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NĂłs sĂł amamos os amigos mortos
E sĂł as amadas mortas amam eternamente...
Eu quero a verdade que só me é dada através do seu oposto, de sua inverdade. E não aguento o cotidiano. Deve ser por isso que escrevo.
Se vivo sĂł
à marcha-a-ré
Se nego o sol
SĂł penso em mi
Se sofro lĂĄ
Ninguém tem dó
Se vocĂȘ fĂĄ
Eu quero si
Queria poder ser um livro, para que quando acontecesse alguma coisa ruim era sĂł arrancar a pĂĄgina.
E que vocĂȘ sinta vontade de precisar de mim. Mas nĂŁo sĂł quando houver necessidade, que vocĂȘ sinta isso mesmo tendo passado um dia inteiro comigo, que nĂŁo veja e nem sinta as horas passando quando estiver ao meu lado, e que nunca seja o suficiente o tempo que passarmos juntos, que vocĂȘ sempre sinta vontade de mais, mais e mais.
Só quero ficar quieta, no meu canto, pensando na minha vida. Sem ninguém pra me julgar. Quero ficar comigo, um momento, em paz. Quero pensar. Quero ser eu, por alguns segundos.
A insistĂȘncia Ă© o nosso esforço, a desistĂȘncia Ă© o prĂȘmio. A este sĂł se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistĂȘncia. A desistĂȘncia tem que ser uma escolha. Desistir Ă© a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir Ă© o verdadeiro instante humano. E sĂł esta, Ă© a glĂłria prĂłpria de minha condição. A desistĂȘncia Ă© uma revelação.
SĂł mais uma coisa. NĂŁo te preocupes tanto com o que acham de ti. Quem geralmente acha nĂŁo achou nem sabe ver a beleza dos avessos que nem sempre tu revelas.
SĂł para ele eu me desmontei inteira porque confiei que ele me amaria mesmo eu sendo desfigurada, intensa e verdadeira, como um quadro do Picasso.
Carta para além do muro
Olha, estou escrevendo sĂł pra dizer que se vocĂȘ tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem sempre que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo meu processo mental (processo mental: Ă© exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que Ă© preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu nĂŁo queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles nĂŁo me deixam, vocĂȘ nĂŁo me deixa. Hoje eu achei que ia conseguir, que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi vocĂȘ, nĂŁo me lembro quando, nĂŁo lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parece que empurram a gente mais para dentro da gente mesmo, entĂŁo as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito atĂ©. Hoje eu diria qualquer coisa se vocĂȘ telefonasse. Por dentro tambĂ©m eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu nĂŁo agĂŒento mais ficar esperando toda hora vocĂȘ telefonar ou aparecer, e quando vocĂȘ telefona ou aparece com aquelas maças eu preciso me cuidar para nĂŁo assustar vocĂȘ e quando vocĂȘ pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que vocĂȘ me traz e cuido meus olhos para nĂŁo me trairem e nĂŁo te assustarem e nĂŁo ficarem querendo entrar demais no de dentro dos teus olhos, entĂŁo eu cuido devagar tudo que digo e todo movimento, porque eu quero que vocĂȘ venha outras vezes e eles dizem que se eu me mostrar como realmente sou vocĂȘ vai ficar apavorado e nunca mais vai aparecer nem telefonar â eu nĂŁo agĂŒento mais nĂŁo me mostrar como sou. Hoje de manhĂŁ acordei bem cedo, e depois de conversar com eles consegui permissĂŁo para caminhar sozinho no jardim, eu disfarcei muito conversando com eles porque queria muito caminhar sozinho no jardim. Ăquela hora ainda nĂŁo estava chovendo, ou estava, nĂŁo me lembro, ou havia chovido ontem Ă noite, nĂŁo, acho que nĂŁo estava chovendo nĂŁo, porque eu lembro que as folhas estavam limpas e molhadas e a terra tinha um cheiro de terra molhada: eu comecei