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Quando estou só reconheço

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que sĂŁo
Como eu sĂłs, salvo que estĂŁo
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente sĂł,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida.

Somos todos escritores, sĂł que alguns escrevem e outros nĂŁo.

Oi, vocĂȘ vem sempre aqui? NĂŁo, sĂł quando eu tĂŽ desesperada.

Todos nĂłs vamos morrer, que circo! SĂł isso deveria fazer com que amĂĄssemos uns aos outros, mas nĂŁo faz. Somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada.

Charles Bukowski
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 2003.

Ali

ali
sĂł
ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e nĂŁo disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e nĂŁo desce

ali
bem ali
dentro da alice
sĂł alice
com alice
ali se parece

Eu não só não sei o que estå acontecendo, mas também não saberia o que fazer se soubesse.

George Carlin
Brain Droppings

SĂł mais um pouco de cala a boca
Vai lĂĄ dentro do chalĂ©, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Tira essa sunga molhada. Quer ajuda? Posso te ver tomar banho? Posso jogar ĂĄgua importada em vocĂȘ? Posso te ver contra a luz do sol? Deixa?
Fica sĂ©rio de novo. Isso. Posso fazer um ensaio fotogrĂĄfico com vocĂȘ? Jogado, descabelado, na rede. E vocĂȘ ainda Ă© o homem mais lindo do mundo. No canto da foto dos amigos bĂȘbados, e vocĂȘ Ă© o homem mais lindo do mundo. Com gorro, no meio da confusĂŁo do frio. Escondido embaixo de tanta roupa. No fundo do mar. No escuro. De costas naquela festa chata. Meu Deus, como vocĂȘ Ă© lindo.
NĂŁo sei direito o que Ă© aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto vocĂȘ era feito. NĂŁo sei direito o que Ă© isso que eu sinto por vocĂȘ. Mas como Ă© maravilhoso fumar vocĂȘ, cheirar vocĂȘ, tomar vocĂȘ, injetar vocĂȘ. Calar a boca.
Sei que Ă© por pouco tempo. Somos plantas diferentes. PĂĄssaros diferentes. Estamos experimentando nossos mundos tĂŁo excĂȘntricos. Muito em breve vamos nos afastar com a intensidade de opostos tĂŁo Ăłbvios. VocĂȘ vai ser infinitamente o garoto mais lindo do mundo para suas garotas infinitamente mais lindas do mundo. Todos com dezenove anos. Todos lindos contra a luz do sol. Todos com cabelos de comercial. Todos idiotas e corados e lindos e sem saber o que fazer com muita beleza e pouca idade. E eu vou continuar esperando o meu tipo charmoso, mais velho, mais feio que vocĂȘ, melhor do que vocĂȘ.
Mas por agora. Me dĂĄ mais um pouco desse cala a boca, vai. Vai lĂĄ dentro do chalĂ©, vai. Coloca o shortinho. O chinelo verde. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que vocĂȘ morre de rir. Me deixa pirar no seu cĂ©u da boca escancarado. VocĂȘ se joga pra trĂĄs. E sĂł porque vocĂȘ e o mundo inteiro tĂȘm certeza do quanto vocĂȘ Ă© lindo, vocĂȘ faz questĂŁo de sempre se largar no mundo. É a liberdade que sĂł tem quem Ă© infinitamente lindo ou infinitamente feio. VocĂȘ Ă© livre do mais ou menos e isso me enche de algo que me faz querer cantar pra sua beleza. Eu sou mais ou menos mas nesse segundo, jĂĄ que comprei sua beleza, sou a mulher mais linda do mundo. Vai, passeia no meu carrinho de supermercado. Me deixa ser linda vestindo vocĂȘ. Entra em mim e me enche da sua vida fĂĄcil.
Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. É triste, mas me fez feliz. Pensei se isso que vocĂȘ faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso Ă© algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pĂĄssaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lĂȘ uns livros e vĂȘ uns filmes. VocĂȘ Ă© essa força absoluta e avassaladora que jamais precisarĂĄ abrir a boca para impor sua vitĂłria.
VocĂȘ coloca aquele moletom cinza com dizeres do surf e eu experimento um guarda-roupas inteiro pra ficar Ă  sua altura. VocĂȘ Ă© essa força da natureza que deu certo. Eu gasto metade do meu salĂĄrio pra me sentir como vocĂȘ deve se sentir escovando os dentes. Pra me sentir cabendo no mundo que deu certo.
Abaixa esse queixo menino. Abaixa esse nariz. Anda rastejando com esse chinelo verde e o queixo no alto. VocĂȘ sabe que Ă© superior. VocĂȘ sabe que pode fazer tudo devagar, o mundo te espera. O resto Ă© platĂ©ia. VocĂȘ sabe que faz as pessoas tremerem a voz. VocĂȘ sabe que deixa apenas duas escolhas pras pessoas: te idolatrar ou sair correndo. E como eu nĂŁo sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar as pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho. Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que vocĂȘ nĂŁo diz e vendo o que vocĂȘ nĂŁo faz. Apenas curtindo a limitação profunda e gigantesca da sua beleza esmagadora. Feliz em ser uma formiga que carrega milhĂ”es de plantas nas costas sĂł para ver algum esforço meu alimentando vocĂȘ.
Vai, faz o bico de burro quando alguĂ©m nĂŁo compra a sua forma. Faz os olhos laterais pra me convidar pra mais uma das suas apariçÔes. Faz o dentinho pra frente pra me pedir mais um pouco. Faz o silĂȘncio pra ganhar de vez. De mim e do mundo.
NĂŁo existe nĂŁo morrer um pouco quando vocĂȘ chega. E de vez em quando tudo o que a gente quer Ă© mesmo dar um tempo da vida.

