Cidade
Na grande cidade dos deuses, esculpida no silêncio dos séculos, a Pirâmide da Lua não é um enigma a ser decifrado pelo homem, mas uma resposta em pedra para uma pergunta que a humanidade desaprendeu de fazer.
Reno Fioraso
Há tantos lugares que nessa cidade que me lembram você. Alguns me trazem boas memórias do tempo que passamos juntos. Outros, infelizmente, fazem com que seja a sua partida seja ainda mais dolorosa. O tempo que passamos juntos nesse plano foi curto, mas o suficiente para eu continuar pensando em você depois de todos esses anos. Eu sei que se você estivesse aqui, gostaria que eu seguisse em frente. É que alguns dias ainda são muito difíceis. A saudade fala mais alto e eu não consigo explicar o que sinto. Esteja em paz, meu bem. Venha me visitar novamente em um sonho, por favor.
Depois de todos esses anos, decidi, finalmente, retornar à minha cidade natal e fazer uma visita. Eu era muito jovem quando decidi ir embora e explorar novos caminhos. Não me arrependo jamais dessa decisão. Só que naquela época, jamais poderia imaginar o quão desafiador seria estar aqui novamente.
A sua partida doeu por muito tempo, e esta cidade é repleta de lembranças suas — lembranças lindas, mas dolorosas para alguém que sente tanto a sua falta. Ainda assim, eu sabia que estava na hora de voltar.
Após duas noites seguidas sonhando com você, senti como se fosse um sinal para voltar e revisitar esse lugar que marcou tão profundamente minha infância e juventude. Então, deixei a tristeza de lado e fui. Eu sei que você entenderia as razões pelas quais eu demorei tanto para voltar para cá.
É doloroso lidar com histórias do passado que nunca foram resolvidas, e a sua partida foi uma delas. Eu sabia que, em algum momento, precisaria confrontar todas essas emoções. Definitivamente, não foi fácil. Porém, quando cheguei aqui, senti uma paz imensa. Senti a sua presença — era como se você estivesse orgulhosa por eu estar aqui.
Visitei novamente vários lugares que marcaram minha vida. Essas ruas, parques e casas nos trouxeram tantos momentos bons, não é mesmo? Enquanto eu viver, vou lembrar de você. E eu juro que, desta vez, não vou demorar tanto para voltar.
Lá fora está um dia frio e nublado, enquanto dentro de mim, permanece um sol forte, daqueles que ilumina a alma.
Não posso dizer que fiz as pazes com o passado, mas, de certa forma, estou lidando melhor com essas emoções. Você era força, resiliência e otimismo. Guardo cada memória no meu coração. Saudade é para sempre.
Quantas memórias...
essa cidade faz parte da minha história!
Eu deixei esse lugar quando eu era ainda muito jovem e demorei muito para voltar. Não porque eu não queria, mas porque a minha cidade natal, na qual passei minha infância e juventude, me traz muitas lembranças de pessoas que já se foram. Então, retornar significa encara todas essas emoções e sentimentos não resolvidos.
Mas, finalmente, estou aprendendo a lidar com isso. Voltar não me traz muita dor, pelo contrário, me traz um certo alívio e conforto. Agora, ao passar por essas ruas, consigo me lembrar com menos aflição de pessoas e momentos que fizeram parte da minha história.
Em breve vou embora novamente, porém, valorizando minhas raízes. Jamais vou esquecer de onde eu vim.
Uma cidade tão tranquila e pequena - é como se o tempo não tivesse passado por aqui. Poucas coisas mudaram desde que eu resolvi voar e segui por novos caminhos. Voltar para cá mexe tanto com as minhas emoções, de uma forma positiva, mas também, muito nostálgica e cheia de saudades de todos os momentos que vivi e das pessoas que esse lugarzinho me deu o privilégio de conhecer. Fico pensando como teria sido a minha vida se eu tivesse continuado por aqui. Depois de muitos anos, finalmente me encontrei em outras terras. Mas isso não quer dizer que eu não sinta muito amor pela minha cidade natal. Que esse lugar continue sendo calmo, abençoado e que da próxima vez que eu vier para cá, eu possa sentir novamente que o tempo não passou por aqui.
