Carta a um Amigo Detento
Não mentir para si mesmo
que nutre a expectativa
cinematográfica de viver
um amor com dedicação,
é um excelente começo:
Confesso que exatamente
como você também desejo.
Ocupar a sua mente mais
do que dizem ser só aventura,
e sim ser toda a tua aventura,
a possuidora e garantidora
absoluta da tua plena ventura
em todos os tempos e estações.
Nos teus lábios jamais deixar
faltar a Serikaya que adoce,
quando a rotina não for doce,
Colocar o teu coração batendo
para dançar ritmos de folclore.
Sem pensar duas vezes jogar tudo
para o alto sempre for imperativo,
para que o fogo da paixão não falte,
e nada nem ninguém o amor devore.
Um refugiado não
escolhe para onde ir,
ele escolhe partir
porque na terra dele
não tem como seguir.
Se você não quer um
refugiado no seu país,
é um direito todo seu
que não vou discutir;
Tu só tens o dever
de não ferir quem não
teve o direito de escolher
da onde veio permanecer.
Se deseja fazer alguma
coisa por um refugiado,
Ajude para que tenha
condições de sobreviver,
ou até ficar, se ele escolher.
Ajudar a resgatar razões
para ao país de origem voltar,
E permanecer para de jeito
nenhum pensar em deixar.
Neorromantismo latino-americano contemporâneo
Enquanto todo mundo quer
ser um melhor do que outro,
Mantenho a vontade viva
de vestir-me de poesia
nua e crua em praça pública
mesmo que não seja vista,
Porque desejo tudo
na vida menos é ter razão.
Não compito com Gavita,
mas não há ninguém
que não saiba que quando
o assunto é poesia,
Sempre serei a eterna noiva
assumida de Cruz e Sousa.
Nem mais nem menos,
no meu corpo existência
ocupa a vastidão roseiral
do que segue espiritual,
que por ele ainda é ofertado,
O quê importa na ágora
é urgente e instantâneo.
É o Neorromantismo
latino-americano nascido
dos arvoredos altos
e olhos d'água caudalosos
neste tempo contemporâneo,
Para o amor que tem
encontrado o espaço
de cada dia mais apertado,
e quando não tem
sido o tempo todo calado
conseguir sobreviver,
e ser por nós reconquistado.
Celebro ter encontrado
o brilho sedutor e o charme
em um único possuidor,
que com fascínio provocador
tem levado a encontrar
sempre com o mais sedutor
ocultamente renovado
capaz de capaz de hipnotizar
os nossos sentidos
e de os pôr para dançar
doces, envolventes e místicos.
Com a cintilação dos olhos
cheios de puro de desejo
por enrodilhamento de peles,
Enquanto há tempestade lá fora,
nos entregamos às nossas
alegrias hoje consideradas
por uns clandestinas,
e com o silêncio provocador,
deixamos pessoas
assim falando sozinhas.
O presságio de cada êxtase
por dedos encantadores,
para absorver safras
com cada novo perfume
dos dias e das noites todas
imagéticas em nossas
silhuetas magnéticas
com beijos frutados,
poemas sendo tatuados
por labaredas de paixão
e pecados remidos por mistérios
e sentimentos envolvidos,
sem nenhum pudor de despir fantasias
para vestir uma por uma
com uma única pétala de Embiruçu.
Ele era uma figura misteriosa,
um mulato de beleza única,
com um corpo musculoso,
olhos verdes andando,
fala aveludada e respeitoso.
Com o seu cavalo bem cuidado,
ele um autêntico peão brasileiro,
o nome dele era Dario,
que mantinha o orgulho elevado
do ofício desempenhado,
e rezava com fervor inigualável
o Santo Rosário em dedicação
à Nossa Senhora de Aparecida.
Eu ainda bem menina dava
um trabalho danado
junto com as crianças da vizinhança,
a nossa infância era além
muito do pé no barro,
mas os cabelos também por nossa
própria obra era alcançado.
