Coleção pessoal de audreyponganborteze

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⁠Eu lembro daquele dia de junho, um sábado, em Bom retiro, em que a neblina deu uma trégua e o sol surgiu , surgiu com uma clareza avassaladora e esquentou meu corpo e também , ouso dizer, meu coração. O sol me iluminava com intensidade, Fleetwood Mac cantava “everywhere” no rádio do carro e eu compreendia , eu passei a compreender a verdade na voz de Stevie nicks quando dizia “ I wanna be with you everywhere”. Eu não sei se foi ali exatamente que passei a entender que eu realmente queria estar com você em qualquer lugar ou se foi nos dias que se seguiram. Eu não sei se eu devia estar lhe contando isso. De todo modo, ou foi a música, ou foi o sol ou foi a direção do vento, mas naquele dia alguma coisa iluminou minha mente e coração e eu passei a compreender que queria estar com você. Engraçado como pareceu certo. Uma amiga minha veio aqui no gabinete e entre conversas e cafés me disse que “ o que é para ser tem força “ e isso foi como um “clique “ na minha cabeça, pois eu acho que é verdade e eu acho que tem sido. Pode ser bobagem minha , mas eu tenho fé . A fé é esse sentimento dentro de nós que não tem explicação , nem certezas , nem garantias , ela apenas é, e eu tenho fé em nós. Não há certezas, não há garantias , mas eu tenho fé em nós dois. Um dia você vai saber - e entender , talvez ? - como eu te amo . Um dia eu vou dizer. Vou dizer que eu quero você e que gostaria de estar com você em qualquer lugar e para irmos para algum lugar longe dessa confusão , alguma cidade menor e no interior . Não sei se é loucura minha pensar assim, mas é o que eu tenho sentido ultimamente

⁠20 de novembro
Querido Josh, está tarde da noite e ouço “Infinita Highway” dos Engenheiros do Hawaii sonhando acordada com você. Lembra desta música, certo? Você esteve cantando insistentemente essa semana até ela grudar na cabeça dos alunos e dos professores e agora não tem jeito, ela sempre vai me lembrar de você. Eu sei que não cantou para mim, eu sei que cantou aleatoriamente porque curtiu a música, mesmo que uma parte minha egoísta gostaria que fosse diferente. Eu queria dizer que eu gosto do clima leve que há entre nós e que você é um ótimo amigo e um péssimo ficante, mas não estou aqui hoje para detonar você. Estou acima disso. Estou alegre nem sei por que razão. Eu gostaria que ficássemos assim sempre e que você me dissesse que o vento canta uma canção. A verdade é que você tem me feito correr demais os riscos desta Highway que é a trilha que leva ao seu coração, mas hoje eu não quero correr. Eu quero pausar, respirar e apreciar a natureza. Algo me diz, Josh, algo que eu não sei explicar, grita para eu aproveitar essa fase, esse ano, esse momento pois eu sei que eu vou sentir falta de tudo isso e a verdade de tudo isso me atinge com uma força avassaladora. Eu amo você, eu amo os meus amigos, somos jovens e podemos viver. Podemos somente viver, certo? Ver onde essa estrada vai dar? Eu pago para ver. Eu aposto que essa estrada vai ser interessante porque me disseram uma vez que a viagem é mais interessante que a chegada e eu nem sei se vou cruzar a linha de chegada que é ter o seu amor. Talvez eu me perca no caminho, talvez o vento me leve para outra direção. Eu só queria dizer que eu adoro essa época do ano, que eu adoro ser jovem e que eu me sinto tão livre quando essa música toca! Eu não sei o que vai acontecer entre nós, mas agora, neste momento, não interessa. Hoje eu só queria dizer que sou grata por você estar falando comigo de novo e que sou grata por sua amizade. Sou grata pela música e sou grata pelo clima entre nós estar leve. Desejo que continue assim. Durma bem, meu querido e até breve.
-Annie.

⁠Baby, meu coração é como minha casa; caótico, desorganizado e você chegou sem avisar. Acredite, já esteve bem pior porque havia coisas que não me serviam mais jogadas pelos cantos, cacos de vidro, vinho nas paredes e poesia empilhada. Havia fuligem e um pouco de mofo também pois fazia tanto tempo que eu não recebia ninguém! O último visitante fez um estrago absurdo, mas apesar de tudo eu espero que você não se importe com a bagunça. Apesar da confusão que eu sou, dos meus acessos de frieza e da minha bagunça, eu queria dizer que gostei de ter você aqui e que eu gostaria que você ficasse...

