Ricardo Maria Louro

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⁠Outro dia -

I

É triste sentir que a esperança é coisa rara
ninguém encontra um caminho ou direcção
tanta gente que se dá e só embala
saudades, lado a lado, a par de coração!

E quando passam todos há silêncio
na raiz da noite tudo é em vão
e já ninguém se esconde, é permanente
viver amargurado em solidão!


Refrão

Mas sei que a vida traz sempre um caminho
creio no amor mais forte que o vazio
pois sinto que sonhar não é fantasia ...
Porque pomos tantas dores no destino
se a vida vai passando como um rio
nas margens do silêncio, dia-a-dia!


II

Há tantos ódios pelo mundo a dançar
penetrando o amanhã, 'inda por vir
e é fácil ser diferente, basta amar
como o Sol que se levanta a sorrir!

A esperança nunca morre, diz o Povo,
a vida nunca acaba, diz a esperança!
O que falta a cada Homem é amar de novo,
sorrir, acreditar, voltar a ser criança...

Inserida por Eliot

⁠Mais vida -

I

A vida é um mistério sem tamanho
Às vezes uma pressa que nos cansa
Quem ama por amar tem tudo ganho
A vida é um poema que nos alcança.

A vida é como um rio que segue o leito
O sonho no olhar de uma criança
Um forte coração dentro do peito
A vida numa palavra é confiança.

REFERÃO

E um dia hei-de dar mais voz à vida
Saber que a solidão não é mais forte
Romper qualquer amarra com a morte
E um dia hei-de dar mais vida à vida!

I I

Há vida no olhar de quem se ama
Na boca quando fala uma verdade
No corpo de um poeta feito lama
Há vida em cada gesto de saudade.

Há vida num silêncio feito grito
Num pássaro que voa sem destino
No eco de um adeus que não foi dito
Há vida em cada passo do caminho.

Inserida por Eliot

⁠Perguntei ao teu olhar -

Perguntei ao teu olhar
se tinhas por mim amor
mas dissestes a chorar
não perguntes por favor.

Quando a Alma nos agita
e as palavras contradizem
as verdades que não ditas
só os olhos no-las dizem.

Mas se os olhos nunca mentem
porque o faz a tua boca
que eles digam o que sentem
pois a vida é tão pouca.

O silêncio também fala
quando tira a voz da gente
quando a tua boca cala
o teu rosto nunca mente.

Inserida por Eliot

⁠É inútil acreditar -

É inútil acreditar
quando alguém já nos mentiu
fere sempre até sangrar
da mesma forma que já feriu.

Uma espada de dois gumes
que trespassa até matar
duas chamas num só lume
é inútil acreditar.

É inútil acreditar
em olhos que já mentiram
insistem sempre até magoar
num amor que não sentiram.

Mas um dia há-de haver fim
o que começa há-de acabar
nessa história, ai de mim,
se voltar a acreditar.

Inserida por Eliot

⁠Aquela Ponte -

Ainda hei-de encontrar
aquele amor que não vivi
aquele toque que não senti
alguém que me há-de amar.

Hei-de ser o Sol poente
que arde no horizonte
hei-de ser aquela ponte
onde passa toda a gente.

E hei-de ser todas as coisas
do principio ao fim da vida
uma esperança concebida
como são as coisas doidas.

Mas porém se não chegar
esse amor de que vos falo
acreditem vou espera-lo
bem no fundo do meu olhar.

Inserida por Eliot

⁠Hoje mas só hoje -

Hoje inclino-me ao fulgor dos dias luminosos
caiados de sol, cheios de noite e solidão,
inclino-me às dores, aos olhares saudosos
da minha triste juventude etérea sem razão!

Hoje! Mas só Hoje! ...

Hoje inclino-me às crianças que passeiam pela rua
cheias de sonhos e vontades, como eu já tive,
e penso na amargura que vão sentir, tão crua,
ao verem, crescendo, que sem a morte ninguém vive!

Hoje! Mas só Hoje! ...

Hoje inclino-me às guerras porque delas se faz paz,
uma paz armada, bem sei, porém uma semente,
inclino-me à fome e à tristeza de que a traz,
à dor e ao silêncio de quem a vê, de quem a sente!

Hoje! Mas só Hoje! ...

Hoje e só hoje me inclino ao coração dos homens,
por vezes, tão negros, cheios de maldade e podridão,
cheios de angustia e amargura, cheios de nuvens
que lhes encobrem a Voz de Deus e lhes tiram a razão!

Hoje! Mas só Hoje! ...

Inserida por Eliot

⁠Esta noite -

Lado a lado, frente a frente,
nós, a Morte, o destino e a saudade!
Quem diz que não sofre, mente,
pensando que vive em liberdade!

Não passa tudo d'um instante
entre o desejo de ficar e ter que partir;
o ritmo é binário, constante,
vivendo a vida da vida a fugir.

Olha docemente em teu redor,
a vida não acaba, simplesmente,
quem nasce p'ra morrer não é pior
do que quem vive infeliz no meio da gente.

