Carta a um Amigo Detento
Hoje me peguei inquieto,
a madrugada e seu silêncio eram o único som que se ouvia além de um coração repleto.
repleto de pesares e amargura
Pelos erros doravante cometidos,
erros que perante o céu fiz meu Deus tê-los assistido
antes tinha desculpas, hoje responsabilidade,
não sei se o fardo ameniza quando se confronta com a extrema verdade.
Somos o que somos e essa realidade é inevitavelmente fiel
Embora passamos muito tempo tentando ser o que não somos pra agradar o público no qual seu teto mesmo é feito de papel
quebrável assim como o meu
Pois atrás da tela da rede social ninguém é feliz o tempo todo,
mas pago pra ver uma foto da tristeza do despejo, da fome e da imperfeição do outro.
Quem me dera ouvir a voz humana disse um poeta,
eu só queria ouvir uma verdade,
pra fugir dessa busca constante de afirmação do ego e da vaidade
meu passado é meu carrasco e com ele devo me resolver,
o só por hoje virou um tema que apenas nele consigo viver,
o futuro entreguei a Deus, pois minha vontade é má vil e cruel
Mas tudo que vi de bom nesse mundo
foi quando fechei os olhos e rezei pro céu.
O sapato amarelo
Eu planejei comprar um sapato amarelo amanhã,
mas hoje ganhei um vermelho.
Recebo o carinho de quem me deu o vermelho,
e não comprarei mais o amarelo,
pois agora já tenho um sapato novo.
Pra quê ter tantos pares se só tenho dois pés?
Meu boné me deixa bonito e combinaria muito com o sapato amarelo,
mas não com o vermelho.
Boné e sapato vermelho, nada a ver.
Visto o vermelho e mostro que respeito o carinho de quem me presenteou.
Mostro, mostro e me mostro.
Ponho na gaveta o boné,
abandono o sonho do sapato amarelo,
e assim deixo de lado o desejo de construir a mim mesmo.
Cetemque é palavra de vocabulário degradativo.
Meio que um pronome-verbo-impositivo.
Quando usado, só tem a 1ª pessoa:
eu, eu, eu.
Mas é um EU diferente.
Um tipo de acusativo mal conjugado.
Eu cetemqueio não existe.
Nós cetemqueamos é um coach triste
Seu cetemqueado, dá até pra xingar.
O infinitivo, sem sentido, seria cetemquear...
mas não há.
Em 2ª pessoa fica redundante.
É obvio que o cetemque é só pra tu.
É obvio que o cetemque é só pra você!
E em 3ª pessoa? Ele, ela...?
Ah, nesse caso a mudança seria toda radical:
Eletemque toma forma fofocal
e hiperboliza o lexical.
Em todos os casamentos que fui,
vejo um fantasiado levantar os braços
e bobeirar que sabe o mundo.
De jeito nenhum,
nunca me caberia casar assim,
com um tolo me culpando pelos próprios fracassos.
Nem por decreto,
nem a pau me calaria diante de um mascarado imundo
falando que minha mulher é inferior a mim.
Você não conseguirá entrar em um coração se ele estiver fechado pra você. Jesus não entrou no coração de Judas porque o coração dele estava fechado para Jesus e aberto para a ambição. Não entrou no coração dos fariseus porque estavam todos cheios de orgulhos e certezas distorcidas. Pare de insistir em amizades unilaterais, se afaste, não deseje o mal, apenas ore por todos que não aceitam o amor que você tem para oferecer.
palavras da alma
Eu passei por transformações positivas e definitivas.
Regressar seria um insulto a tudo que abri mão e deixei ir. Sou feita de desistência e persistência, em ambas tenho absoluta certeza do querer.
Meu coração é terra sagrada para deixar qualquer um ou qualquer sentimento entrar, eu sou feita de certezas e confusões e ser eu, na maioria das vezes é dolorido.
Sou nostálgica sem ser apegada.
Sou amante da escrita e íntima das palavras, tenho mais facilidade em me expressar escrevendo do que falando. Quando falo me atrapalho e na maioria das vezes sou mal interpretada, escrevendo eu dou asas a minha alma e ela voa livre e feliz.
Em um dia comum os dois se encontram por acaso.
O mundo em volta parece agora funcionar em câmera lenta.
Anos depois o destino fez a rota dos dois se cruzar.
Eles se olharam por um tempo, analisando cada traço um do outro.
A voz dela quebrou o silêncio:
_você esqueceu?
Ele sorriu tristemente e respondeu:
_Não esqueci, não tem como esquecer!
Rosane Brito
Passei a odiar a minha vida, ó sol indiferente.
Nada faz sentido; nem esta frase.
