Cinzas
As Cinzas do Que Julgávamos Eterno.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Às vezes eu supunha que bastava acreditar.
Acreditar com a devoção dos que contemplam o horizonte e o confundem com a eternidade.
Então julgávamos possuir o mundo inteiro. E talvez algo além dele.
Pensávamos que dos ermos faríamos florestas. Que da aridez brotariam jardins. Que os fragmentos de vidro abandonados pelas estradas converter-se-iam em diamantes sob a luz dos nossos sonhos.
Mas o tempo possui uma linguagem que não pede licença.
Agora percebo.
Teu sorriso regressa diferente. Há nele uma melancolia silenciosa. Como se cada curva de seus lábios carregasse o peso de uma ferida invisível. Como se sorrir fosse uma forma delicada de sangrar.
Não desejava ver-te assim.
Ansiava reencontrar aquela força antiga. A mesma que atravessava tempestades sem curvar-se ao vento. A mesma que transformava os invernos da alma em estações suportáveis.
Contudo, há dores que pertencem apenas ao seu proprietário. Sombras que nenhum abraço dissipa. Abismos diante dos quais toda fuga é inútil.
E então resta apenas sentir.
Sentir o frio. Sentir a ausência. Sentir o lento desmoronar das certezas.
Houve um tempo em que parecia suficiente improvisar. Como se a existência fosse um livro aberto. Como se cada página aguardasse obedientemente a escrita dos nossos desejos.
Até o dia em que quisemos mais do que nos cabia.
Foi quando começamos a vender por migalhas aquilo que não possuía preço. Foi quando trocamos tesouros invisíveis por promessas efêmeras. E o sentido, pouco a pouco, dissolveu-se entre os dedos.
Hoje compreendo o valor raro de uma presença.
Alguém para ouvir sem transformar confidências em armas. Alguém para permanecer quando as palavras se tornam frágeis. Alguém para dividir o silêncio sem exigir explicações.
Quanto a mim.
Nada mais parece capaz de ferir-me como antes.
Não por coragem. Mas porque me habituei aos escombros da estrada equivocada que escolhi. Aprendi a caminhar entre ruínas. Aprendi a reconhecer minha própria lei nas cicatrizes que carrego.
Guardo apenas o que restou.
Pequenas relíquias de um passado que já não retorna. Vestígios de luz escondidos entre as cinzas.
E ainda assim considero-me afortunado.
Porque apesar de tudo. Apesar das perdas. Apesar da tristeza que se acumula nas margens da memória.
Ainda possuo o que ficou.
E creio que tu também.
"Há ausências que não morrem. Apenas aprendem a habitar os corredores silenciosos da alma."
O REINO QUE O SILÊNCIO HERDOU.
Chamaram desventura aquilo que me veste;
não viram, sob as cinzas, um império celeste.
Enquanto o mundo inteiro festejava a ilusão,
ergui catedrais de sombras da minha solidão.
Nenhuma voz permaneceu na última janela,
somente a noite antiga, majestosa e singela.
O vento, qual monarca sem reino para guiar,
coroou meu desalento com um trêmulo luar.
Aprendi que o abandono possui dedos de gelo,
lapidando lentamente cada sonho mais belo.
Quem perde tudo cedo conhece outro esplendor:
o diamante ocultado sob montanhas de dor.
A saudade não caminha; desfila soberana,
vestida de crepúsculos, tecendo a madrugada insana.
Cada passo ressoava qual sino sepulcral;
cada lágrima esculpia um destino colossal.
Não roguei piedade às estrelas tão indiferentes,
nem curvei minhas esperanças diante dos presentes.
Fiz do peito devastado um castelo sem igual;
das ruínas, uma harpa; do pranto, um vendaval.
Vi jardins desfalecendo nas mãos do temporal,
rosas transformadas cedo em silêncio mineral.
Mesmo assim, meu coração, sem jamais retroceder,
abraçou o impossível para não enlouquecer.
Há ausências que possuem o peso das montanhas;
há lembranças escondidas sob antigas entranhas.
Toda fotografia guarda um adeus cristalino;
todo beijo interrompido conhece o desatino.