“Nenhuma cidade deveria chamar de problema aquilo que nasceu como consequência de uma responsabilidade que ela própria deixou sem resposta.”
A cidade segue funcionando, as pessoas riem nos lugares errados, o tempo insiste em andar para frente.
Eu não acompanho.
Eu administro a falta. Em silêncio. Em turnos.
Não chamo de saudade porque saudade é doméstica demais para o que ficou.
Isso aqui é permanência forçada.
É carregar alguém mesmo quando a outra pessoa largou o peso.
TDAH ... É viver
com a mente parecendo cidade grande em horário de pico.
78 abas abertas.
Uma música aleatória tocando no fundo.
Memórias entrando sem bater.
Pensamentos tropeçando uns nos outros
feito gente desesperada correndo atrás de si mesma.
E no meio desse caos
você ainda tenta amar, ajudar, sobreviver, lembrar.
Mas sempre aparece alguém
transformando esquecimento em defeito de caráter,
como se tua mente cansada fosse ofensa pessoal.
Não entendem que existe diferença
entre não lembrar
e não se importar.
Aí vêm os gritos,
o esculacho,
a humilhação embrulhada em “sinceridade”.
Curioso como tanta gente exige compreensão
enquanto distribui crueldade com naturalidade.
Nossa espécie realmente acorda cedo
pra competir por medalha
de desgaste emocional.
E ainda assim,
mesmo perdida entre ruídos,
você continua tentando ser abrigo
pra quem nunca aprendeu
a não virar tempestade.
CONTO: A Última Batalha dos Heróis
Na cidade de Aurória, ninguém sabia quando os heróis haviam surgido.
Sabiam apenas que, sempre que o medo encontrava um endereço, eles apareciam.
Aurion dominava a luz.
Tempest, os ventos.
Titã possuía a força de uma montanha.
Lince atravessava sombras como quem atravessa uma cortina.
Durante décadas, venceram guerras, monstros e catástrofes.
Até que surgiu um inimigo diferente.
Ele não trazia armas.
Nem exércitos.
Chamava-se Esquecimento.
Por onde passava, as pessoas deixavam de acreditar nos heróis.
Não era magia.
Era indiferença.
Os jornais pararam de escrever.
As crianças deixaram de sonhar.
Os adultos passaram a dizer que heróis nunca existiram.
E, quanto menos eram lembrados, mais fracos se tornavam.
Aurion foi o primeiro a cair.
Sua luz tornou-se apenas um reflexo.
Depois Tempest já não conseguia mover uma folha.
Titã mal conseguia levantar a própria espada.
Restava apenas Lince.
Ela caminhou até o centro da cidade e encontrou uma menina desenhando com giz na calçada.
No desenho havia quatro figuras usando capas.
Lince sorriu.
Perguntou:
— Quem são eles?
A menina respondeu sem levantar a cabeça:
— São os heróis.
Minha avó disse que eles protegem quem ainda acredita.
Naquele instante, uma centelha percorreu o céu.
Aurion voltou a brilhar.
Os ventos obedeceram outra vez a Tempest.
Titã ergueu a espada como se nunca tivesse caído.
O Esquecimento percebeu tarde demais que jamais enfrentava músculos ou poderes.
Enfrentava a memória.
E memória nenhuma pode ser apagada enquanto existir alguém disposto a contá-la.
Quando tudo terminou, os heróis desapareceram novamente.
Mas, desde então, sempre que uma criança desenha uma capa, uma máscara ou um símbolo em uma folha de papel...
Aurória sorri.
Porque sabe que, em algum lugar, um herói acaba de nascer.
Lucci Santz
Com o aumento de bicicletas nas ruas de uma cidade, a evolução para um trânsito mais humano e seguro e com Paz, é inevitável.
A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO: A INDIFERENÇA TEM MÃOS LIMPAS
A cidade fede.
Não por causa do esgoto.
É o cheiro da consciência apodrecendo devagar.
Você aprende isso quando passa dos sessenta.
