Raphael Bragagnolle

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Já amei alguém
e por já ter amado
me privo de algo além.

Me privo
porque amar dói,
porque no infinito do momento
em que se ama
também se sabe
que algum dia
esse sentimento
te destrói.

Posso parecer dramático,
é característica evidente de um poeta,
mas antes exagerar no sentimento
do que ser complacente
com a inadequação completa.

Lembro
que medo é falta de fé,
e isso é um tanto quanto verdade,
já que no passado
tinha medo presente
e no futuro
me vi perdido
na mocidade.

Gostaria de ser mais ingênuo
como um dia já fui,
ah, que falta me faz
acreditar nas pessoas.

Mas pequei tanto contra elas
que lembro
que eu mesmo
me tornei o monstro
que emergiu da lagoa.

Tal qual um dia
meu passado
tente conversar
com meu futuro,
e espero tê-lo remediado,

pois a dor
de ter perdido meu amor
caminha
todo dia
ao meu lado.
Raphael Bragagnolle

Eu vi o tempo mudar,
e com sua inevitabilidade
passar.

Tudo se enfrenta,
se contorna
e se contenta,
mas o tempo
é amigo ou inimigo
pro silêncio
de quem não se atenta.

Eu vi meu passado
destruir toda minha imagem
perante o mundo,
não o mundo visto pelos outros,
mas aquilo
que é mais profundo.

Destruiu a mim
por minha incapacidade
de perceber
que o tempo passará
e eu continuarei
a sofrer.

Entendi, por fim,
que o tempo levaria
tudo que eu tinha
apego e amor:
minha família,
minha juventude,
e aquilo
que dava valor.

Gostaria de parecer
uma boa pessoa
e dizer
que minhas prioridades
eram as acima citadas,
mas entre as vielas do tempo
dei valor
apenas
em coisas erradas.

E com o tempo
não se negocia:
se aprende.
Ou mudo,
ou continuarei errando
no meu presente.

E tal regalo
não pode mais
ser desperdiçado,
porque afinal de contas
já perdi meu amor
e as chances
de ser amado.

O futuro eu olho
com fé,
apenas pelo aprendizado,
por ser uma pessoa
que errou muito
em seu passado.

Mas o tempo
também tem
suas peculiaridades:
entre idas e vindas
traz
novas oportunidades.

Aprendi
que o que tem valor
sempre esteve em mim,
embora procurei saciar
com o externo,
porém o tempo
me ensinou
a voltar
ao seio materno.

Hoje eu engatinho,
amanhã começo a andar,
logo, logo
nessa estrada da vida
começo
a aprender
a caminhar.

Antes tarde
do que nunca
é o que muitos dizem,
e com razão
eu concordo.

Com a minha vida
eu quase paguei
por esse acordo.

Hoje, acordado,
me vejo
infinitamente pleno,
porque passei
pelo vale do inferno
e hoje acordei
sereno.

Pronto
pra mais um dia presente
que Deus nos deu,
para que no futuro
não olhe pro passado
como hoje,
com dor,
como alguém
que sofreu.

Raphael Bragagnolle

Hoje me peguei inquieto,
a madrugada e seu silêncio eram o único som que se ouvia além de um coração repleto.
repleto de pesares e amargura
Pelos erros doravante cometidos,
erros que perante o céu fiz meu Deus tê-los assistido

antes tinha desculpas, hoje responsabilidade,
não sei se o fardo ameniza quando se confronta com a extrema verdade.

Somos o que somos e essa realidade é inevitavelmente fiel
Embora passamos muito tempo tentando ser o que não somos pra agradar o público no qual seu teto mesmo é feito de papel
quebrável assim como o meu

Pois atrás da tela da rede social ninguém é feliz o tempo todo,
mas pago pra ver uma foto da tristeza do despejo, da fome e da imperfeição do outro.