a lembrar, lembrar, lembrar e o meu pensamento parecia um parafuso sem fim, afundando na memĂłria, eu nĂŁo suportava mais lembrar de tudo o que se perdeu, tudo o que perdi, nĂŁo fui e nĂŁo fiz, mas nĂŁo conseguia parar. EntĂŁo comecei a gritar no meio do jardim molhado com as duas mĂŁos segurando a cabeça para que nĂŁo estourasse. AĂ eles vieram e disseram que nĂŁo tinha jeito e que estavam arrependidos de terem me deixado sair sozinho e que aquela era a Ășltima vez e que eu disfarçava muito bem mas nĂŁo conseguiria mais enganĂĄ-los. Eu disse que nĂŁo tinha culpa do meu pensamento disparar daquele jeito, mas acho que eles nĂŁo acreditaram, eles nĂŁo acreditam que eu nĂŁo consigo controlar pensamento. EntĂŁo me deram uma daquelas injeçÔes e eu afundei num sono pesado e sem saĂda como este espaço dentro desses quatro muros brancos. Foi depois que acordei, nĂŁo sei se hoje ou amanhĂŁ ou ontem, eu te escrevo dizendo hoje sĂł para tornar as coisas mais fĂĄceis, foi depois que acordei que perguntei se vocĂȘ nĂŁo tinha vindo nem telefonado, e eles disseram que vocĂȘ nĂŁo viera nem telefonara. Ă provĂĄvel que estivessem mentindo, eles dizem que eu preciso aceitar mais a realidade das coisas, a dureza das coisas, e Ă s vezes penso que tornam de propĂłsito as coisas mais duras do que realmente sĂŁo, sĂł pra ver se eu reajo, se eu enfrento. Mas nĂŁo reajo nem enfrento. A cada dia viver me esmaga com mais força. NĂŁo sei se eles escondem de mim a sua visita, se nĂŁo me chamam quando vocĂȘ telefona, se dizem que jĂĄ fui embora, que jĂĄ estou curado, nĂŁo sei se vocĂȘ nĂŁo vem mesmo e nĂŁo telefona mais, nĂŁo sei nada de ninguĂ©m que viva atrĂĄs daqueles muros brancos, vocĂȘ era a Ășnica pessoa lĂĄ de fora que entrava aqui dentro de vez em quando. Ă verdade que eles todos moram lĂĄ fora, mas Ă© diferente, eles vivem tanto aqui dentro que nĂŁo consigo acreditar que sejam iguais aos lĂĄ de fora, como vocĂȘ. VocĂȘ, sim, era completamente lĂĄ de fora. Digo era porque faz muito tempo que vocĂȘ nĂŁo vem, sei do tempo que vocĂȘ nĂŁo vem porque guardei no meio das minhas roupas um pedaço daquela maçã que vocĂȘ me trouxe da Ășltima vez, e aquele pedaço escureceu, ficou com cheiro ruim, encheu de bichos, atĂ© que eles me obrigaram a jogar fora. Acho que os pedaços da maçã sĂł se enchem de bichos depois de muito tempo, nĂŁo sei. Parei um pouco de escrever, roĂ as unhas, preciso roer as unhas porque eles nĂŁo me deixam fumar, reli o começo da carta, mas nĂŁo consegui entender direito o que eu pretendia dizer, sei que pretendia dizer alguma coisa muito especial a vocĂȘ, alguma coisa que faria vocĂȘ largar tudo e vir correndo me ver ou telefonar e, se fosse preciso, trazer a polĂcia aqui para obrigĂĄ-los a deixarem vocĂȘ me ver. Eu sei que vocĂȘ quer me ver. Eu sei que vocĂȘ fica os dias inteiros caminhando atrĂĄs daqueles muros brancos esperando eu aparecer. Eles nĂŁo deixam, acho que vocĂȘ sabe que eles nĂŁo deixam. NĂŁo vĂŁo deixar nem esta carta chegar Ă s suas mĂŁos, ou vĂŁo escrever outra dizendo que eu nĂŁo gosto de vocĂȘ, que eu nĂŁo preciso de vocĂȘ. Mas Ă© mentira, vocĂȘ tem que sabtr que Ă© mentira, acho que era isso que eu queria dizer preciso escrever depressa antes que eu me esqueça do que eu queria dizer era isso eu preciso muito muito de vocĂȘ eu quero muito muito vocĂȘ aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando vocĂȘ nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor vocĂȘ nĂŁo precisa trazer nada sĂł vocĂȘ mesmo vocĂȘ nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silĂȘncio juro como nĂŁo peço mais que o seu silĂȘncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro ou do outro lado.