⁠Meu querido R, é tarde da noite e eu nem deveria estar te escrevendo e sim dormindo. Porém, eu sou uma criatura noturna e necessito escrever quando as palavras vêm até mim. As palavras vieram trêmulas, trôpegas, desorganizadas, mas vieram e eu as acolho, e eu as abraço e as amo. Eu não sei explicar ao certo o motivo pelo qual lhe escrevo aqui e agora. Na verdade, eu sei. Para quem estou mentindo? Se estou escrevendo esta carta significa que estou apaixonada. Completamente, e de repente há Sade e Djavan ressoando-me aos ouvidos. Há música e poesia e o mundo está colorido de novo e fazia tanto tempo que eu não sentia isso. Agora tudo brilha sob o sol e eu nem lembrava como era me sentir assim....você me proporciona todo carinho e ao mesmo tempo o mais doce tabu e eu temo estar viciada em você.

⁠Era sábado, o sol brilhava lá fora, havia cheiro de café no ar e "Your love is king" tocava na voz de Sade como se a música fosse encomendada, planejada. Ele beijou minha mãoquando eu deixei minha xícara de café sobre a mesa e por três vezes eu mordi o lábio para não o chamar de "amor". Eu não sabia como ele iria reagir, não sabia se o momento era adequado e tive medo de estragar tudo, mesmo parecendo tão certo dizer...então engoli a palavra junto com o café e sorri para ele.

⁠Eu achei que estivéssemos jogando com paridade de armas, mas não estávamos, porque por muito tempo eu estive armada, eu vesti a armadura completa e segurei facas e espadas como se ele fosse me golpear e ferir a qualquer momento, no entanto, ele não feriu. Ele me abraçou e ensinou que eu não preciso estar armada para uma batalha o tempo todo. Eu não preciso ser Atena o tempo todo e às vezes posso me permitir ser Afrodite em certos momentos. Está tudo bem eu derreter feito geleia quando ele me toca e está tudo bem sentir saudades. Está ok ele quebrar minhas barreiras e me fazer ser frágil e doce e sensível, partes minhas que são bonitas, mas que eu não mostro para todo mundo.

⁠Eu não sei explicar a paz que me invade quando eu deito no peito dele e ele me abraça e beija o topo de minha cabeça. Eu me sinto protegida, acolhida, amada...sinto o cheiro do mar, o sopro do vento e uma música suave como se Caymmi cantasse ao fundo. Eu sinto como se eu estivesse navegando e ele fosse meu porto seguro.

⁠Eu cresci. Eu evoluí. A rejeição dela me salvou. A rejeição dela me fez evoluir. A rejeição dela foi como um presente pois sem ela eu jamais sairia de casa e não teria respirado novos ares, conhecido tantas pessoas incríveis e não teria tido novas experiências e quem sabe não teria nem me apaixonado...sem essa rejeição eu ainda seria Cora e não Perséfone. Porque a gente expande, cresce, evolui e passa a estudar novos temas, conhecer pessoas, tomar consciência de novas realidades e se torna alguém extraordinário neste processo.

⁠Eu me sinto boba ao pensar em como eu fico vulnerável vendo- o de terno, pois ao vê-lo de terno eu subitamente fiquei toda mole, frágil, retardada e me senti Lily Braun desmilinguindo feito uma gema no chão. Ele me deixa vulnerável ao mesmo tempo que me faz querer arrancar a roupa dele com os dentes.

⁠"Meu ar de dominador dizia que eu ia ser seu dono e nessa eu dancei" já cantava Djavan e eu penso que eu posso dançar também e eu nem sei dançar...então eu vou despencar. Eu queria brigar com ele e me atirar no chão, esperneando como uma criança, e dizer que ele conseguiu. Ele me fragilizou e me fez escrever de novo porque eu possivelmente estou apaixonada por ele e isso me aterroriza. Isso me aterroriza porque eu amo a forma como o meu mundo está colorido e sinto medo de perdê-lo.