Quem me dera ouvir a voz humana disse um poeta,
eu só queria ouvir uma verdade,
pra fugir dessa busca constante de afirmação do ego e da vaidade

meu passado é meu carrasco e com ele devo me resolver,
o só por hoje virou um tema que apenas nele consigo viver,
o futuro entreguei a Deus, pois minha vontade é má vil e cruel

Mas tudo que vi de bom nesse mundo
foi quando fechei os olhos e rezei pro céu.

Não me recordo como é amar

Não me recordo como é amar,
A doce vertigem de se entregar,
Embriagado por algo tão puro,
Tão intenso… difícil de acalmar, tão duro.

O amor talvez nasça da paixão,
E paixões tive — confesso — um turbilhão.
Mas se meu peito não fosse tão raso,
Talvez durassem além do acaso.

Luta que a gente escolhe viver,
Pois amar é a razão de crescer.
É chama que molda o espírito aflito,
É fogo que purifica o infinito.

Mas ninguém fala da dor da saudade,
Quando o amor ainda arde em verdade.
Só comentam quando tudo esfria,
Quando resta silêncio onde havia poesia.

Entre todos os amores que o tempo levou,
Hoje entendo: só uma vez meu peito amou.
E foi justamente a ela, em meu erro profundo,
Que causei o maior mal deste mundo.

Hoje sofro, agonizo calado,
Carrego o peso de um amor passado.
Mas precisei deixá-la partir,
Pois amar também é saber abrir.

Sua felicidade era grande demais
Para caber nos meus braços frágeis e mortais.
Beleza que ofuscava o pôr do sol,
Aurora viva, meu farol.

Hoje ela segue, encontrou seu caminho,
E eu sigo em oração, sozinho.
Clamando aos céus, com fé e primaveras,
Que ela encontre o que não dei — em outras eras.

E se um dia o amor me visitar,
Que eu saiba, enfim, permanecer e cuidar.
Sem medo, sem fuga, sem dor,
Aprendendo que amar… também é ser melhor.

Linha Tênue

Escrevo esse poema
entre a dor e um dilema,
sabendo que muitos vão apontar
antes mesmo de tentar entender.

Pra nós…
já virou rotina sentir demais,
carregar um peso antigo
de quem, muitas vezes,
nem pediu pra nascer.

A vida… a morte…
quem é que diferencia?
Existe uma linha tão tênue
que meus passos caminham sobre ela
todos os dias,
sem garantia.

Já tive vontade de ir embora,
não por fraqueza,
mas por não achar lugar
onde eu pudesse caber.

Desajeitado, quebrado, perdido…
como só entende
quem já perdeu tudo
e ainda tenta sobreviver.

Mas a recuperação tem algo estranho,
quase um enigma que intriga:
a mesma dor que antes nos empurrava
pro fim,
hoje nos faz implorar
por mais um dia de vida.

E chega a ser irônico…
porque antes, sem perceber,
a gente se destruía aos poucos,
roubando os próprios dias
de uma contagem silenciosa,
de uma doença incurável,
progressiva
e fatal.

Hoje eu perdi um amigo.

Não foi para as garras
da adicção ativa,
e isso, de alguma forma, conforta…
mas não apaga a dor.

Porque perder…
ainda é perder.

E a vida, que antes parecia clara,
se mostra torta,
como um reflexo quebrado
de tudo que já fomos.

Mas no meio desse caos,
existe um porquê que insiste em ficar:

ele partiu limpo,
de cabeça erguida,
carregando uma vitória silenciosa
que o mundo nem sempre vê.

Meu amigo se foi…
sem saber que, no caminho,
salvou vidas.

Sem saber que foi luz
em meio à escuridão de muitos.

E talvez seja isso…
o que me mantém aqui:

entender que, mesmo na dor,
mesmo na perda,
mesmo na saudade que aperta…

eu ainda escolho viver
mais um dia.

Amor, por que vais embora?

Amor, por que vais embora?
Me pergunto todo dia, toda hora…
Se algo fez meu coração bater incansavelmente,
por que a dor da partida agora, tão presente?