E assim pela estrada a gente fugia,
ele sempre muito paciente
depois de tudo o quê fazia,
e se fosse preciso párava tudo,
para acompanhar as Mães
em busca intrépida de cada
um por toda a estrada vazia.
Não tem como eu me
esquecer destas inúmeras
vezes quando na porta
de casa ele um por um trazia,
ou quando ele passava
sem montado com o seu Baio
e me via pela estrada,
e prontamente dizia:
- Já para casa, menina!
...
Nota da Poetisa sobre a palavra "mulato":
"O termo 'mulato' utilizado para descrever Dario neste poema é uma escolha deliberada e histórica, fiel à linguagem da época e da região das minhas memórias de infância. Naquele contexto, a palavra era o descritivo de sua ascendência mista e da sua beleza singular. Longe de qualquer intenção de depreciação, a figura de Dario é celebrada aqui em toda a sua dignidade e força. O uso é uma homenagem à sua pessoa, e não uma adesão ao peso pejorativo e racista que o termo carrega historicamente."
Mozão
Oh mozão, cheguei à conclusão
Já faz tempo que a gente fica
Quase um namoro, sei lá, a gente enrola
Eu sinto falta de você quando não está aqui
Sei lá, dá vontade de te amarrar
Colar em você e te prender a mim
Vontade de casar, ter filhos pra gente cuidar
Pra sempre namorar
Eu sei, tô viajando
Tô novo, mas o que custa sonhar?
Se o tempo não para de passar
E nunca vai parar
Num piscar de olhos, tá passando mais de um mês
A gente fica velho e o que a gente fez?
Não deixe o nosso plano acabar
Esteja aqui amanhã quando eu acordar
Momôzim, vamos fazer assim
Eu cuido de você, você cuida de mim
Não desisto de você e nem você de mim
Vamos até o fim
Momôzim, vamos fazer assim
Eu cuido de você, você cuida de mim
Não desisto de você e nem você de mim
Vamos até o fim, dá a mão pra mim
Minha Guerra
Demétrio Sena - Magé
Sempre quis um buraco, pra fugir
do buraco enterrado no meu peito;
desse jeito sem jeito de viver
a rugir num silêncio enlouquecido...
Quero tanto poder evaporar
nesses ventos de minha solidão,
por sentir e chorar as reticências
neste vão infinito que me suga...
Sinto mesmo que nunca fui daqui;
sou etê que nem é de reino algum,
ou Ogum sem cavalo nem espada...
Minha guerra comigo não tem fim;
há em mim tanto eu pra combater,
que não há previsão de cessar-fogo...
... ... ...
Respeite autorias. É lei
Hoje pode ser diferente… não porque tudo mudou,
mas porque você pode escolher um outro jeito de atravessar.
Sem tanta cobrança,
sem carregar tudo ao mesmo tempo,
sem tentar resolver o que ainda nem chegou.
Fica só com o que é de hoje.
O restante, você não precisa segurar agora.
Tem caminhos que se abrem enquanto a gente caminha.
Edna de Andrade
OUTRAS COISAS
QUERO CANTAR AO SEU OUVIDO, COISAS SUSSURADAS QUE TE FARÃO
SENTIR UM CERTO REGALO, PASSEANDO PELO CORPO.
SEGURAR TUA MÃO E DEIXAR QUE OS OLHOS CONTE-NOS COISAS PARTICULARES
QUE NA BOCA, A AUSÊNCIA DA CORAGEM NÃO PERMITE DIZER.
QUERO CONTAR-TE COISAS...
COISAS QUE TE FARÃO DESEJAR NA PELE A MINHA QUE É SUA,
DESENHADA BOCA, EM MARCAS DE BATON.
E MAIS FALAREI..
