Kiko Arquer
Se eu vir...?
"Se eu ver" não existe,
minha língua perde o afeto.
Não vou deixar minha palavra triste,
então assumo em me sumir por completo.
A guerra é sempre
do anti-herói,
o ruim contra o ruim.
Nunca se deslembre
que tanto dói,
e torça só pelo seu fim.
Para acabar com o tráfico de drogas:
- Vá ao médico.
- Receba orientação e receita para uso recreativo.
- Vá na farmácia de drogas.
- Deixe a receita.
Cetemque é palavra de vocabulário degradativo.
Meio que um pronome-verbo-impositivo.
Quando usado, só tem a 1ª pessoa:
eu, eu, eu.
Mas é um EU diferente.
Um tipo de acusativo mal conjugado.
Eu cetemqueio não existe.
Nós cetemqueamos é um coach triste
Seu cetemqueado, dá até pra xingar.
O infinitivo, sem sentido, seria cetemquear...
mas não há.
Em 2ª pessoa fica redundante.
É obvio que o cetemque é só pra tu.
É obvio que o cetemque é só pra você!
E em 3ª pessoa? Ele, ela...?
Ah, nesse caso a mudança seria toda radical:
Eletemque toma forma fofocal
e hiperboliza o lexical.
Fui levar meu lixo na lixeira,
e no meio do caminho uma velhinha caminhava
com sacolinhas na mão, sacolinhas de lixo.
Então eu disse no capricho:
– Deixe que eu jogo fora para a senhora,
faço de bom coração.
Mas ela foi discreta:
– Não, não. Meu lixo está muito sujo, acho melhor não.
Insisti, educado, e disse:
– Senhora, seu lixo é mais limpo que o meu.
E ela, com tino, retrucou:
– Sim, sim. Mas na competição de lixos o limpo perdeu.
Em todos os casamentos que fui,
vejo um fantasiado levantar os braços
e bobeirar que sabe o mundo.
De jeito nenhum,
nunca me caberia casar assim,
com um tolo me culpando pelos próprios fracassos.
Nem por decreto,
nem a pau me calaria diante de um mascarado imundo
falando que minha mulher é inferior a mim.
Haja
viagem
que
viaja
em si,
essas eu viví.
Vi a parede enredar a aranha
Tirei sarro da sanha
na meça tamanha
de um papo meu que foi até de manhã
Pergunta o meu nome querendo dizer Pedro.
A data do meu aniversãrio pedindo presente.
Qual a minha opinião sobre patos, bigodes, bolsas e crentes?
A rachadura na parede ouve,
nitidamente, seu quack-quack, nãoseioquelá, deuses.
E Pedro pedreiro, muito penseiro
só matraqueando seu trem
que só vai
que só vai
que só vai
E eu aqui,
já desisti de me empolgar
esperando, esperando, esperando,
só vejo um bife desfocado a tagarelar
"O filtro medroso de um ser é o que o limita e delimita seu constante".
Imagine que Maria é uma pessoa mal casada com um homem bem peludo.
Bem mal casada. Bem peludo.
Maria odiará pelos em todas as circunstâncias.
Ela tentará falar de pelos em todas as conversas.
É assim que ela cospe, diariamente, o que a incomoda. Ela tenta tirar isso de si mesma a todo instante.
Ela fala pra tirar de si, ela fala para entender, ela fala para se sentir menos sozinha.
Maria se abastece de ódio toda noite com o maridão peludo, e Maria se esvazia durante o dia.
E ainda mais, como odiadora de pelos, ela será reconhecida por todas as pessoas ao redor dela.
Suas amigas Lulu, Elisa e Mônica também tem seus nojinhos por pelos.
Maria é a líder do ódio. A identidade de Maria se constrói e se consolida nisso.
"Maria, a odiadora de pelos !!!"
O maridão peludo pode até morrer, mas Maria não, Maria não abrirá mão.
Enfim, até mesmo se enfiarmos a 9ª Sinfonia de Beethoven numa conversa, Maria irá se segurar em seu medo e gritará que os pelos do peito de Ludwig são asquerosos.
Ludwig, o asqueroso !!!