Então compreendi, enfim, o mistério derradeiro:
quem atravessa o vazio torna-se mais inteiro.
Porque o abismo ensina sem precisar explicar;
faz sangrar cada esperança para depois lapidar.
E, quando a aurora vier buscar meu derradeiro dia,
não encontrará derrota, tampouco covardia.
Verá apenas um homem, de joelhos, sem coroa,
cuja alma permaneceu onde ninguém mais ecoa.
Ali, entre eternidades que ninguém alcançou,
erguerei meu nome mudo onde o tempo se calou.
Pois existe um trono oculto, impossível de enxergar,
reservado aos que aprenderam a sofrer sem suplicar.
Minha princesa desta imensa solidão...
Se algum dia teus olhos atravessarem a distância,
não recolhas minhas cinzas para vestir saudade.
Apenas escuta o vento. Cada sopro levará meu nome.
Porque todo amor verdadeiro, quando perde o abraço,
transforma-se na única eternidade que jamais conhece o fim.
Marcelo Caetano Monteiro .
A Quarta-Feira de Cinzas é, portanto, uma celebração ritual que sintetiza a memória cultural, a simbolização religiosa e a consciência antropológica da mortalidade humana, funcionando como um ponto de inflexão entre a festa popular e a reflexão espiritual, entre o corpo e o espírito. Ela nos lembra que qualquer jornada de sentido exige reconhecimento de nossas limitações e, ao mesmo tempo, uma busca consciente de transformação.
A humildade artificial é o orgulho vestido de cinzas.
Existem homens que abaixam a cabeça apenas para que sejam vistos como virtuosos. Não se curvam por consciência moral, mas por necessidade de aprovação. Transformam a modéstia em espetáculo silencioso. Fingem pequenez enquanto aguardam secretamente a veneração dos outros. Tal comportamento não nasce da grandeza espiritual, mas de uma vaidade refinada, quase invisível aos olhos despreparados.
O orgulho grosseiro grita. A humildade artificial sussurra. E justamente por sussurrar, torna-se mais perigosa.
Muitos utilizam frases brandas, semblantes serenos e gestos aparentemente dóceis como mecanismos de superioridade moral. Desejam parecer puros. Desejam parecer elevados. Desejam ser admirados por renunciarem à admiração. Eis a contradição psicológica mais profunda do ego humano.
A verdadeira humildade não possui autoconsciência teatral. Ela não necessita anunciar-se. Não se sente virtuosa por servir. Não contabiliza sacrifícios. Não cria uma identidade construída sobre parecer simples. Apenas existe, semelhante à água silenciosa que alimenta raízes ocultas sem exigir contemplação.
Dentro da análise psicológica, esse fenômeno aproxima-se do narcisismo moral. O indivíduo transforma a própria imagem de “bondade” em objeto de culto. Não ama o bem em si. Ama a percepção de ser visto como alguém bom. Há uma diferença abissal entre consciência ética e performance ética.
Por isso, quando alguém diz:
“ Eu quero fazer mais por você… ”
a frase somente possui pureza quando nasce desprovida de necessidade de reconhecimento. O amor autêntico não exige palco. A caridade verdadeira não necessita testemunhas. E o afeto legítimo não se converte em instrumento de exaltação pessoal.
As almas mais luminosas da História quase sempre caminharam em silêncio. Não porque fossem fracas. Mas porque compreenderam que a grandeza real dispensa ornamentações emocionais.
A humildade legítima não humilha-se artificialmente. Ela apenas compreende a própria condição diante da vastidão da existência.
Fenda de Concreto e Cinzas
Sem mantos divinos, no relento,
Frio e calafrios, febre emocional.
Minha barriga está descoberta, minha visão embaçada no beco coberto de névoa.
Fumaça subindo em algum lugar a frente, liquido preto escorrendo nas paredes.
Grafites e grude, cheiro de carne e sangue.
Estou deitada em uma poça de água suja no beco.
Sem mantos, sem lençois.
Escuto latidos de cachorro, alguém roubou seu osso ou alguém o ameaçou.