Os anos deixam marcas onde antes havia certezas. O espelho passa a contar verdades que ninguém pediu para ouvir. Alguns amigos viram fotografias, outros apenas silêncio. Os cães que juravam amor eterno descansam sob a terra. Os balcões onde você gastou madrugadas cedem lugar a farmácias e franquias. Algumas mulheres levam consigo os planos que um dia pareciam indestrutíveis. E a vida, insolente, sequer diminui o passo. Amanhece do mesmo jeito, como se nenhuma ausência merecesse um minuto de luto.
O problema nunca foram os assassinos.
Eles são poucos.
O problema sempre foi essa multidão de gente decente.
Os que dizem:
"Não é comigo."
Essa frase matou mais gente do que qualquer exército.
Todo império foi construído sobre ela.
Toda cruz.
Toda bomba.
Toda criança enterrada antes do tempo.
Você quer encontrar o diabo?
Não procure chifres.
Procure conforto.
Ele mora ali.
Na poltrona.
No controle remoto.
No dedo que desliza pela tela para não olhar uma fotografia de guerra por mais de três segundos.
A alma não morre de uma vez.
Ela enferruja.
Primeiro deixa de sentir o mendigo.
Depois deixa de sentir o velho.
Depois a mulher espancada.
Depois a criança.
Quando percebe, já não sente nem a própria dor.
Só o vazio.
E chama isso de maturidade.
Que piada.
Passei tempo demais em bares para acreditar em gente iluminada.
Conheci bêbados mais honestos que muitos santos.
Pelo menos eles admitiam que estavam quebrados.
Os outros escondem a podridão atrás de sorrisos bem escovados e frases motivacionais.
A espiritualidade, se existe alguma, nunca esteve nos altares.
Ela aparece quando a dor de um desconhecido estraga o seu sono.
Quando você não consegue terminar o café porque uma notícia ficou presa na garganta.
Quando percebe que nenhuma fronteira impede um coração de reconhecer outro coração.
Nesse instante você entende uma coisa terrível.
Nunca existiram "eles".
Sempre fomos "nós".
E essa é a pior notícia que alguém pode receber.
Porque acaba a desculpa.
Acaba Deus levando a culpa.
Acaba o governo.
Acaba o destino.
Sobra você.
Você e a escolha ridiculamente simples que a maioria evita fazer.
Importar-se.
Não para parecer bom.
Não para ganhar o céu.
Nem para aliviar a consciência.
Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar o seu peito, você continuará andando, falando e pagando contas...
...mas a única coisa realmente viva dentro de você já terá ido embora.
*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*
Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.
Encontrei o pub perto de um parque.
Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.
Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.
Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.
Era um bom lugar para observar.
E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.
Uma mulher subiu ao pequeno tablado.
Trazia algumas folhas na mão.
Começou a declamar.
Não era uma poesia bonita.
Ainda bem.
Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.
Falava de gente.
Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.
No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.
Um deles riu.
Outro disse que aquilo era deprimente.
Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.
O homem do relógio concordou.
— Poesia não paga conta.
Era uma frase perfeita.
Curta.
Prática.
Estúpida.
Eles riram.
Eu bebi.
A mulher continuou.
E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.
Para que serve a poesia?
A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.
A necessidade de que tudo tenha utilidade.
Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.
Uma árvore precisa dar fruto.
Um homem precisa produzir.
Uma mulher precisa vencer.
Um filho precisa ter futuro.
Uma casa precisa valorizar.
Um livro precisa ensinar.
Uma conversa precisa gerar alguma coisa.
Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.
Tudo precisa servir.
Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.
Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.
Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.
Ela não estava vendendo nada.
Não estava aumentando patrimônio.
Não estava melhorando o currículo.
Não estava produzindo uma estatística.
Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.
E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.
A poesia não consertava o mundo.
Não pagava aluguel.
Não trocava o óleo do carro.
Não diminuía a fila do supermercado.
Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.
Mas resistia.
Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.
Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.
Não porque tivesse respostas.
Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.
Quem sou eu?
O que perdi?
Quem amei?
Quem ainda me ama?
Por que continuo aqui?
Perguntas inconvenientes.
Nenhuma delas cabe numa planilha.
O grupo continuava rindo.
O homem do relógio começou a falar do carro novo.
A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.
Outro falou sobre investimentos.
Tinham muito.
Era evidente.
Talvez tivessem tudo.
E foi justamente isso que me incomodou.
Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.
Talvez confundissem ter com ser.
Eu não podia julgá-los.
Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.
Trabalhando.
Pagando.
Cumprindo.
Esperando.
Adiando.
A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.
A mulher terminou o poema.
Algumas pessoas aplaudiram.
Poucas.
Ela agradeceu e desceu.
Passou perto de mim.
Por um instante, olhou para o meu copo.
Depois para mim.
Não disse nada.
Talvez não precisasse.
Pedi outra bebida.
Depois outra.
A noite avançou.
O grupo foi embora.
Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.
A poesia havia terminado.
O dinheiro continuava funcionando.
O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.
Paguei a conta e saí.
O parque estava quase vazio.
Comecei a caminhar para casa.
A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.
Os prédios eram apenas prédios.
As lojas estavam fechadas.
As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.
Passei por um carro importado estacionado na rua.
Pensei no homem do relógio.
Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.
Talvez fosse feliz.
Eu não sabia.
E esse era o problema.
Ninguém sabe.
Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.
Salário.
Cargo.
Casa.
Carro.
Viagens.
Seguidores.
Objetos.
Conquistas.
E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.
Você viveu?
Ou apenas funcionou?
Continuei andando.
Pensei novamente na mulher do pub.
Talvez poesia fosse isso.
Não um luxo.
Não uma distração para quem não tem problemas.
Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.
Um pequeno defeito na máquina.
A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.
Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.
Eu senti isso.
Eu perdi aquilo.
Eu amei alguém.
Eu tive medo.
Eu não entendi.
Mas estive aqui.
E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.
A poesia não precisava salvar ninguém.
Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.
Cheguei em casa.
Abri a porta.
Acendi a luz.
Meu gato apareceu no corredor.
Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.
Tinha fome.
Claro que tinha.
Coloquei comida no prato.
Ele comeu.
Depois passou pela minha perna e desapareceu.
Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.
A casa estava silenciosa.
Não havia aplausos.
Não havia relógios caros.
Não havia gente discutindo patrimônio.
Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.
Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.
E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.
Talvez a poesia não sirva para nada.
Talvez nunca tenha servido.
Talvez esse seja justamente o seu valor.
Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.
Uma música.
Um beijo.
Uma conversa inútil às três da manhã.
Um homem bebendo sozinho.
Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.
Um gato esperando alguém voltar para casa.
Nada disso aumenta o patrimônio.
Nada disso melhora a produtividade.
Nada disso aparece no currículo.
Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.
Fiquei olhando para o gato.
Ele me olhou de volta.
Nenhum dos dois tinha uma resposta.
Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.
Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.
Talvez seja por isso que ainda escrevemos.
Por isso que ainda ouvimos música.
Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.
A poesia não existe para tornar a vida mais útil.
Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.
E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.
Continuar vivo.
Mas não apenas funcionando.
Pés machucados
Saí pra caminhar,
nas ruas desertas desta cidade,
sem olhar o sinal,
sem sentir o tempo passar,
sem querer voltar...
Saí pra caminhar,
nas ruas desertas desta cidade,
onde o silêncio embala meus pensamentos,
e a insônia a me rondar em passos lentos.
Cada estrela é um sussurro no escuro,
velando meus sonhos adormecidos,
na esperança de um novo amanhecer.
Andei sem rumo,
milhas e milhas,
dias e dias...
não sei mais quanto tempo faz...
O caminho de volta
encontrar não sou mais capaz...
Andei sem rumo,
milhas e milhas,
dias e dias...
A noite se estende,
silenciosa, fria,
onde o sono se esconde,
tecendo sonhos fugidios,
na dança lenta da insônia.
Andei... ando sempre andando,
sigo caminhando,
sem rumo, sem direção
vou continuar
até a dor dos meus pés
ser maior que a do meu coração.
Chovia como se o céu abrisse uma ferida antiga sobre a cidade, e cada gota trouxesse consigo um fragmento daquilo que ainda não aconteceu. Eu caminhava dentro desse rumor líquido com a sensação estranha de estar tocando a quarta dimensão, como se o tempo deixasse de ser linha e se tornasse um quarto secreto dentro do peito. Havia, na parede de uma casa esquecida, um relógio sem ponteiro. Ele não marcava horas; marcava ausências, retornos, aquilo que a memória inventa quando a saudade precisa sobreviver.