Tenho pra mim que o amor é o motivo de vivermos,
mas de que vale a opinião de alguém que sofre?
Se não mantive o amor que eu quis,
minha verdade ainda é nobre?

Não me olhe com pesar, eu sei quem sou,
sou culpado pelo amor que se afastou.
Responsável pela dor que hoje carrego,
e pela dor que causei — disso não nego.

À mulher que meu peito ainda chora,
não a cativei como devia outrora.
Errei quando o certo era ficar,
falhei onde só precisava amar.

Pobre eu? Não… humano por errar,
mas consciente do que fiz desabar.
Responsável por ver o derradeiro amor partir,
sem forças, sem tempo de impedir.

Ela seguiu… encontrou outro amor,
e às seis da tarde eu rezo, com dor.
Que ele a faça feliz como eu não fui capaz,
que ele acerte onde eu errei demais.

Porque o amor tem dessas — ensina ao ferir,
e mesmo em lágrimas, me faz pedir:
que o homem que ela escolheu para amar,
nunca repita o que eu fiz ao falhar.

Raphael Bragagnolle

Ah, o Amargor

Ah, o amargor…
Saudade da doçura
de um sorriso sincero,
da felicidade que um dia foi pura.

Te quero — tanto —
que já não importa a idade,
nem o tempo que leve
pra reencontrar essa verdade.

Qual idade eu preciso alcançar
pra sentir tudo novamente?
Eu já senti o amor…
e hoje carrego o amargo presente.

Matei cedo demais
o que era vida em mim,
um amor tão inteiro
que não merecia ter fim.

Sou juiz e sou réu,
culpado, confesso — condenado,
crimes contra quem mais amo,
um coração que deixei marcado.

E pago, dia após dia,
com o gosto amargo da culpa,
com o peso do autoengano
que a alma nunca oculta.

Ah, o amargor nos meus lábios
toda vez que lembro de você,
de cada gesto, cada expressão…
e de tudo que deixei morrer.

Falei de sorriso — mas não me escondo:
não sou vítima dessa dor,
fui eu quem apagou o primeiro brilho
dos olhos do meu grande amor.

Ingênuo… não soube amar.
Hoje você segue, com outro alguém,
e eu só espero, em silêncio,
que nunca sinta o que eu sinto também.

Que não prove esse amargor,
essa saudade que não tem fim,
do seu “bom dia” perdido no tempo…
e de tudo que restou em mim.

Assinado:
Seu grande amor.

Raphael Bragagnolle

Coração Amargurado

Coração amargurado,
perdi meu grande amor.
E disso sou culpado,
carrego em mim essa dor.

Nos perfumes de uma flor
me pego a indagar:
será que a saudade e o sofrimento
nascem juntas pra caminhar?

Saudade é o gosto estranho
de algo que não está mais aqui.
E o sofrimento é a pergunta
do porquê não vivi
cada instante como único,
como se fosse o fim.

Hoje, as lembranças me queimam,
inflamam meu coração.
Mas o tempo — esse bombeiro ausente —
não apaga essa combustão.

As chamas sobem sem medida,
um fogo difícil de conter.
Pois o que mais me fere na vida
é não poder mais amar você.

Ah, se eu tivesse amado
cada manhã qualquer,
cada espreguiçada cansada…
talvez não sofresse por essa mulher.

Faz tempo que não sei da alegria,
meu sorriso já não é meu.
Hoje ele vive nos outros,
ecoando o que se perdeu.

E a culpa foi minha — eu sei —
por perder aquele olhar de amor.
Quando, embriagado por uma doença,
escolhi a ausência
em vez do seu fulgor.

Raphael Bragagnolle

Entre a Pressa e o Vazio

Vejo as pessoas indo e vindo,
cada uma com sua vida e sua história.
Tristes, felizes, chorando ou sorrindo,
tão perto da morte ou sedentos por glória.

Quando foi que essa corrida começou?
Não ouvi o barulho da largada…
talvez porque o que ainda me apetece os olhos
seja o retrato de uma vida já ultrapassada.

