Cinzas
No fim, sobrará apenas o vento soprando entre as ruínas do que tentamos ser, levando as cinzas dos nossos poemas e as memórias dos nossos pecados. O mundo seguirá seu curso, o sol nascerá para outros miseráveis, e o meu nome será apenas um sussurro de quem soube ler o abismo.
Na Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja abre o tempo especial chamado Quaresma. São quarenta dias de reflexão, interiorização e conversão para tomar a mais profunda consciência do que é ser cristão. Quaresma não é tempo de tristeza ou solidão, mas sim de amadurecimento espiritual. O ser humano precisa de momentos fortes para aprofundar suas opções de vida, necessita avaliar a sua caminhada à luz da palavra de Deus e da oração.
Respirem cinzas.
Eu assofro pra limpar o cinzeiro — gesto pequeno, gesto de sobrevivência.
Há uma fuligem que insiste em falar meu nome, mas eu já não tenho paciência pra suas sílabas.
Cinco meses foram um mapa de mil estradas que ela percorreu na minha cabeça.
Quilômetros interiores, passaportes carimbados na memória.
Porém — nunca travei. Nunca parei. Nunca me neguei ao beijo que vinha entre uma lembrança e outra.
A insuportável mulher do olhar torto ocupou janelas inteiras, fez morada em gavetas.
Quando o olhar saiu de mim, a sala clareou como se alguém tivesse aberto a cortina de dentro.
Não foi vingança, não foi perdão; foi uma pequena aliança entre ar e verdade: eu respirei outro ar.
Já não estou mais aqui de tanto querer estar.
Essa vontade me evaporou de dentro — deixou o corpo e levou a fumaça;
ficou um corpo que aprende a olhar o mundo sem pedir licença.
Gritei. Clamei. Ninguém respondeu — talvez porque ninguém estivesse mais lá.
Talvez porque eu também não estivesse mais, e isso foi preciso: abandonar-se para reaparecer.
Eu fui para o abandono e voltei com as mãos sujas de cinza e o peito limpo de delírio.
Chamuscado e floresci. Memória como tatuagem que não dói mais, só lembra —
lembrar é menos que sofrer, é estudar a própria paisagem.
Sou ferida que virou mapa, cicatriz que sabe dizer caminho.
FIM DE TEMPORADA:
não é morte, é o abaixar da cortina com reverência e sem aplauso.
Como se os heróis tivessem perdido o brilho falso e ganhado o peso do que realmente importa: permanecer.
Obrigado por assistir.
(é um riso que sobra no fim do filme — seco, com fumaça na garganta.)
Eu sou o que vai e o que fica.
Eu sou o que permanece e prevalece.
Kurt Cobain emerge das cinzas grunge, voz partida: "Eu sou o grito primordial contra o nada, alma selvagem engolida pelo ruído urbano, buscando salvação no caos da pele ferida". Noé responde da sua arca espectral: "Eu guardei as sementes vivas do apocalipse, navegando dilúvios de lagrimas, para que raízes antigas brotem novamente em terras esquecidas". Mahatma Gandhi, com mãos calejadas de marchas infindas, declara: "A resistência pacífica é o sal da terra; nela, povos originários florescem invictos, dissolvendo correntes com a força do espírito desperto". Renato Russo, legionário das noites brasilianas, confessa: "Nas veias urbanas pulsa um pulsar proibido, herança de guerreiros das matas, clamando por um país que ouça o coração silenciado". Maria Quitéria, visionária das profundezas temporais, irrompe: "Na quarta dimensão, o tempo se dobra como lâmina invisível; ali, lutadores ancestrais transcendem o plano, libertando-nos em espelhos da eternidade rebelde". Suas vozes se entrelaçam num manifesto etéreo: a humanidade resiste, primordial e multidimensional, contra o vazio que nos cerca.
Não chorem pelas cinzas da degeneração. Um dia elas serão o sol na escuridão. Um dia elas serão o pulsar do seu coração.