⁠Eu gosto disso, gosto deste cuidado. Gosto de ele me dizer para pegar um casaco porque esfriou e ele não quer que eu passe frio porque se preocupa comigo. Gosto da sensação de ter alguém cuidando de mim e de me sentir protegida e de pensar, secretamente, que eu gosto de pertencer a algo ou alguém, mesmo que ele não saiba disso. E nem vai. Ele não precisa saber o quanto povoa meus pensamentos ou o quanto eu gostaria de estar com ele neste momento, nem que fosse para fazer algo simples como ouvir uma música e olhar o pôr do sol, algo que eu amo fazer.

⁠Então eu entendi. Eu deveria ter entendido antes. A vida me deu vários sinais que eu tinha ignorado e ela precisou me dar um solavanco, um soco no estômago, um beliscão para eu acordar. Um cara me mandou um nudes e eu só visualizei, totalmente desinteressada. Outro cara gatíssimo surgiu e eu não senti a menor vontade de ficar com ele. Eu perdi o apetite quando saí com o cara que eu estava ficando - eu, que como um boi pela perna, que dou prejuízo para os restaurantes, que faço as pessoas passarem vergonha quando saem comigo de tanto que como - eu perdi o apetite! Mas nem assim, nem desta forma eu acordei e foi somente quando eu vi a forma como eu olhava para ele na foto foi que eu percebi que estava me apaixonando. Foi só ao ver minha cara de boba que tudo fez sentido. Isso é uma tragédia! Ou será uma dádiva?

⁠Ele beijava minha boca, meu corpo e entardecia lá fora. O sol beijava o mar, eu não conseguia tirar minhas mãos dele e pensei em como não havia outro lugar no mundo onde eu quisesse estar. Naquele momento não havia concursos, processos urgentes, telefones tocando, dramas familiares ou ansiedade. Só havia nós. O mundo todas desaparecia enquanto eu o abraçava e eu pensava que não queria soltá-lo nunca mais.

⁠“What’s love got to do with it?” Começou a tocar assim que liguei a TV. A música estava nas redes sociais e agora em minha TV, como se precisasse ser ouvida, compreendida, assimilada por mim e eu estivesse fugindo dela. Ela dizia para eu não pensar, para me jogar mesmo sem ter certeza do que iria acontecer amanhã. E quando é que temos certeza? Eu tenho resistido à música assim como tenho negado dar um nome para isso que eu sinto. Porque se eu der um nome se torna real. Mas o que o amor tem a ver com isso, certo? O que a paixão tem a ver? Eu só estou um pouco boba quando falo com ele e só. Eu só estou um pouco sentimental mas deve ser por causa dos remédios que estou tomando e não tem nada a ver com Tina Turner, Sade, ou em como me arrepio inteira quando as mãos dele tocam meu corpo.

⁠Eu tenho medo de me apaixonar de novo. Não gosto de perder a razão, não gosto de ver a mercê de alguém, ao mesmo tempo em que eu amo a sensação de flutuar e ver a poesia incendiar meu ser de dentro para fora e fazer meu mundo todo colorido.

⁠A mensagem dele me fragilizou e eu quase pude ouvir os bloquinhos de gelo dentro de mim derretendo e parte de mim pareceu ter virado gelatina. Eu quis dizer que também acordei pensando nele e sentindo falta dos abraços e beijos e quis dizer que ele conseguiu tornar o final de semana maravilhoso e que ele fez meu mundo ganhar cores mais brilhantes por um dia. Claro que eu não disse isso a ele, limitando-me a dizer que sento falta dos beijos dele. Para que eu iria dizer tudo isso? Para ele ficar convencido? Para ele se gabar para os amigos dele? Para ele me jogar na lata de lixo? Não, obrigada.

⁠Eu virei a taça de vinho ele colocou "Pontos de exclamação" para tocar e partir daí eu já não respondi mais por mim. O vinho inundou minha corrente sanguínea, o fogo da lareira aqueceu meu corpo e eu o devorei com os olhos, puxando- o para mim, para a cama e para meu próprio incêndio particular...

⁠Eu não sei como nem por qual motivo eu me vi cantarolando "Always" do Erasure e pensando nele e querendo, desejando estar com ele e beijá-lo até perder o fôlego. Fiquei aflita com isso, confusa, estranha...Porque meu corpo queima de dentro para fora quando penso nele e parece ser quase impossível conter esse incêndio dentro de mim. Então eu já nem quero fugir e quero é sair correndo para os braços dele e me sinto tão idiota por isso!

