Sidney Silveira
"Há certos males perante os quais não se deve reagir de imediato, apenas por instinto de justiça; antecipar a ceifa implica joeirar pessimamente".
"O pedagogo competente tem plena ciência de que o imbecil é um sábio em potência. Isto – porém – com as exceções de quem fez da maldade e da burrice um altar onde crepita a vela da demagogia".
"A pessoa que cresce na virtude logo aprende duas coisas sem as quais a vida em comunidade vira um verdadeiro inferno: civilidade nas divergências e inteligência nas convergências.
A concórdia não regida pela inteligência vira hipocrisia; a discórdia não regida pela civilidade vira contenda baixa, discussão entre celerados".
"A tolerância erigida em lei cria exércitos de intolerantes travestidos de democratas, fantasiados de pessoas abertas às diferenças.
Tolerar é ato de benevolência, nunca um direito, razão pela qual a tolerância para com as convicções errôneas jamais pode ser princípio de ação política.
Transformar o tolerável em direito é ir contra a "castidade virginal da verdade", de que falava Santo Hilário de Poitiers.
Quando somos legislativamente obrigados a tolerar o que quer que seja, a sociedade está morta.
A tolerância "absoluta" é liberticídio social. Cedo ou tarde, entroniza a mediocridade nas posições de mando".
"Nos maus, a humana inclinação natural ao bem foi depravada por vícios mais ou menos graves. A partir daí, entenebrecida a inteligência paulatinamente, forma-se uma espiral psíquica cujo vetor é o abismo. Ora, não se espere de alguém neste estado, desgovernado por paixões, vencido de maneira fragorosa pelas próprias debilidades, que enxergue os bens políticos sem cuja custódia pelo poder público tudo numa república vai para o buraco. O rechaço às coisas maléficas no plano político pressupõe percentuais mínimos de sanidade no tecido social, sem o que os cidadãos serão cada vez mais apáticos perante todos os tipos de bens, incapazes de perceber que as leis são preceptivas e proibitivas a um só tempo, ou seja, induzem o bem e castigam o mal.
Nestas ocasiões, é hora de os homens dedicados às coisas do espírito entenderem o seguinte: o ciclo histórico se precipitará inexoravelmente a níveis tenebrosos, e a preservação dos valores trans-históricos será possível somente em alguns guetos, com resultados quase impossíveis de perceber em meio à consumição geral.
Nas épocas em que a maioria tem os olhos vendados, os bons frutos são sempre tardios; só gerações futuras poderão aproveitá-los".
"O fariseu é uma espécie de neurótico que, preso num recipiente com a água na altura do pescoço – e subindo –, aponta o dedo para quem faz as coisas que ele não tem coragem de assumir como dever seu, porque está preso a formalidades e dos preceitos só consegue enxergar a letra, nunca o espírito.
Começa como um escrupuloso preocupado com a sua imagem e termina como um invejoso incurável.
Culpa as pessoas por fazerem o que ele não faz, razão pela qual jamais reconhece os benefícios de ordem prática que, para ele, advirão da ação delas.
O fariseu cedo ou tarde trai os seus benfeitores por vaidade, inveja ou avareza".
"O caminho do homem medíocre para o sucesso é palmilhado de auto-enganos com os quais ele seduz outros tão ou mais medíocres que ele".
"Diante dos males e das adversidades da vida, tanto a insensibilidade do coração quanto a susceptibilidade eriçada afastam-se do padrão da virtude. Os insensíveis não sofrem na dor, própria ou alheia, como deveriam sofrer, daí serem incorrigíveis nas reprimendas e tendentes a prorromper em injúrias e blasfêmias nos reveses, transferindo culpas e apontando o dedo em riste para onde, circunstancialmente, lhes calhar melhor, sempre acusando com injustiça e punindo com inclemência. Por sua vez os susceptíveis entregam os pontos sem lutar, desistem sem combater, fogem às suas responsabilidades em situações de perigo, mostrando-se pusilânimes e medíocres em suas aspirações e covardes na defesa dos bens próprios ou alheios que porventura estejam sob sua custódia. A tendência destes é se lamuriarem por pouco ou por nada, descambando no ódio invejoso contra quem faz o que eles, por fraqueza prevaricadora, deixaram de fazer.
Não convém ao coração humano ser de pedra nem de geléia".
"Em momentos de grave crise moral, confiar "in abstracto" nas instituições é como acreditar que uma doença em estado terminal se curará sozinha".