TE FAREI RIR, ESCULTURAR RUGAS EM TUA TESTA,
E DOS CIÚMES QUE TIVER, SERÃO DESFEITOS QUANDO,
A LÍNGUA MINHA, ENTRANHADA NO TEU CÉU, ROUBAR
TODOS OS PENSAMENTOS INGLÓRIOS.
QUERO CONTAR-LHE OUTRAS COISAS..
FALAR AO HOMEM QUE TOMA O VOLANTE EM NOSSO ACHEGO,
AO MENINO DE OLHAR QUENTE E MAROTO, A MULHER QUE ALVORA,
NO DISPARAR DO PEITO, DEPOIS DE SER O SEU PRÓPRIO ESPÍRITO EM CARNE.
CONTAREI ENTRE, OS MEANDROS DO TEU CORPO,
AONDE SE ENCONTRA A CRIANÇA ENGAVETADA,
QUE FOGE, PARA NO AMOR, NÃO CRER.
E CONTAREI ENTRE UMA PALAVRA E OUTRA,
QUE BASTA OLHAR-SE NOS OLHOS, SE QUISERES ME VER.
CONTAREI, CONTAREI, CONTAREI..
ATÉ QUE AS PALAVRAS, NÃO SOBREM.
POIS, QUEM PRECISA DE TANTAS,
SE TANTO SE REVELA NO VÔO QUE TE DEI.
Desejo ou paixão?
Amor ou um encanto passageiro?
Sabe, é um desses sentimentos
Que não conseguimos explicar!
Muitos falam que o verdadeiro amor acontece a primeira vista, na primeira troca de olhares ou no primeiro beijo
Será mesmo?
Eu discordo!
Pois, encontrei a mulher da minha vida através da tela fria de um celular
Sim, eu encantei-me com seu sorriso,eu me apaixonei
pelo jeito que ela
conseguiu me tocar
sem usar as suas mãos
Decepção
É quando a realidade te dá um tapa com a mão aberta depois de você jurar que era carinho.
É perceber que você não se enganou por ser burra… se enganou porque quis acreditar. E acreditar, às vezes, é o erro mais caro.
É quando alguém te prova, com ações bem claras, que você era opção… enquanto você tratava como prioridade.
E dói mais não pelo que a pessoa fez — mas pelo que você imaginou que ela nunca faria.
Decepção não quebra só o coração, não. Ela corrói a confiança, desmonta tua intuição e ainda deixa aquele gosto ridículo de “eu devia ter visto isso antes”.
E o pior?
Quase sempre você viu.
Só escolheu ignorar porque sentir era mais confortável do que encarar a verdade.
Tem um momento específico que é o mais sujo: quando você entende tudo.
Quando as peças se encaixam e você percebe que não foi azar… foi escolha mal feita.
A sua.
A da outra pessoa.
Um caos compartilhado.
Mas aqui vai a parte que ninguém gosta de engolir:
decepção é um tipo de lucidez. Violenta, sim. Mas limpa.
Ela arranca a fantasia, rasga expectativa, joga luz onde você queria manter sombra.
E por mais que doa, ela te devolve uma coisa que você tinha largado pelo caminho: critério.
Você fica mais fria? Fica.
Mais seletiva? Ainda bem.
Mais difícil de acessar? Óbvio. E talvez seja exatamente isso que te salva da próxima.
Porque no fim das contas, a decepção não te destrói.
Ela só destrói a versão de você que aceitava menos do que merecia.
E essa… sinceramente… já tava pedindo pra morrer faz tempo.
Livro: Textos que Doem e Acordam por Lucci Santz
Tropeçar é um luxo reservado somente aos que se atrevem a fazer o que todos os outros protelam, medindo esforços.
Há quem veja o tropeço como uma falha, como um desvio indesejado de uma trajetória idealizada, limpa, sem marcas.
Mas essa visão, embora confortável demais, ignora uma verdade muito incômoda: só tropeça quem está em movimento.
E movimento, por si só, já é uma ruptura com a inércia que domina tantos caminhos adiados.