Onde não corríamos pra ser melhor que o outro,
nem pra mostrar quem tem mais ou melhor,
mas sim quem ia estar conosco na caminhada,
com olhos marejados de amor.

A companhia de uma vida parece tão longe,
que chega a ser uma viagem,
na qual o destino é incerto
e, na ótica de hoje, talvez uma miragem.

Enquanto o mundo busca comparação e status
pra, de alguma forma, se sentir vivo,
eu conto as coisas que vivo —
sozinho em um quarto, sozinho…
sonhando com um mundo mais compassivo.

Raphael Bragagagnolle

Peso do passado

Eu estou tão cansado,
o tempo é pesado demais.
e não sei mais
se suporto o peso do meu passado.

A minha alegria se foi
como um entardecer alaranjado,
e a tristeza se apossou de mim
como um hóspede indesejado.

Nada mais faz sentido:
carreira, sucesso, futuro…
se simplesmente perdi o que mais amava
por ser negligente e imaturo.

Quantas vidas eu daria
pra te ver de novo,
simplesmente te olhar,
já que nem sequer um adeus
e um “eu te amo”
meu peito pode clamar.

A dor é insuportável
e viver com isso me corrói,
mas a culpa de ser responsabilidade minha, é o que de fato me destrói.

Será que existe remédio pra culpa?
Acredito eu que, se existisse,
todos comprariam.

Não faço de mim um mártir,
porque nem para isso serviria.

Mas o tempo é um amigo leal,
é onde me prometem conforto.

Até lá, sigo cantando
e escrevendo frases
de uma cabeça que pensa,
embora de um coração morto

Raphael Bragagnolle

Vazio…

No dicionário
significa desprovido de conteúdo,
contudo faço um apelo ao leitor:
o meu vazio tem nome
e pode ser chamado de amor.

O vazio que reside em mim
não foi por mera coincidência,
aliás, saliento
que esse companheiro diário
é fruto da minha total incompetência.

Incompetência em ser humano.

Ora, precisamos ser honestos,
também fui rude, desleal
e com amor ausente de gestos.

Mas faço uma correção no meu texto,
se não vos importunar:
humano é aquele que vive, aprende e erra,
acerta
e com consciência
nos faz diferenciar.

Errei com quem mais amava,
fui ausência
quando apenas a minha presença
era necessária,
e agora o vazio
que eu deixei no peito
se instaura.

Chame de carma, retorno,
eu confesso que não ligo,
trago comigo dores e desilusões
que rezo
por não findarem comigo.

Se não findaram,
ao menos matou uma parte de mim,
que acreditava no amor
e que não era uma pessoa ruim.

O tempo a curou
e disso me alegro,
não gostaria de ser o algoz
daquela que obteve
meu único sentimento sincero.

Esse vazio caminhará ao meu lado,
já estou me acostumando
com sua estranha beleza,
ao ponto de acordar
e desejar:

“Bom dia, tristeza.”

Raphael Bragagnolle

Mensagem ao meu passado

Mandei uma mensagem pro meu passado, que há muito havia amado,
embora a despedida já acontecera há tempos, precisava dizer adeus pra me libertar por dentro.

Não foi fácil, confesso,
coração palpitou querendo apelar para o regresso, mas depois de ver como ela está feliz, entendi que a felicidade dela também é o meu progresso.

Enquanto a mim, sigo a vida como poeta, escrevendo sobre o que sinto,
sem saber descrever o que é sentir,
mas sentindo demais para descrever.

O amor genuíno deve ser algo imaginado,
porque eu o sinto,
mas não o consigo mais ver.

A renúncia me custou a companhia,
as horas de felicidade ao seu lado,
mas a poupou do sofrimento
de recomeçar ao lado de alguém quebrado.

Não financeiramente,
ou fisicamente,
mas pela vida
e seus fantasmas do passado.

Porque às vezes amar
também é partir.

E mesmo que a alma queira retorno,
há despedidas que não são sobre esquecer…
são sobre finalmente se libertar.