Sidney Silveira
"A beleza moral imprime na alma de quem a contempla uma marca muitíssimo mais duradoura do que a deixada pela beleza física".
"Sem uma fina compreensão da ética, a política será sempre o lugar onde afloram as opiniões retumbantes, as paixões ideológicas, os ódios homicidas, as contendas sem fim, as preferências circunstanciais, a demagogia rasteira, a incoerência, o partidarismo teleguiado por interesses alheios ou contrários ao bem comum. Por via de conseqüência, pretender melhorar de imediato a política onde não se tem qualquer noção dos limites éticos da ação humana é utopia que, cedo ou tarde, conduz à distopia.
Em breves termos, onde os imbecis são multitudinários e estão presentes em absolutamente todas as estruturas políticas, não se espere um governo de virtuosos de hoje para amanhã. Também não se espere que haja bons legisladores e bons juízes em quantidade razoável onde grassa e abunda a corrupção moral, a cegueira intelectual, a desordem estética.
Em cenários como o acima descrito, o trabalho de formação é de longo prazo, embora todos estejamos obrigados a evitar o mal maior político imediato, cada qual em seu âmbito de atuação.
Sem entusiasmos juvenis".
"O ateu racionaliza o mistério e não compreende a humildade da alma simples que se resigna ante a evidência de que o homem não pode conhecer tudo de maneira plena".
""Recordar exige coragem – coragem de ser e coragem de haver sido.
Neste sentido o covarde, o apático moral, o morno, quando a idade avança recorda-se mal porque viveu pela metade, entregou-se pela metade, sofreu pela metade, sem a ousadia de ser autêntico, genuíno.
Quem hesita entre o bem e o mal e imagina que a sua hesitação é prudência, quem é omisso, quem não se expõe quando é preciso fazê-lo, quem é incapaz de amizade genuína, de amor veraz, de compaixão, acaba cedo ou tarde sabotando a própria memória para não se enxergar no espelho da consciência.
Mentiu no passado, e mente ao revivê-lo. Ou melhor, revive-o mentindo.
Lembra-se mal porque viveu mal: o seu presente é o pior tipo de auto-engano, e o que espera um homem acometido desta indolência espiritual é uma velhice tão falsificada quanto a juventude o fora.
Os covardes são sabotadores profissionais cegos à própria vida interior e também às coisas exteriores naquilo que têm de excelente, de amável. Não lhes resta outra coisa senão inventar um mundo à imagem e semelhança da tibieza em que vivem".
"O escravo psicológico não suporta contemplar a liberdade ao seu redor, pois nela enxerga as responsabilidades que não teve coragem de assumir".
"O escrúpulo exagerado tem sempre como pano de fundo um ideal de perfeição irrealizável. A pessoa propõe a si mesma uma meta sublime, um projeto que, na prática, não pode efetivar-se e acaba por sucumbir ao sentimento de inferioridade, a cada derrota que a vida lhe impõe. Daí ao estado de tristeza patológica, chamado por alguns de “depressão”, é um pulo.
Esta espiral psíquica descendente pode acarretar um sem-número de dramas humanos, quer por carência, quer por excesso de força vital do indivíduo chegado a tão triste situação: da psicopatia astênica, muito semelhante à realidade que os medievais chamavam de “pusilanimidade”, àquilo a que Adler deu o nome de “ideal de divindade”, atitude para Santo Tomás de Aquino muito próxima à da soberba. Neste último caso, o sujeito se propõe objetivos que, a cumprirem-se, fariam dele uma espécie de semideus virtuosíssimo. Como isto é impossível, para evitar a frustração ele hipertrofia os próprios méritos – consciente ou subconscientemente – e vive de alimentar a auto-estima com mentiras.
O mencionado Adler dizia, num acerto notável, que a ambição desmedida é própria das personalidades neuróticas, atormentadas por não atingirem a perfeição com os seus próprios esforços. Se se trata de ambição espiritual, a coisa acaba por ganhar configuração macabra.
Senso de realismo e um pouco de sã modéstia nas metas de vida; eis, aqui, o primeiro passo para uma pessoa não viver neuroticamente".
"É da minoria sofredora por não negociar a verdade que uma sociedade depravada se abre à possibilidade de reerguer-se".
"Quem viveu e não amou perdeu tempo duas vezes: o que foi e o que poderia ter sido.
E é candidato a também perder a eternidade".
"Pragmatismo e idealismo são o anverso e o reverso da moeda da imprudência. Em contrapartida, a prudência – "recta ratio agibilium" – não descamba nem em abstratismos inócuos nem em ativismos rasteiros".