Enquanto alguns calculam demais, esperando o cenário perfeito, o momento exato, a garantia de sucesso — outros simplesmente vão.
E ao ir, erram.
E, ao errar, aprendem.
O tropeço, nesse sentido, deixa de ser um acidente e passa a ser um rito silencioso de coragem.
Não é sobre cair, mas sobre ter saído do lugar onde cair sequer seria possível.
Medir esforços, muitas vezes, é apenas uma forma elegante de mascarar o medo.
O medo de falhar, de ser visto, de não corresponder às expectativas — próprias ou alheias.
E assim, na tentativa de evitar o tropeço, muitos acabam evitando também a experiência.
Permanecem intactos, sim, mas também intocados pela transformação que só o risco proporciona.
Tropeçar exige exposição.
Exige assumir que não se sabe tudo, que não se controla tudo, que o caminho se revela enquanto se caminha.
E isso, para muitos, é desconfortável demais.
Preferem a segurança do planejamento eterno à vulnerabilidade da ação imperfeita.
Mas há algo profundamente humano em perder o equilíbrio por um instante.
É nesse breve desalinho que nos reconhecemos vivos, tentantes e inacabados.
O tropeço não diminui — ele denuncia a tentativa.
E tentativa, no fim das contas, é o que separa quem vive de quem apenas ensaia viver.
Talvez o verdadeiro luxo não seja evitar a queda, mas poder se permitir caminhar sem a obsessão de nunca falhar.
Porque quem nunca tropeça, talvez nunca tenha ido longe o bastante para descobrir o próprio limite.
Culpar a vítima é o jeitinho mais covarde que um covarde encontra para passar pano para o outro.
Porque exige muito menos coragem apontar o dedo para quem já está ferido do que confrontar quem causou a ferida.
É uma inversão confortável: desloca o peso da responsabilidade, alivia consciências e preserva estruturas que jamais sobreviveriam se fossem encaradas com honestidade.
No fundo, culpar a vítima é também uma tentativa de manter a ilusão de controle.
É como se, ao dizer “ela provocou”, “ele procurou”, “poderia ter evitado”, criássemos uma falsa sensação de que o mundo é justo — e que, agindo “certo”, estaremos imunes.
Mas essa lógica não protege ninguém, apenas silencia quem mais precisa ser ouvido.
Há também um componente de cumplicidade disfarçada.
Quando alguém relativiza a dor alheia, não está apenas emitindo opinião — está, consciente ou não, ajudando a normalizar o comportamento de quem causou o dano.
E toda normalização é um terreno fértil para repetição.
Encarar a verdade exige desconforto.
Exige reconhecer que o erro está onde dói admitir, que a violência muitas vezes vem de onde se esperava proteção, e que o mundo não é tão equilibrado quanto gostaríamos.
Por isso, tantos preferem o atalho da covardia: culpar quem sofreu.
Mas nenhuma sociedade amadurece enquanto insiste em punir a vítima duas vezes — primeiro pelo que sofreu, depois pelo julgamento que recebe.
E talvez o verdadeiro teste de caráter não esteja em nunca errar, mas em escolher, diante do erro dos outros, não se tornar cúmplice dele.
Não há mau comportamento de um que possa ser tomado por indulgência poética para relativizar o do outro.
Ainda assim, é exatamente isso que fazemos, quase por instinto.
Criamos metáforas generosas para os erros de quem nos convém defender e reservamos o rigor nu e cru para os deslizes de quem já decidimos condenar.
Transformamos falhas morais em “contextos”, agressões em “reações”, incoerências em “complexidades humanas”.
E, assim, vamos esculpindo versões mais palatáveis daquilo que, em sua essência, permanece inalterado.
O problema não está apenas no erro em si, mas na régua elástica que utilizamos para medi-lo.
Quando a ética deixa de ser princípio e passa a ser instrumento, ela já não orienta — apenas justifica.