É como amar uma sombra ao entardecer: quanto mais corro, mais ela foge.
É beijar o vento que carrega o perfume de alguém que já partiu há mil anos-luz.
É gritar “eu existo?” dentro de um auditório vazio, onde até o eco se recusa a responder.
E o pior: eu sei que, amanhã, o sol vai nascer do mesmo jeito; impiedoso, dourado, cínico.
Vamos nos perder no tempo?
Amanhecer o dia com a alegria de uma criança recebendo um brinquedo.
Acordar de súbito, sabendo que o sonho não passou de um pesadelo.
Levantar-se e ver a vida com a sutileza do voo de uma libélula em plena primavera.
Cair da cama e sair correndo para não deixar as coisas boas do mundo acontecerem sem a sua participação.
Sair de casa com a esperança de dias melhores, mesmo com o futuro recente incerto.
Apreciar, da janela, a firmeza e a dedicação de pessoas desconhecidas, porém essenciais no dia a dia.
Vestir-se de amor em todos os momentos e enfrentar, com cautela, tudo e todos.
Ir ao trabalho todos os dias, sem calendário, como se fosse uma eterna sexta-feira.
Ver o mundo, ver a vida, ver as coisas partindo do pressuposto da conformidade entre o que somos, o que temos e o espírito permanente de justiça.
Contemplar entardeceres, viver menos na compulsoriedade e aproveitar o hedonismo.
Rir, cantar e assobiar aquela musiquinha chata que não sai da cabeça.
Perder-se no tempo e voltar ao itinerário sem usar nenhum atalho.
Vamos nos perder no tempo!
Sinfonia Inversa
Feche a porta invisível,
abra a janela já aberta.
Cavalgue um unicórnio lobuno,
voe numa libélula dourada.
Desça a serra de vidro,
suba num trampolim estático.
Nade no rio de lágrimas,
corra pela rua de cera.
Grite em barítono agudo,
cale-se em alto volume.
Leia o pergaminho ágrafo,
escreva com a pena de Roc.
Coma a fruta-bolacha,
beba o drink que evapora.
Durma com o sol na moringa,
acorde com os pés nas nuvens.
Mime um gato alado,
dome uma fera urbana.
Reze com evangelho apócrifo,
peque com um terço ao peito.
Conte uma estória verídica,
narre um crime perfeito.
Dance o tango inglês,
cante a ópera baiana.
Quando a inspiração chega,
vem de sobriedade e ignorância,
um turbilhão na cabeça,
dedos que obedecem sem perguntar.
Escrevo o que só quem viu entende,
fragmentos de Guarulhos
cravados na memória,
pensamentos vivos, permanentes,
como ruas que nunca se apagam.
A vida passa, a mente pira,
mas a escrita fica —
eco de tempos que só eu carrego.
Na verdade, sou um paladino do invisível.
Um romântico que ainda caminha de armadura leve, não de ferro, mas de esperança.
Carrego no peito não uma espada,
mas a coragem de sentir.
Acredito no amor como quem acredita no nascer do sol:
mesmo depois da noite mais escura, ele volta.
Sou desses que ainda escrevem versos no silêncio,
que veem eternidade em um olhar sincero
e que entendem que a vida não é batalha para ser vencida,
mas jardim para ser cuidado.
Sim, sou um paladino,
não dos castelos de pedra,
mas dos sentimentos verdadeiros.
E enquanto muitos desacreditam,
eu permaneço,
porque quem ainda acredita no amor
já venceu metade da guerra.
Ainda dói...
Ainda existe um aperto no peito quando lembro de você, meu pai.
Quando olho para trás e recordo tudo o que vivemos, os momentos simples, as conversas, os pequenos instantes que hoje fariam tanta falta.
Ainda há uma mistura de tristeza e inconformismo dentro de mim ao pensar que você não vai voltar. Que não conseguimos parar o tempo. Que a vida continuou seguindo, mesmo quando o meu coração queria que tudo tivesse ficado como antes, com você aqui.
Existem dias em que a saudade chega mais forte, silenciosa, ocupando cada canto da memória. E então eu percebo que a ausência de um pai nunca deixa de doer… a gente apenas aprende a conviver com a falta.
Porque quando um pai parte, ele leva consigo um pedaço enorme da nossa história. E o que fica é essa saudade eterna, que o tempo não apaga… apenas ensina a carregar.
Por trás da porta
Por trás da porta
A rua segue seu curso
Como um rio,
Pessoas descem
A água é o vento
Que as move
Passos distintos,
Caminhos iguais
São moléculas
Sem destinos
Poeiras outonais.
E eu atrás da porta
Sem coragem
De ir à rua
Penso no futuro
Mas o passado me espreita
Quem dera fosse largar
A rua que me espera
Mas a porta é estreita.