⁠Querido Josh, o outono começa a dar seus primeiros sinais pois se eu presto atenção posso ver as folhas caindo das árvores lentamente lá fora. É uma mudança lenta, mas se você prestar atenção elas estão lá. É tudo questão de prestar atenção. É assim que eu tenho sentido tudo. É assim que eu tenho me sentido. Mudanças lentas se operam me mim, mudanças sutis, mas ainda assim mudanças. É só questão de prestar atenção. É assim que eu tenho me sentido porque eu tenho 16 anos agora. Você pode dizer que nada realmente mudou e foi só mais um aniversário que eu celebrei mas eu me sinto diferente. Eu estou diferente. Não consegue notar? Eu olho para mim mesmo no espelho, dou voltas pelo quarto, analiso meu rosto, meu corpo e não vejo nada diferente porque as mudanças são internas, são profundas...Eu olho para dentro de minha alma e mergulho...e me perco no vasto oceano que é o meu coração. Eu olho para mim mesma no ano passado nesta mesma época um ano atrás e me vejo neste mesmo quarto ouvindo Paula Toller cantar "nada por mim", do Herbert Vianna, sentindo lágrimas escorrendo por meu rosto. Porque eu era tua e cantava "não vá pensando que sou seu" quando na verdade eu era. Quando na verdade eu pertencia mais a você do que a mim mesma e eu te amava mais do que amava a minha própria vida e esse amor me queimava de dentro para fora. Mesmo assim, eu me iludia cantando "não vá pensando que sou seu" quando na verdade eu teria dado minha vida a você se você me pedisse. Eu gostava mais de você do que de mim mesma, mas isso é errado, Josh! A gente não pode dar esse poder para alguém. Não é certo gostar de alguém assim a ponto de se anular como eu me anulei por você. O fato é que eu não sei quando eu passei a gostar muito mais de mim do que de você. Não sei se teve a ver com o fato de eu passar a gostar de Yuri. Não, acho que foi até antes disso. Ocorre que eu passei a pensar que estava cansada de me humilhar foquei em mim, nos meus livros, nos meus amigos, meus estudos, meu curso de inglês. O engraçado foi que quando eu passei a gostar mais de mim você passou a olhar para mim. É estranho. Eu não compreendo. Talvez eu seja jovem para entender. Talvez um dia eu entenda. O que eu queria dizer é que as mudanças forma e são sutis e se operam a cada instante. Eu não sei se um dia lerá isso, mas eu queria que compreendesse como eu amo a vida pelo o que ela é e não porque você está nela. Marcelo Jeneci canta "Felicidade" no radio eu me deixo invadir por um sentimento de leveza. Eu amo meus amigos, as palavras, as festas, a escola, adolescência , a beleza e a fragilidade da vida. Amo a poesia a ponto de me doer a alma e meu byronismo por vezes me faz sentir toda a dor do mundo, porém eu sinto tudo com uma intensidade que me queima e eu sinto uma vontade absurda de viver. Eu sou jovem, a vida é aqui e agora eu eu gostaria que compreendesse o que se passa comigo, até porque eu não me compreendo inteiramente. Por isso eu queria dizer que não é que eu não te ame, é apenas que descobri que existem outras coisas no mundo além de você. Com amor, Annie.

⁠Insensatez ou não, pela primeira vez eu senti algo que por muitos anos eu não sentia: segurança. Ele fazia eu me sentir segura e isso era estranho e assustador. Eu sentia vontade de sair correndo pois eu não era boa em relacionamentos, porque isso era novo e assustador e eu não sabia, não sabia lidar com isso. Eu queria dizer para ele se afastar de mim pois, como bem classificou um amigo meu na faculdade, eu era uma gata arisca e eu arranhava e lesionava facilmente quem chegasse perto demais de mim. Mesmo assim, apesar do meu medo e receio eu tinha a sensação estranha de que ele me protegeria e de que eu poderia ser eu mesma com ele. Eu não precisaria aplicar a regra "amar e fugir" e quem sabe eu poderia me permitir ficar... Então eu comecei a olhar para ele. Olhar de verdade como se eu o visse pela primeira vez na minha vida e isso me assustou. Isso me assustou porque eu pela primeira vez em muitos anos cogitei a possibilidade de confiar em alguém, de dar o benefício de dúvida e não agir com desconfiança como se alguém fosse me apunhalar a qualquer momento. Isso me assustou e ainda me assusta quando eu paro para pensar pois eu tenho certeza de que ele vai me machucar mais cedo ou mais tarde.