No bolso, eu carregava uma bússola de areia. Ela não apontava para o norte, mas para dentro, para esse lugar onde seguimos olhando o futuro reescrevendo o passado, sem perceber que ambos se misturam na mesma água escura. Talvez viver seja isso: atravessar a chuva sem querer secar demais, aceitar que o destino também hesita, e compreender que o amanhã nem sempre vem à frente. Às vezes, ele chega ontem tocando nossas cicatrizes, mudando o nome das antigas dores e devolvendo sentido ao que parecia perdido antes que a alma aprenda a chamá-lo casa.
A cidade não é neutra: ela legisla silenciosamente sobre quem merece abrigo e quem deve sobreviver à margem.
O Pão de Cada Dia e a Arte de Servir
Imagine uma cidade e 2 padarias…
A Padaria A, tradicional e rainha do pedaço por anos. O conforto do hábito, a ausência de risco, mantinham a maioria dos clientes fiéis, mesmo que o pão já não fosse mais tão surpreendente.
A padaria “A” acreditava que sua tradição era seu escudo.
Certo dia, surge a Padaria B. Nova, disposta a ser mais do que apenas um lugar para comprar pão.
Um a um, por curiosidade ou insatisfação sutil, os moradores começam a visitar a B. O boca a boca se espalha. Sem roubo de receita ou rasteira, apenas pela força inegável da livre concorrência em ação, a padaria B passa a ganhar a confiança dos clientes e, logo, sua preferência.
A verdade é que os clientes buscam algo que vai além de um CNPJ com tradição.
Eles buscam conexão. Querem ser ouvidos, atendidos com cordialidade e personalização. Querem se sentir únicos. E isso é:
* É ser chamado pelo nome.
* É ter o aniversário lembrado.
* É o cuidado em um contrato bem feito.
* É o brinde simples, mas cheio de significado.
Muitas vezes, não é o preço que define o vencedor, mas sim a forma como o negócio é conduzido: o ouvir, o carinho, a atenção, a sensibilidade. É sobre construir parcerias com pessoas, e não apenas focar em lucros. É vender bem, mas entregar além.
Quando um concorrente surge, ele não é apenas uma ameaça; é um espelho e uma oportunidade de aprendizado.
De analisar: Onde estão as qualidades deles? E, mais crucialmente: Onde estão as nossas falhas e nossos pontos fortes?
No mundo corporativo (e na vida pessoal), a capacidade de aprender com o concorrente, apesar da sua própria história e experiência, é o que garante a evolução ou decreta o seu fim.
Essa escola , é mais olhar ou vigiar a vida do outro, mas de olhar para a sua própria através da lente da concorrência, e decidir entregar mais do que “mais do mesmo.”
E você, Como você está negociando o seu “pão”?
Na cidade maravilhosa,
Conheci gente famosa.
Conheci a mulherada,
Mulheres lindas e formosas.
Bem arrumadas e maquiadas,
Comunicativas e educadas,
No mar, na terra e na areia,
Mulher sereia, mulher avião,
Mas,meu queixo caiu no chão,
Me apaixonei de alma e coração,
Me casei com a morena do sertão.
A cidade apagada,
a cidade alagada,
a cidade quebrada,
a história acabada,
e a população maltratada.
Esquinas da cidade
Nas esquinas da cidade, um ladrão de sonhos,
remexeu as gavetas do tempo, buscando em seus tronos sonhos adormecidos.
Espalhou o encanto pela vida desnuda,
como um poeta que em versos nunca se ajuda.
O céu, testemunha dos segredos perdidos,
sussurra histórias de amores e sentidos...
Os sorrisos se misturam ao pó das calçadas,
enquanto a brisa leva memórias entrelaçadas pela brisa que se espalha pelo ar.
Corações pulsantes guardam esperanças,
sorrateiros dançam nas instâncias...
Despertando encantos em cada canto da cidade tão cheios de dor,
transformando essa dor em arte, em puro amor.
Assim, a cidade respira o seu lamento,
onde sonhos se tornam eternos, se camuflam... no vento todo tempo.