INVOLUÇÃO HUMANA
Creio na involução do homem,
de um deus a um verme,
e não na evolução progressiva
do macaco ao homem,
do instinto à razão
o macaco é muito bom
para dar origem ao homem atual.
no início era a semelhança de Deus,
depois, anjos caídos,
para habitar corpos de nefilins
coabitaram com mulheres mortais
geraram filhos híbridos,
filhos que espalharam a violência
e a miséria humana sobre a terra.
regredindo ainda estamos, da luz eterna
para a escuridão perpétua.
logo seremos verme, e depois pó,
ao fim da involução
para o cerne do nada,
da inutilidade...
UMA CANÇÃO DE AMOR JAZZ
Eu sei,
Que não é fácil viver,
Sozinho sem um alguém,
Por isso eu amo você.
Pedi ao sol
Pedi à lua
Para encontrar um amor
Um anjo me responder.
No lindo sonho acordei
ouvindo a voz do alguém
a me dizer sorridente
Sou eu,
Que estou aqui com você
Também estava sozinha
E agora tenho o céu...
É inútil, é um absurdo ter preconceito.
As pessoas são iguais em qualquer lugar do mundo. Pessoas são pessoas, o que difere são os defeitos.
Não há raça, gênero, orientação ou religião,
Que justifique uma discriminação.
Diante das diferenças, devemos aprender a conviver, a respeitar e a amar, sem nunca deixar de perceber, que a diversidade é um presente da vida, e que só assim, de fato, podemos ser livres.
Que o amor seja a força que nos une, que o respeito seja o que nos guie,
e que juntos possamos construir um mundo melhor, onde o preconceito não tenha vez nem lugar, nem sabor.
Porque no final das contas, somos todos iguais, seres humanos em busca da felicidade, e se há algo que nos faz melhores e mais especiais, é a capacidade de enxergar a beleza na diferença e na diversidade.
Morte do Artista
Quando morre um homem,
a vida segue no sangue,
à sombra das gerações,
na memória que existe,
na existência suprimida,
no eco da lembrança que persiste.
Quando morre um artista,
seu corpo é palavra,
acorde metafísico,
sua ausência,
presença indomável.
E no silêncio do século
sua alma repousa
até que outra mão desperte o imponderável.
Sua obra vira fogo,
matéria inextinguível,
atravessa o tempo,
se faz eternidade.
Clair de Lune
(Paul Verlaine)
Tua alma é um jardim escolhido
onde andam mascarados e bergamascos
tocando alaúdes e dançando,
meio tristes sob seus disfarces.
Cantando ao tom menor do amor vitorioso
e da vida em tom maior,
eles não parecem crer em sua própria felicidade,
e suas canções se misturam com o luar,
com o tranquilo luar triste e belo,
que faz sonhar os pássaros nas árvores
e chorar de êxtase os jatos d’água,
os grandes jatos d’água esguios entre as mármores.
Sou um renascentista
Talvez eu tenha nascido fora do tempo,
mas minha alma caminha pelas ruas de Paris.
Não as ruas apressadas do turismo,
mas aquelas onde a madrugada ainda cheira a vinho, tinta e papel.
Onde os músicos tocam como se o destino dependesse de um acorde
e os poetas bebem a lua em silêncio.
É ali que existo — entre o som e a palavra,
entre o piano e o abismo.
Sou um renascentista: músico, poeta, pianista.
Vivo entre o sagrado e o profano, entre o vinho e o verbo.
Cada nota que toco é um pedaço de mim tentando renascer,
cada verso, uma confissão que o tempo não conseguiu apagar.
Não bebo para esquecer, bebo para lembrar —
que a vida, como a arte, é feita de breves eternidades.
Quando sento ao piano, sinto Paris me ouvir.
Os fantasmas de Debussy e Ravel espiam por sobre meu ombro,
e o Sena, lá fora, parece repetir minhas notas nas águas.
O poeta em mim escreve o que o músico sente;
o músico traduz o que o poeta pressente.
É uma comunhão silenciosa entre o som e o pensamento —
a forma mais bela de loucura.
Ser renascentista é não aceitar a indiferença dos tempos modernos.
É crer que a beleza ainda pode salvar,
que o corpo é templo e o amor é arte.
É brindar com o vinho e com o caos,
com a esperança e o desespero,
porque tudo o que é humano é divino quando há música no coração.
Sou um renascentista.
Poeta, músico, homem que vive nas ruas de Paris —
onde o tempo se curva diante de um piano,
e o vinho se torna prece nas mãos de quem ainda acredita
que a vida é, acima de tudo, uma sinfonia inacabada.
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