A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO: A... Paulo H Salah Ad din
A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO: A INDIFERENÇA TEM MÃOS LIMPAS
A cidade fede.
Não por causa do esgoto.
É o cheiro da consciência apodrecendo devagar.
Você aprende isso quando passa dos sessenta.
Os anos deixam marcas onde antes havia certezas. O espelho passa a contar verdades que ninguém pediu para ouvir. Alguns amigos viram fotografias, outros apenas silêncio. Os cães que juravam amor eterno descansam sob a terra. Os balcões onde você gastou madrugadas cedem lugar a farmácias e franquias. Algumas mulheres levam consigo os planos que um dia pareciam indestrutíveis. E a vida, insolente, sequer diminui o passo. Amanhece do mesmo jeito, como se nenhuma ausência merecesse um minuto de luto.
O problema nunca foram os assassinos.
Eles são poucos.
O problema sempre foi essa multidão de gente decente.
Os que dizem:
"Não é comigo."
Essa frase matou mais gente do que qualquer exército.
Todo império foi construído sobre ela.
Toda cruz.
Toda bomba.
Toda criança enterrada antes do tempo.
Você quer encontrar o diabo?
Não procure chifres.
Procure conforto.
Ele mora ali.
Na poltrona.
No controle remoto.
No dedo que desliza pela tela para não olhar uma fotografia de guerra por mais de três segundos.
A alma não morre de uma vez.
Ela enferruja.
Primeiro deixa de sentir o mendigo.
Depois deixa de sentir o velho.
Depois a mulher espancada.
Depois a criança.
Quando percebe, já não sente nem a própria dor.
Só o vazio.
E chama isso de maturidade.
Que piada.
Passei tempo demais em bares para acreditar em gente iluminada.
Conheci bêbados mais honestos que muitos santos.
Pelo menos eles admitiam que estavam quebrados.
Os outros escondem a podridão atrás de sorrisos bem escovados e frases motivacionais.
A espiritualidade, se existe alguma, nunca esteve nos altares.
Ela aparece quando a dor de um desconhecido estraga o seu sono.
Quando você não consegue terminar o café porque uma notícia ficou presa na garganta.
Quando percebe que nenhuma fronteira impede um coração de reconhecer outro coração.
Nesse instante você entende uma coisa terrível.
Nunca existiram "eles".
Sempre fomos "nós".
E essa é a pior notícia que alguém pode receber.
Porque acaba a desculpa.
Acaba Deus levando a culpa.
Acaba o governo.
Acaba o destino.
Sobra você.
Você e a escolha ridiculamente simples que a maioria evita fazer.
Importar-se.
Não para parecer bom.
Não para ganhar o céu.
Nem para aliviar a consciência.
Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar o seu peito, você continuará andando, falando e pagando contas...
...mas a única coisa realmente viva dentro de você já terá ido embora.