A paixão é como fogo que queima a relva. As cinzas sobem alto, levadas pelo calor das chamas. Depois, caem como chuva, para tornar a terra fértil. O amor é sol, que desponta no horizonte com toda energia... para iluminar nossos caminhos e renovar a esperança na vida.
Das cinzas nos reerguemos
No silêncio da eternidade, onde o tempo se esconde,
o denso medo se avoluma, como neblina em noites ruidosas, abrumadas e profundas.
Ventos sussurram segredos, esgueirando-se entre as sombras,
soprando nuvens escuras, que cobrem o céu com suas ondas.
O coração acelera, preso na angústia do momento...
cada rajada traz lembranças, ecos de um passado lento – vivido em pleno tormento.
Mas uma luz tímida cintila, bem no olho da tempestade...
prometendo que, após a chuva, renascerá outra vez uma vida com amores de alegrias e verdades.
E, então, entre o medo e a calma, a batalha se desenha...
Entre nuvens sombrias, a esperança tem força... pra tudo transformar ainda se empenha.
Na penumbra do infinito, o vento continua a soprar...
revelando que, mesmo na dor, podemos, feito Fênix, nos reerguer das cinzas, refazer nossa vida e amar.
Se um dia encontrares minha esperança, não a confundas com as cinzas. Ela ainda vive, escondida em algum lugar da minha alma, reduzida a uma faísca quase imperceptível entre os escombros que carrego por dentro.
Memória do Holocausto
1941- 1945
Seis milhões.
Cinzas,
Silêncio,
Memória.
Resistência.
Benê Morais
O ponto zero é a piada mais sórdida do universo: um altar de cinzas onde os tolos imploram por um recomeço, ignorando que o nada sempre jogou com cartas marcadas.
Reno Fioraso
Habitas...
Viestes do pó e ao pó voltaras,
Das cinzas a Fênix,
A frente do espelho ou na sua frente a imagem é a mesma,,
Dos pés a cabeça, do avesso a linha reta, no vazio ou por inteiro, só da você,
O que você sabe é o que ninguém sabe,
Habitas em mim.
Quarta-Feira de Cinzas
Acabou a folia.
Que o fogo apenas se aquiete em brasas,
para que da melancolia das cinzas
renasçam corações e almas vibrantes de boas energias.
E mesmo em cinzas, o Brasil respira.
Porque nenhuma chama vence quem aprende com a dor.
Da bandeira que arde nasce um silêncio gritante:
ou mudamos a terra,
ou queimamos com ela,
em desamor.
ꫂ❁❁Das cinzas do esquecimento, um novo florescer. Cada pétala, uma promessa. Cada cor, uma nova história. Renasço surgindo para uma nova fase
Vivendo e aprendendoꫂ❁
As Cinzas da Memória
Há memórias que repousam nos livros.
Outras recusam o papel e preferem morar no coração.
Quando caminho pelas páginas da História, não encontro apenas datas, batalhas ou decretos. Encontro passos descalços sobre a terra quente. Escuto correntes que ainda tilintam dentro da consciência humana. Vejo mãos rachadas pelo trabalho erguendo a riqueza de um mundo que jamais lhes pertenceu.
O café perfumava as mesas dos poderosos.
O cacau adoçava os paladares da abundância.
A cana oferecia sua doçura aos mercados do mundo.
Mas, antes de tudo isso, havia o sal invisível das lágrimas.
Cada grão colhido escondia um nome esquecido.
Cada campo verde carregava um sofrimento que a paisagem insistia em ocultar.
A História costuma celebrar os vencedores.
Eu prefiro escutar os vencidos!!
Porque são eles que ensinam o verdadeiro preço da dignidade.
Às vezes me pergunto quantas estradas foram abertas por pés acorrentados. Quantas igrejas foram erguidas por mãos que nunca puderam escolher onde rezar. Quantas casas senhoriais foram construídas sobre sonhos que jamais conheceram um amanhecer de liberdade.
E, então, compreendo que o tempo não enterra todas as injustiças.
Algumas permanecem vivas.
Mudam apenas de roupa.
