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Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa, sĂł pra conhecer gente estranha. Agora as pessoas voltaram a me irritar. Eu voltei a ter que fazer muita força pra sair de casa. Agora, eu fico pelos cantos das festas. Voltei a achar todo mundo feio e bobo e sem nada a dizer. Eu sofro sendo assim, eu sofro porque, quando vocĂȘ acha mais da metade do mundo babaca, vocĂȘ passa muito tempo sozinho.
Tu nĂŁo tens poder sobre o tempo que vive, nem sobre a hora de tua morte. Tu sĂł tens poder sobre o que tu podes viver exatamente agora.
No meu trabalho, como escritor, eu sĂł fotografo, em palavras, o que vejo. [âŠ] Meus dias, meus anos, minha vida viu altos e baixos, luzes e trevas. Se eu escrevesse sĂł e continuamente da âluzâ e nunca mencionasse o outro, entĂŁo como artista eu seria um mentiroso.
Como no palco o ator que Ă© imperfeito
Faz mal o seu papel sĂł por temor,
Ou quem, por ter repleto de Ăłdio o peito
VĂȘ o coração quebrar-se num tremor,
Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixĂŁo;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela prĂłpria dimensĂŁo.
Seja meu livro entĂŁo minha eloqĂŒĂȘncia,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa
Mais que a lĂngua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos Ă© do amor o fado.
Eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade.
E aà eu só olhei pra bem longe, muito além daquele Sol, e todo o meu passado se pÎs junto com ele. E eu senti a alma clarear enquanto o dia escurecia.
A paixão quer sangue e coraçÔes arruinados
E saudade Ă© sĂł mĂĄgoa por ter sido feito tanto estrago
E essa escravidĂŁo e essa dor nĂŁo quero mais
Quando acreditei que tudo era um fato consumado
Veio a foice e jogou-te longe
Longe do meu lado
Adiamento
Depois de amanhĂŁ, sim, sĂł depois de amanhĂŁ...
Levarei amanhĂŁ a pensar em depois de amanhĂŁ,
E assim serĂĄ possĂvel; mas hoje nĂŁo...
NĂŁo, hoje nada; hoje nĂŁo posso.
A persistĂȘncia confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
SĂł depois de amanhĂŁ...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhĂŁ no dia seguinte...
Ele Ă© que Ă© decisivo.
Tenho jå o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
AmanhĂŁ Ă© o dia dos planos.
AmanhĂŁ sentar-me-ei Ă secretĂĄria para conquistar o mundo;
Mas sĂł conquistarei o mundo depois de amanhĂŁ...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
NĂŁo, nĂŁo queiram saber mais nada, Ă© segredo, nĂŁo digo.
SĂł depois de amanhĂŁ...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje sĂł me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infĂąncia...
Depois de amanhĂŁ serei outro,
A minha vida triunfar-se-ĂĄ,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prĂĄtico
SerĂŁo convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhĂŁ...
Hoje quero dormir, redigirei amanhĂŁ...
Por hoje, qual Ă© o espetĂĄculo que me repetiria a infĂąncia?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhĂŁ,
Que depois de amanhĂŁ Ă© que estĂĄ bem o espetĂĄculo...
Antes, nĂŁo...
Depois de amanhĂŁ terei a pose pĂșblica que amanhĂŁ estudarei. Depois de amanhĂŁ serei finalmente o que hoje nĂŁo posso nunca ser.
SĂł depois de amanhĂŁ...
Tenho sono como o frio de um cĂŁo vadio.
Tenho muito sono.
AmanhĂŁ te direi as palavras, ou depois de amanhĂŁ...
Sim, talvez sĂł depois de amanhĂŁ...
O porvir...
Sim, o porvir...
Nota: Poema escrito pelo heterĂŽnimo Ălvaro de Campos
Obrigado por ter me oferecido doces e ter sentado ao meu lado quando eu estava sĂł
Obrigado por ter me ajudado a carregar as malas,
por ter aberto a porta, por ser sempre tĂŁo gentil.
Obrigado por ter me cuidado com os olhos enquanto eu partia
Obrigado por sempre me receber com um sorriso quando eu chego!
SĂł que nĂŁo sei usar amor: Ă s vezes parecem farpas.
Pra Rua Me Levar
NĂŁo vou viver
Como alguém que só espera um novo amor
HĂĄ outras coisas no caminho onde eu vou
Ăs vezes ando sĂł trocando passos com a solidĂŁo
Momentos que sĂŁo meus e que nĂŁo abro mĂŁo
JĂĄ sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silĂȘncio que hĂĄ em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora
Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar vocĂȘ
Ă, mas tenho ainda muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e que ainda nĂŁo cumpri
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar
Coisas minhas talvez vocĂȘ nem queira ouvir
Pro inferno com os coraçÔes. VocĂȘ tambĂ©m sabe que nĂŁo servem pra nada. E as coisas sĂł começam pra terminar e as pessoas sĂł nĂŁo querem sair feridas. E boa sorte pros que ainda tentam, vejo vocĂȘs no fundo do poço. E no fim, seus amores sĂł os chamarĂŁo de passado e experiĂȘncias infrutĂferas.
Uma vontade de chegar perto, de só chegar perto, te olhar sem dizer nada, talvez recitar livros, quem sabe só olhar estrelas⊠dizer que te considero. E muito.
Talvez bastasse qualquer coisa, como chegar muito perto de vocĂȘ, passar a mĂŁo no teu cabelo e te chamar de amigo. Ou sorrir, sĂł sorrir...