E uma ética que serve para justificar tudo, no fundo, não sustenta nada.
Há um conforto quase sedutor em relativizar.
Ele nos poupa do desconforto de admitir que, às vezes, estamos do lado errado — ou, pior ainda, que não existe um “lado certo” tão nítido quanto gostaríamos.
Mas essa indulgência seletiva cobra um preço alto: ela corrói a coerência e, aos poucos, dissolve a credibilidade de qualquer discurso moral.
Se o erro de um é sempre suavizado pela indulgência poética, enquanto o do outro é amplificado pela indignação seletiva, o que resta não é justiça — é conveniência.
E a conveniência, quando travestida de consciência, se torna uma das formas mais silenciosas de desonestidade.
Talvez o verdadeiro exercício de maturidade não esteja em apontar culpados, mas em sustentar critérios.
Em reconhecer que o desconforto da coerência é, muitas vezes, mais honesto do que o alívio da parcialidade.
Porque, no fim, não é o erro do outro que nos define — é a forma como escolhemos interpretá-lo.
Talvez o simples fato de alguém abrir um debate, já militando, já negue a honesta vontade em debater qualquer pauta.
Há uma diferença sutil — e ao mesmo tempo bastante abissal — entre quem entra em uma conversa para compreender e quem entra apenas para vencer.
O primeiro escuta com desconforto, com a humildade intelectual de quem admite não saber tudo; o segundo fala com a urgência de quem já decidiu tudo, antes mesmo da primeira palavra alheia ser dita.
Quando o debate já nasce contaminado pela certeza inabalável, ele deixa de ser encontro e se torna encenação.
Argumentos passam a ser munição, não pontes.
Perguntas deixam de buscar respostas e passam a servir como armadilhas retóricas.
E, nesse cenário, o outro não é mais alguém a ser compreendido, mas alguém a ser derrotado — ou, no mínimo, deslegitimado, demonizado e até desumanizado.
Militar, no sentido mais rígido, é carregar uma causa com convicção.
Mas quando essa convicção ocupa todo o espaço da escuta, ela se torna um filtro que distorce qualquer possibilidade de diálogo real.
Tudo o que não confirma crenças pré-existentes é descartado, reinterpretado ou combatido.
E assim, paradoxalmente, quanto mais se fala em debate, menos ele de fato acontece.
O problema não está em ter posicionamento — isso é inevitável e até necessário.
O problema surge quando o posicionamento antecede a disposição de ouvir, quando a conclusão vem antes da reflexão, quando o compromisso é mais com a própria identidade do que com a verdade.
Talvez o verdadeiro debate comece apenas quando há risco.
Risco de rever ideias, de ajustar certezas, de reconhecer pontos no outro.
Sem esse risco, resta apenas o conforto das próprias convicções — e o eco previsível de quem nunca esteve, de fato, disposto a dialogar.
Só os honestamente Cheios de Dúvidas encontram força e paciência para habitar um mundo tão abarrotado de Cheios de Certezas.
Porque duvidar, ao contrário do que muitos pensam, não é fraqueza — é coragem em estado bruto.
É admitir que o mundo é vasto demais para caber inteiro dentro de uma única convicção.
É reconhecer que a realidade não se dobra à pressa das nossas conclusões, nem à vaidade das nossas certezas fabricadas.
Os Cheios de Certezas caminham rápido…
Pisam firme, opinam sobre tudo e quase sempre acham que precisam subir o tom.
Mas, quase sempre, também carregam um peso invisível: o medo de estarem errados.
Por isso não param, não escutam, não revisitam.
A certeza, quando não examinada, vira abrigo confortável — e também prisão silenciosa.
Já os Cheios de Dúvidas seguem de outro jeito.
Observam mais do que afirmam.
Perguntam mais do que respondem.
E, ainda que pareçam morosos, avançam com mais profundidade.
Porque cada passo deles é sustentado por reflexão, não por impulso.