Hoje já não ouvimos o estalar do chicote com a mesma frequência, mas ainda existem palavras que ferem como açoites, salários que aprisionam, preconceitos que acorrentam e indiferenças que condenam pessoas a uma existência sem voz.
As correntes aprenderam a esconder-se.
Por isso se tornaram mais difíceis de romper.
Penso naqueles que incendiaram os canaviais.
Talvez não desejassem destruir plantações.
Talvez quisessem iluminar a noite para que alguém, finalmente, enxergasse sua dor.
O fogo era um idioma.
Era a linguagem desesperada de quem descobriu que o silêncio protege mais os opressores do que os oprimidos.
Penso também nos que fugiram pelas matas.
Cada passo era uma oração.
Cada rio atravessado era um pequeno batismo em direção à esperança.
Cada quilômetro percorrido dizia ao mundo que viver de joelhos nunca foi o destino da alma humana.
Muitos morreram.
Mas há mortes que fracassam.
Porque a liberdade possui uma estranha capacidade de sobreviver até mesmo aos túmulos.
Ela continua caminhando na memória dos filhos, dos netos e de todos aqueles que recusam esquecer.
Talvez seja por isso que essas histórias me façam chorar.
Não são lágrimas de quem observa um passado distante.
São lágrimas de quem reconhece que a dor do outro também lhe pertence.
A humanidade é um único corpo.
Quando uma parte sangra, todas as outras deveriam sentir.
O problema é que aprendemos a admirar monumentos, mas esquecemos de ouvir os ecos que ainda saem das senzalas.
Enquanto houver um ser humano tratado como instrumento, enquanto houver quem seja reduzido à cor da pele, ao dinheiro que possui ou ao lugar onde nasceu, a escravidão continuará mudando de nome para não ser reconhecida.
Por isso, olho para a História não para alimentar ódio, mas para impedir o esquecimento.
O ódio reproduz os grilhões.
A memória os quebra.
A compaixão impede que sejam forjados novamente.
E acredito que Deus, silencioso como quem contempla os séculos, não pergunta quantos impérios construímos.
Pergunta quantas correntes tivemos a coragem de romper.
No fim, descubro que essa história também é minha.
Não porque tenha sentido o peso do ferro nos pulsos, mas porque carrego a responsabilidade de não permitir que a dignidade humana seja novamente colocada à venda.
A verdadeira civilização não será lembrada pelos palácios que ergueu, nem pelas riquezas que acumulou.
Será lembrada pelo dia em que nenhuma pessoa precisou fugir para provar que nasceu livre.
Ps. Acredito que toda grande nação precisa aprender a olhar para sua própria história sem negar suas feridas. A memória não existe para alimentar ressentimentos, mas para cultivar justiça, compaixão e responsabilidade. Quando damos voz aos que foram silenciados, ajudamos a construir um futuro em que a liberdade deixe de ser um privilégio e seja, de fato, um direito de todos.
Lamento de Sangue e Cinzas
No ventre do caixão, no meu descanso eterno,
Corvos vertem seu sangue sobre a sepultura.
Minha alma se esvai no fogo do inferno,
Rendida à vaidade e à própria loucura.
Ouvir teu coração gritar na escuridão
Fez-me ansiar pela vida, por ser um mortal;
Meus olhos sangraram em pura aflição
Por te amar além do bem e do mal.
No desfrute da noite, a vida me toca,
Mas a alma rebelde congela no Éden.
O tempo devora, a memória me evoca,
Enquanto os anos e as eras se cedem.
Seus lábios sedentos calaram meu peito,
Fiz parar meu pulsar por este pecado.
O amor proibido, julgado e desfeito,
Pela Igreja queimado e expurgado.
Vízceras lançadas na abissal profundeza,
E no entanto, a carne estremece em desejo.
Entre o céu e o inferno, na vasta frieza,
Encontrei a solidão no calor do teu beijo.
Nas ruínas do tempo que cercam meu caixão,
Teu rosto e tua imagem jamais vão morrer:
Exijo a equivalência d’alma e coração,
Pois só no teu amor eu aceito renascer.