Escuto o barulho dos automóveis ao longe, indiferentes.
Aqui parece estar afastado da vida, do resto do mundo, não ligam para a existência ou o que acontece no beco.
É solitário e frequentado ao mesmo tempo, breve alguém aparecerá, inimigo, amigo ou transeunte indiferente.
O beco é sempre usado, mas não rota de fato.
Meus olhos estão arregalados, olhando para o céu cerrado pelos dois prédios.
Tento levantar e toda alma e espirito se contorcem,
Vejo ratos, cachorros e gatos andando pelo beco,
Me levanto,
Ainda há vida.
- Ramile Godon
“Meus poemas serão reconhecidos quando eu tiver virado pó.
Ou cinzas... ainda não decidi.”
— Cyntia Karla De Liz
Passaram por nós
o nosso Carnaval,
a Quarta-feira de Cinzas
e as lindas nostalgias,
Não esqueci de manter
vivas as alegrias,
e tudo o que faz
o coração se derreter.
Os sambas deste ano
continuo ouvindo,
Quero acreditar que
o teu amor está
escrito no destino
para deixar a chama
intensa, envolver
e de amor bamba.
Porque se não for por
amor que ao menos
vire um bom samba,
Para não deixar perder
a beleza deste tempo
que é ver pelo caminho
o Jacarandá de espinho
florindo e o teu sorriso
para mim se abrindo.
Quarta-Feira de Cinzas
Na quarta-feira de cinzas, a Igreja abre o tempo especial chamado Quaresma. A Quaresma não é o tempo de tristeza ou solidão, mas sim do próprio amadurecimento espiritual.
São quarenta dias de reflexão, onde você se autoexamina, um replay de todo seu passado, tudo o que fez e o que deixou de fazer, sejam elas escolhas certas ou até muitas das vezes erradas, e isso nada mais é que a conversão para tomar a mais profunda consciência do que é ser um cristão.
E essa data nada mais é que uma lembrança de que todos os nossos pecados foram consumados na cruz, pago por Jesus e esse dia é símbolo do dever da mudança de vida, para recordar a passageira fragilidade da vida humana, que nos sujeita à morte.
O ser humano precisa de momentos fortes para aprofundar suas opções de vida, necessita avaliar a sua caminhada à luz da Palavra de Deus e da oração.
1 Coríntios 27 a 29
27- Por esse motivo, quem comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor.
28- Examine, pois, cada um a si próprio, e dessa maneira coma do pão e beba do cálice.
29- Pois quem come e bebe sem ter consciência do corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação.
Assim como Jesus se sacrificou na cruz, aquele que crê também pode fazer um sacrifício, deixando de lado por 40 dias algo que gosta, ou algo que mais se identificar. Neste caso, com a igreja, é colocado como prioridade a carne.
Mas independentemente da religião ou crença, eu tomei a liberdade de escrever pela data hoje, uma das mais respeitadas entre os católicos e outras mais denominações. Vamos deixar de lado o egoísmo, inveja, ódio, rancor, mágoa e outras mais, pois todos nós somos iguais.
Não se esqueça que Jesus te ama: "Tu és pó e ao pó vais voltar".
Deus abençoe a todos!
As cinzas transformaram
de maneira pressentida
o céu no lago parado da morte,
não sei mais a diferença
quando faz Sol ou chove.
Os meus sentidos andam
endurecidos e me pego
a cada dia gostando
menos de tudo o quê
estou testemunhando.
Perdi as contas de quantas
vezes mastiguei e engoli
a minha própria língua
por tomar noção que
muita coisa virou cinza.
Ler as notícias e insistir
em olhar para o céu
continua sendo um engano,
o Apocalipse está
dominando os pulmões.
Só sei que choro por dentro
e os pássaros cantam
de desespero antes
mesmo do Sol raiar
e não sei mais e como falar.
Aquele homem morreu nas sombras do próprio passado. Das cinzas do silêncio ergueu-se outro, moldado pela dor e guiado por um destino já traçado. Na lei da selva, a piedade apodrece antes do amanhecer; apenas os que caminham entre as trevas, sem hesitar, alcançam o trono que o mundo nega aos fracos.
