pássaro na gaiola e ele deixa...eu tenho para mim que isso não é amor; é dominação. Mas, como o perdão das expressões chulas e vulgares, que ele se foda, que ela se foda, e que se foda tudo que me atrasa e me restringe. Eu sou um pássaro aprendendo a voar, como na música do Pink Floyd, e se ele não quer voar comigo e prefere ficar preso em uma gaiola, desejo desde já uma boa sorte.
Eu queria saber desde quando nosso relacionamento se tornou uma norma programática, igual aquelas do artigo 3º da Constituição, sabe? Aquelas que são lindas na teoria, mas não se sabe se vão ocorrer, como, ou quando, mesmo que tão bonitas na teoria. Somos perfeitos um para o outro,embora não hajam garantias de que possa dar certo, como se fosse uma utopia construída por filósofos.
Eu não entendo o proporção dos meus sentimentos, pois logo que o vi eu quis desmaiar, fugir para longe. Depois quis beijá-lo. Mais adiante eu quis cuspir na cara dele como ele foi idiota, idiota, idiota! Ele trocou um diamante por uma bijuteria, pois doa a quem doer, eu sou um diamante! Há gosto para tudo nesse mundo. Inclusive, há mulheres que preferem bijuterias a ouro, enquanto outras têm alergia a qualquer coisa que não seja ouro pois qualquer outro material causa uma irritação na pele, uma vermelhidão, uma coceira...
Ele foi embora antes de eu ter a chance de me apaixonar, mas se ele se demorasse por mais duas semanas eu teria caído em tentação, eu teria dedicado a ele as melhores músicas de "The Cure", eu teria me entregado incondicionalmente pois eu confiava nele, logo eu que não confio em ninguém...
Nesta minha jornada eu sou uma viajante, conhecendo pessoas incríveis a todo tempo, visitando lugares diferentes,assimilando novos conhecimentos, bebendo drinks exóticos e deixando a música me preencher de dentro para fora enquanto isso. Abri minhas asas há pouco tempo e agora eu estou voando. Reconheço que não estou voando alto, sou um jovem passarinho, mas sinto que estou voando...e a vista aqui de cima é tão bonita!
A gente sempre acha que não é suficiente para aquela pessoa e aí de repente descobre que aquela pessoa não é suficiente para você. Eu não caibo em mim, eu sou feita de poesia, exalo frieza mas por dentro sou só amor, embora ele não mereça esse amor. Eu sou uma pedra preciosa, ele está acostumado com bijuterias, no entanto, não se oferta uma Swarovski para quem não sabe usar.
Eu estou em uma situação melhor que tanta gente e tem tanta gente que está em uma situação melhor do que a minha. E assim é a vida; há dias em que a vida nos sorri e nos presenteia com flores, momentos e oportunidades, e há dias em que parece que só chove, tudo é cinzento e não há esperança, mas na verdade há. A vida é uma peça teatral e se um ato ou cena termina em tragédia, a cena seguinte pode terminar em comédia, em vitória, em romance...Talvez tenha que ser assim, pois do contrário ficaríamos tão viciados no próprio sucesso que seriamos cegos para a beleza, cegos para a tristeza e poesia, cegos para a felicidade no fim das contas.
A vida de recém-formada não é nem de longe tão glamurosa quanto eu pensei. A vida vem e nos dá uma série de tapas na cara de uma só vez e ainda quer que a gente levante e continue sorrindo. A sociedade nos exige isso, mesmo quando tudo o que a gente quer é se afundar no travesseiro e chorar até desidratar.
Todos jogamos os capelos para cima e gritamos em comemoração. Nós éramos bacharéis! Nós éramos infinitos! Nós éramos diamantes e naquele momento brilhávamos tal qual as estrelas do céu! "Voa estrelinha!" diria minha amiga, e naquele momento, mais do que em qualquer outro, ela estava certa, pois eu sentia uma estrela e eu voava. Eu voava!
O auditório explodia em aplausos e eu me sentia flutuar no ar de alegria. Eu era Bacharel em Direito, finalmente. Eu era Bacharel em Direito e a vida e de repente vida me sorria. A vida era uma taça de sorvete colorido esperando por mim e eu queria devorá-lo como uma criança faminta. Parecia que minha vida começava naquele momento, naquele exato instante em que eu peguei o diploma, e eu tinha a sensação que estava diante do desconhecido, do desconhecido que era um enorme abismo que se abria à minha frente e no qual eu pulava sem hesitar. Pulava com ansiedade, paixão e fúria. Pulava como quem tem pressa de viver!
Olhei para o rosto de cada colega e lembrei das aulas, das festas da turma, das reclamações, do estresse do TCC, da tensão da OAB, dos sorrisos, dos estágios e percebi como crescemos ao longo desses cinco anos, como evoluímos, e de como pouco a pouco, ano após ano, nos tornamos Bacharéis em Direito. Nos tornamos adultos. Senti uma onda de amor infinito percorrer meu corpo. Nossa faculdade terminava, mas nossa vida estava apenas começando.
Foi como se a faculdade tivesse mudado completamente, mas quem mudou fui eu. Isso faz sentido? Aquela faculdade fazia parte de mim e ao passar por aqueles corredores eu lembrava de tantas coisas! Lembrei de correr por aqueles corredores saindo bêbada do bar no primeiro ano, de beijar meu namorado ali no segundo ano, de rir alto com minha melhor amiga no terceiro ano. Lembrei do tédio de olhar para aquelas paredes segunda após segunda, estágio após estágio no quarto ano. Por fim, lembrei de passar por ali carregada de livros para fazer o TCC no último ano. Foi uma jornada incrível! Eu queria petrificar cada uma daquelas lembranças em mim para elas não se dissolverem no ar. Queria torná-las cláusulas pétreas!
Não sei exatamente o que é mas eu sinto que as coisas estão mudando , mesmo que a mudança ainda não seja algo visível, que seja algo que se opera nas profundezas e ainda não veio à tona. Isso faz algum sentido? Talvez faça, quer dizer, minha formatura é em um mês exato, eu de repente estou esperando minha carteirinha da OAB chegar, minha Pós começa quarta-feira e eu estou comprando um carro! Eu já não tenho medo do mundo. Eu abro minhas asas e me preparo para voar, como o passarinho do livro do Fisk, o do "Spreading wings." Eu me sinto aquele passarinho agora. Ainda não é hora de voar, mas logo será. Eu sinto isso.
Em um dia estamos resolvendo a regra de três na escola e no outro estamos pesquisando preços e modelos de carros. Não é engraçado? Não é precipitado? Não é louco?
Minha amiga me chamou para pedir se eu vi a publicação e eu disse que vi. Eu tinha visto. Eu tinha sentido? Mas sentido o quê? Eu não senti nada, nem mesmo surpresa, pois tudo já era esperado por mim. Não houve surpresa, nem tristeza, aflição ou dor. Não houve lágrimas. Eu me espremi toda como quem espreme uma laranja, mas não houve lágrima alguma a escorrer por meu rosto. Não havia lágrima por não haver dor e quem sabe não houvesse dor por não haver amor.
Hoje eu escrevo para todas almas solitárias ao redor do mundo, escrevo àqueles que sofrem por amor,aos poetas, aos bêbados e aos loucos. Escrevo a todos que necessitam de paz, aos que anseiam por poesia, aos que carecem de amor. Escrevo para aqueles que perderam a si mesmos no meio do caminho e já nem sabem ao certo que identidade assumir, que direção seguir. Escrevo aos que se perderam de si mesmos...