Habitar um mundo dominado por certezas exige, desses muito poucos, uma paciência quase teimosa.
É preciso suportar o ruído das opiniões apressadas, a arrogância dos veredictos fáceis e a solidão de quem não aceita simplificações.
Mas é justamente essa inquietação que os mantém vivos — intelectualmente e, quiçá, moralmente.
No fundo, são eles que ainda sustentam a possibilidade de diálogo, de evolução e de verdade.
Porque onde não há dúvida, não há espaço para aprender — apenas para repetir.
E talvez seja esse o paradoxo mais incômodo: em um mundo cheio de respostas fáceis, são justamente aqueles que ainda se atrevem a perguntar que o mantêm em verdadeiro movimento.
Sempre que mulheres feminilizam pejorativamente um homem, mais monstruoso o machismo se torna, e elas nem percebem.
Há, nessa contradição silenciosa, uma das faces mais complexas e difíceis de enfrentar dentro das estruturas sociais: o machismo não é apenas um comportamento externo, imposto de maneira evidente por figuras tradicionalmente associadas ao poder, mas também um padrão internalizado, reproduzido muitas vezes — consciente ou inconscientemente — por aqueles que, em teoria, deveriam combatê-lo.
Quando características associadas ao feminino são utilizadas como insulto — seja para diminuir, ridicularizar ou desqualificar um homem — o que está sendo reafirmado, no fundo, é a velha hierarquia que coloca o feminino como inferior.
Não se trata apenas de um ataque ao homem em questão, mas de uma reafirmação simbólica de que tudo aquilo que se aproxima do feminino é digno de desprezo.
E, nesse gesto aparentemente banal, perpetua-se a lógica que o próprio feminismo busca desconstruir.
O mais inquietante é que esse tipo de comportamento muito raramente é percebido como problemático.
Ele se esconde no cotidiano, nas piadas, nas expressões corriqueiras, nos comentários feitos sem reflexão.
E justamente por isso se torna tão poderoso: porque não encontra resistência.
Ao contrário, encontra eco, risos, validação — e assim se fortalece.
Combater o machismo, portanto, exige mais do que identificar seus agentes mais evidentes.
Exige um exercício constante de autocrítica, de revisão de linguagem, de questionamento de hábitos profundamente enraizados.
Exige reconhecer que ninguém está completamente fora dessa estrutura, e que todos, em maior ou menor grau, podem reproduzi-la.
Não se trata de apontar culpados, mas de ampliar a consciência.
De entender que a transformação social passa, inevitavelmente, pela transformação individual.
E que desconstruir o machismo estrutural não é apenas enfrentar o outro — é também confrontar a si mesmo, nas pequenas atitudes, nas palavras escolhidas, nas ideias que repetimos sem perceber.
Porque, no fim, o machismo não se sustenta apenas pela força de quem o impõe, mas também pela repetição de quem, mesmo sem intenção, continua a alimentá-lo.
A pressa em escolher um lado é tão grande que a maioria já consegue arrotar opinião sobre conteúdo que nem sequer consumiu.
Vivemos um tempo em que reagir vale mais do que compreender.
A velocidade com que julgamentos são formados supera, com folga, o tempo necessário para escutar, refletir ou até mesmo duvidar.
Opinar virou quase um reflexo involuntário — não porque temos algo sólido a dizer, mas porque o silêncio passou a ser confundido com ausência de posicionamento, e isso, para muitos, parece inaceitável.
O problema não está em ter opiniões, mas na superficialidade com que elas nascem.
Quando não há contato real com o conteúdo, o que se expressa não é pensamento, é apenas eco.
Eco de manchetes, de recortes, de narrativas prontas que dispensam esforço e recompensam a pressa.
E assim, pouco a pouco, vamos terceirizando a própria capacidade de pensar.
Há uma falsa sensação de pertencimento em escolher rapidamente um lado.