Já rodei todo esse mundo procurando encontrar algo que desse sentido aos dias cinzas. Eu era aquele que, por muito tempo, olhou para os lados e sentiu que o amor era um privilégio alheio, uma conspiração do destino contra o meu próprio peito. Eu guardava comigo os meus sonhos de criança, aqueles planos puros de formar uma família como era a dos meus pais, com mesa cheia, risadas na sala e um porto seguro para ancorar a alma.
Mas o tempo foi passando e a coisa mudou. O relógio não perdoa e, confesso, a solidão foi se chegando e se acostumou a sentar ao meu lado no sofá. Houve dias em que a chuva parecia ser a única visita, e a desilusão tentou assombrar os meus sonhos mais bonitos.
No entanto, há algo em mim que não se apaga. De uma coisa eu não desisto, sou fiel e não abro mão: a esperança de ter o meu lugar no mundo. Quero os filhos, os amigos, a companheira e os irmãos celebrando a vida. Pois se essa vida é bonita, ela é feita pra sonhar, e cada tropeço só aumenta o meu desejo de, afinal, te encontrar.
O que eu não me acostumo é com a solidão. Ela é uma visita barulhenta demais no meu silêncio. Por isso, sigo firme. Sei que essa tal felicidade, hei de encontrar, e não importa o caminho ou a demora: mesmo se eu tiver que aguardar, se eu tiver que esperar, eu estarei pronto.
Porque eu sei que, no momento em que eu vir o teu rosto, a dúvida vai embora. Um pedaço do seu beijo ou o seu coração já serão o suficiente para me fortalecer e me fazer delirar. Eu me tornarei, finalmente, um crente no amor.
A saudade é a brasa acesa por entre as cinzas e que, a cada brisa, esquenta. Se vem sopro de vente, reascende.
"Como um Rei destronado, em meio as cinzas do seu trono e às ruinas de seu palácio...ou como um mendigo que dorme no chão e se cobre com a escuridão noite, enquanto é esquecido pela sociedade...
O palhaço que sorri e faz as pessoas sorriem, hoje tem lágrimas na face.
Todas as coisas existentes e todo sentido da vida e todos os segredos da alma, tornaram-se insupotáveis e medonhos...
Todos os sonh......os e tudo que construi, virou um fogo que queima meu coração com suas chamas e destroi minha alma, deixando-me cego com sua fumaça...Por isso e por tantas outras coisas talvez, em muitos momentos não demonstrei o que sinto.
Amarguei isso dentro de mim, pra tentar esquecer.
Sem pensar no quão cruel eu estava sendo comigo
Sinto esse tempo brincar com meus sentimentos, estou a pecorrer a pé o caminho da felicidade, enquanto a infelicidade me persegue a cavalo...
Essa fase é como uma tempestade violenta e sou a poeira diante desse caos, cheguei á me questionar, á pensar que estava enlouquecendo, que era egoísta.
Sempre procurei razão pra tudo, explicação e sentido para cada momento, cada sentimento, e isso me impede de simplesmente, amar por amar, viver por viver...
Eu "palhaço triste" tenho apenas a obrigação de garantir o espetáculo, mesmo que isso custe sufocar meus sentimentos e me impeça simplesmente de sofrer..."
O que escrevo não é para aqueles que não são adeptos de sentimentos e sonhos, pois mesmo que compreendam o sentido dessas palavras, não podem enxergar e entender o seu real sentido.
O que escrevo não se resume e nem moram nas palavras."
Das cinzas emerge o passado trazendo de volta o teu rosto escupido nas lembranças e tatuado nas recordações ai, aproveito para acender mais uma vez a chama do desejo e da paixão !
Há dias que são cinzas,são dias de cansaço sem fim.
Dores e questionamentos,navegam pelo meu ser,
e eu busco o sol e seus reflexos ao amanhecer.
Ainda que eu me torne cinzas,
delas me erguerei,e serei chamas.
Eternas chamas que aquecem,
o coração de quem me queira bem.