Parei um pouco de escrever para olhar pela janela e principalmente para ver se eu conseguia deter o parafuso entrando no pensamento. Acho que consegui. Porque quando começo assim nĂŁo consigo mais parar, e nĂŁo quero que eles me dĂȘem aquela injeção, nĂŁo quero ouvir eles dizendo que nĂŁo tem remĂ©dio, que eu nĂŁo tenho cura, que vocĂȘ nĂŁo existe. Eu acho graça e penso em como vocĂȘ tambĂ©m acharia graça se soubesse como eles repetem que vocĂȘ nĂŁo existe. Depois eu paro de achar graça e fico olhando a porta por onde nĂŁo entra o telefone por onde vocĂȘ nĂŁo fala e me lembro do pedaço apodrecido daquela maçã e entĂŁo penso que talvez eles tenham razĂŁo, que talvez vocĂȘ nĂŁo venha mais, e com dificuldade consigo atĂ© pensar que talvez vocĂȘ nĂŁo exista mesmo. Mas nĂŁo Ă© possĂvel, eu sei que nĂŁo Ă© possĂvel: se estou escrevendo para vocĂȘ Ă© porque vocĂȘ existe. Tenho certeza que vocĂȘ existe porque escrevo para vocĂȘ, mesmo que o telefone nĂŁo toque nunca mais, mesmo que a porta nĂŁo abra, mesmo que nunca mais vocĂȘ me traga maçãs e sem as suas maçãs eu me perca no tempo, mesmo que eu me perca. Vou terminar por aqui, sĂł queria pedir uma coisa, acho que nĂŁo Ă© difĂcil, Ă© sĂł isso, uma coisa bem simples: quando vocĂȘ voltar outra vez veja se vocĂȘ me traz uma maçã bem verde, a mais verde que vocĂȘ encontrar, uma maçã que leve tanto tempo para apodrecer que quando vocĂȘ voltar outra vez ela ainda nem tenha amadurecido direito.
Os homens sĂł me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam.
VocĂȘ quer brincar de amor
Eu quero sĂł te amar
VocĂȘ quis por um momento
E eu sempre quis ficar
Mas em nossas diferenças
Nada Ă© mais igual
Do que nĂłs dois
Da certeza desse amor
Eu nunca duvidei
Porque tudo era bonito
Eu eu me acostumei
Ăs palavras de amor que eu nunca
Acreditei mas aceitei...
Ah! VocĂȘ tem coisas tĂŁo difĂceis de entender
Um jeito ausente tĂŁo presente no olhar
Como quem ama e sente medo de gostar
Ah! Eu nĂŁo entendo esta paixĂŁo
Que eu vivo com vocĂȘ
Que esquece o tempo e deixa a cama por fazer
E esse ciĂșme que eu nĂŁo queria ter
Ah! VocĂȘ tem coisas tĂŁo...
Casa Velha em RuĂnas
Da distĂąncia que estĂĄvamos, sĂł era possĂvel distinguir entre o verde pedaços soltos de telhas jĂĄ amarelas que pareciam flutuar sobre a vegetação que cercara a casa.
Com dificuldade tentamos nos aproximar mais alguns metros, mas as plantas daninhas que ali moravam pareciam ter vida prĂłpria e uma vontade de aprisionar com seus galhos e folhas tudo que se aproximasse delas.
Tentamos a foice. E a luta foi lenta e ĂĄrdua, o verde resistindo aos golpes que cortavem sua vida, mas conseguimos.
NĂŁo havia mais porta: apenas uma placa de madeira inclinada na parede onde estava telhado o nome daquele engenho. Quase nĂŁo havia parede, sĂł tijolos que ainda sobreviviam mas que, como o resto, cedo virariam pĂł.
A escuridĂŁo nos impedia de continuar. Tivemos de quebar as telhas que ainda estavam penduradas no alto, para que fosse possĂvel a entrada da luz do sol que nĂŁo brilharia por mais tempo.
No chão de madeira as ervas jå começavam a surgir. Não havia móveis ou qualquer objeto que indicasse que havido gente morando naquela casa no passado.
Nem animais. SĂł o verde, intruso e vitorioso.
Em um dos quartos encontramos livros jogados no chão, uma cadeira, uma mesa e um copo de vidro quebrado. E também um retrato torto, pendurado na parede torta, cheirando a mofo e a pó, a unica indicação do passado naquela casa.
O resto era ruĂnas que, por contradição, nĂŁo lembravam o passado e sim a decadĂȘncia atual.
Começou a escurecer e tivemos de voltar.
E o verde, silencioso, seguiu em sua marcha lenta, para cima e para os lados, até fazer o velho engenho morto submergir de vez.
Agimos certo sem querer
Foi sĂł o tempo que errou
Vai ser difĂcil sem vocĂȘ
Porque vocĂȘ estĂĄ comigo o tempo todo.