Como se isso garantisse identidade, como se fosse suficiente para nos situar no mundo.
Mas o preço disso é alto demais: abrimos mão da complexidade, ignoramos nuances e transformamos qualquer assunto em uma disputa rasa, onde o objetivo não é entender, mas vencer.
Talvez o verdadeiro ato de coragem, hoje, seja justamente o contrário.
Seja admitir que ainda não sabemos o suficiente.
Seja escutar antes de falar, consumir antes de julgar, refletir antes de reagir.
Porque pensar dá trabalho — e, em tempos de imediatismo, tudo que exige tempo parece quase um ato de resistência.
No fim, não é sobre escolher um lado rápido demais.
É sobre não se perder de si mesmo no processo.
Só há um jeito dos políticos-influencers manterem os aluguéis das cabeças dos seus asseclas em dia: criando conteúdos ruidosos.
Não se trata de informar, mas de ocupar espaço — preencher cada fresta de silêncio com indignação fabricada, cada intervalo de dúvida com certezas prontas para consumo.
O barulho não é um efeito colateral; é o próprio produto.
Nesse mercado de atenção, a lucidez é muito pouco rentável.
O que engaja é o exagero, o recorte enviesado, a simplificação que transforma complexidade em torcida organizada.
Quanto mais estridente o discurso, menos espaço sobra para reflexão — e é justamente nesse esvaziamento que o controle se fortalece.
Na Economia da Atenção, quem grita não precisa explicar; quem repete, não precisa pensar.
Há também um pacto implícito: o seguidor recebe pertencimento e direção, enquanto entrega autonomia e senso crítico.
É um aluguel confortável, quase imperceptível, pago em parcelas de compartilhamentos, curtidas e indignações automáticas.
E, como todo contrato mal lido, cobra seu preço quando já é tarde demais.
Romper esse ciclo exige algo raro: disposição para o desconforto do silêncio, para a pausa antes da reação, para o exame das próprias convicções.
Porque, no fim, o antídoto para o ruído não é um contra-ruído mais alto — é a coragem de pensar sem trilha sonora.
Governo algum jamais agradou todo um povo, mas depois que a política-influencer temperou a polarização com a paixão, o mundo se cansou da própria complexidade.
Talvez porque a complexidade exija esforço — e esforço não viraliza.
Pensar com nuance, reconhecer contradições, sustentar dúvidas: tudo isso demanda um tipo de paciência que já não cabe mais nos intervalos acelerados de um feed.
Em vez disso, optamos por versões simplificadas da realidade, onde tudo se resolve em lados, rótulos e certezas prontas para consumo.
Tudo ou quase tudo que é do outro lado é reprovável.
A opinião contrária, que antes poderia ser um convite ao amadurecimento, passou a ser vista como afronta pessoal.
Não se debatem mais ideias, defende-se identidades.
E quando a identidade entra em cena, qualquer discordância soa como ataque — não ao argumento, mas à própria existência.
É assim que o diálogo se esvazia e dá lugar ao ruído.
A política, que já foi espaço de construção imperfeita, tornou-se espetáculo de convicções absolutas.
Não há mais espaço para o “talvez”, para o “depende”, para o “vamos ver”.
A dúvida virou fraqueza, e a certeza, mesmo quando rasa, virou virtude.
O resultado é um ambiente onde pensar virou um ato de resistência silenciosa.
No fundo, o cansaço do mundo não é da complexidade em si, mas da responsabilidade que ela nos cobra.
É mais confortável habitar narrativas prontas do que encarar a inquietação de não saber completamente.
Mas é justamente nessa inquietação que mora a possibilidade de evolução — individual e coletiva.
Talvez o verdadeiro gesto revolucionário dos nossos tempos não seja gritar mais alto, nem vencer debates, mas reaprender a escutar sem a urgência de refutar.
Porque, no fim das contas, a convivência não depende de unanimidade — depende de maturidade para lidar com o desacordo inevitável.
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