Seu coração se parte, é só isso.

Qualquer pessoa com dois neurĂŽnios sabe que Ă© irremediavelmente sĂł e para sempre serĂĄ.

Feche os olhos e ouça com atenção.
Escute uma mĂșsica que sĂł existe em vocĂȘ
e cante esta canção.

SĂł Ă© mortal
o que nĂŁo vimos.

Cada pessoa Ă© um mundo, cada pessoa tem sua prĂłpria chave e a dos outros nada resolve; sĂł se olha para o mundo alheio por distração, por interesse, por qualquer outro sentimento que sobrenada e que nĂŁo Ă© o vital; o ‘mal de muitos’ Ă© consolo, mas nĂŁo Ă© solução.

Clarice Lispector
A bela e a fera. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Nota: Trecho do conto Gertrudes pede um conselho.

...Mais

Lembre-se não só de dizer a coisa certa no lugar certo, mas ainda muito mais difícil, de não dizer a coisa errada no momento de tentação.

A ninguém ofereço meu vinho branco
NĂŁo empresto minhas roupas mais caras
E sĂŁo sĂł meus os meus segredos.

Martha Medeiros
MEDEIROS, M. Poesia Reunida. Porto Alegre: L&PM, 1999.

SĂł nos tornamos adultos quando perdemos o medo de errar.
NĂŁo somos apenas a soma das nossas escolhas,
mas tambĂ©m das nossas renĂșncias.
Crescer Ă© tomar decisĂ”es e depois conviver em paz com a dĂșvida.
Adolescentes prorrogam suas escolhas porque querem ter certeza absoluta
– errar lhes parece a morte. Adultos sabem que nunca terão certeza absoluta de nada,
e sabem também que só a morte física é definitiva.
JĂĄ “morreram” diante de fracassos e frustraçÔes, e voltaram pra vida.
Ao entender que Ă© normal morrer vĂĄrias vezes numa Ășnica existĂȘncia,
perdemos o medo – e finalmente crescemos.

A solidĂŁo concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar sĂł consigo mesmo; segundo, a de nĂŁo estar com os outros. Esta Ășltima serĂĄ altamente apreciada se pensarmos em quanta coerção, quanto dano e atĂ© mesmo quanto perigo toda a convivĂȘncia social traz consigo.

E talvez sĂł o pensamento me salvasse, tenho medo da paixĂŁo.

Clarice Lispector
A paixĂŁo segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Prefiro reconhecer com o mĂĄximo de tranquilidade possĂ­vel que estou sĂł do que ficar Ă  mercĂȘ de visitas adiadas, encontros transferidos...

A pretensĂŁo Ă© sĂł um tipo de ilusĂŁo. Tem que ir se habituando a tirĂĄ-la. Quando comete um erro, nĂŁo se puna, admita "estou aprendendo, da prĂłxima meu desempenho serĂĄ melhor, estou aqui para aprender". Viva sem culpa nenhuma. Sempre se sentindo bem com tudo que vocĂȘ faz. AutĂȘntico. Fica com muito brilho.

NĂłs sĂł enxergamos duas coisas nas pessoas: O que queremos ver e o que elas querem mostrar.