Esta noite tocarás para as estrelas,
esta noite, tocarás ao som do vento ...
Tudo porque as Estrelas são belas
e a vida não passa d'um momento!

Inserida por Eliot

⁠Instante de mim -

Meu amor tu não te lembras
daquelas horas, das penas,
das ilusões que a vida tem;
das tristezas sem carinho
de tantas pedras no caminho
que o teu amor me deu também.

Trago tanto por escrever
muita coisa por dizer
na solidão dos dias vagos;
dou ao Fado o meu destino
e os meu olhos de menino
trazem sonhos magoados.

Se eu soubesse que esquecendo
apagava o que fui sofrendo,
acredita, seria o fim;
nunca mais me encontrarias
porque afinal tu não merecias
nem um instante de mim.

Inserida por Eliot

⁠Não sou mais -

Não sou mais do que o vento passageiro
ou a brisa do horizonte que se sente
no olhar, num instante triste mas inteiro,
numa hora infeliz, fria e permanente!

Não sou mais do que um grito de infinito
por sobre as manhãs frias que nos cercam
cheias de névoa e solidão, num desejo perdido,
de não ser um daqueles que todos deserdam!

Não sou mais do que a distância imprecisa,
vagamente perturbadora que nos rodeia
de rosas negras, numa hora apetecida
de Primaveras, num sonho que se alteia!

Não sou mais do que estes versos que escrevi
nas folhas do silêncio que vou lendo
ou estas linhas que não falam de ti
porque tudo se apagou na voz do vento!

Inserida por Eliot

⁠À Morte de Maria Flávia de Monsaraz -

Silêncio todos os povos,
silêncio todas as raças,
todos os Credos,
todas as gentes!

Façam silêncio todas as
Almas ...

O Céu parou!
Calou-se a voz dos Astros,
as Estrelas não cintilam,
a noite cobriu os horizontes.
Em tudo há algo que doeu.

Por toda a Terra há um eco
de saudade:
" - Ficámos órfãos das Estrelas ...
... a Maria Flávia morreu!"

Os Anjos, em cortejo, a vieram
abraçar ...
E assim partiu: imutável, eterna!
Além de todas as palavras ...
Esférica, etérica, ampliada.
Na evidência Sagrada da Essência
do Ser ...

Inserida por Eliot

⁠Esse amor que trouxe o vento -

Esse amor que trouxe o vento
Mais veloz que o pensamento
Trouxe rosas ao meu leito
E num mar de água salgada
Fez nascer a madrugada
Como um sopro no meu peito!

Esse amor que trouxe o vento
Fez nascer no firmamento
Uma estrela ilumimada
E aqueles sonhos que sonhei
Aquele amor que desejei
Fez-me andar por outra estrada!

Esse amor que trouxe o vento
É mais forte que o lamento
Que a saudade ou a tristeza
E ái daqueles que o não sentem
Na verdade é porque mentem
E só vivem na incerteza!

Esse amor que trouxe o vento
Fez nascer um sentimento
Que nos veste o coração;
Disse adeus à amargura
E não sei se foi loucura
Disse adeus à solidão!

Inserida por Eliot

⁠Naquela campa -

Há um poema cansado
Nas rimas do meu sofrer
Mais um momento marcado
Pela vontade de morrer.

Há um silêncio que agito
No fundo dos meus sentidos
E o meu poema é um grito
São meus sonhos perdidos.

E o que ficou do que fomos
Está preso ao fado, à poesia
P'ra mim seremos e somos
Aquele amor que eu sentia.

Aquelas horas tão nossas
Só eu as guardo no peito
Talvez também 'inda possas,
Lembra-las tu ao teu jeito.

Naquela campa tão fria
Deixo uma rosa e um beijo
Que a Musa desta poesia
Fica virada p'ro Tejo.

Inserida por Eliot

⁠Foi assim que nasceu -

Tão estranho sentir o que sinto desde quando te vi
Mas o amor sempre chega quando a gente não espera
Talvez seja a vontade de amar que um dia perdi
Quem sabe se és tu o luar da minha quimera
Foi assim que nasceu este amor que eu sinto por ti!

E Vi nos teus olhos o destino que tanto pedi
E tu nos meus olhos o amor que tanto esperaste
Nem mar, nem silêncio, nem vendavais que vivi
Não voltarei a chorar porque tu já chegaste
Foi assim que nasceu este amor que eu sinto por ti!

Inserida por Eliot

⁠Homenagem a Paula Ribas - Palcos de Glória -

E em tempos houve um rio que me sonhou!

Uma Vida que vivi …
Um sonho que me criou …
Que fez margem do meu corpo …
Fez leito do meu Ser …

E parecia Glória intangível.
E os destinos se cruzaram!
E os milénios se interpuseram!


E vi pedras, e vi barro, olhares e descrenças ...
Rasguei o ventre à solidão, e fui além …
Tão mais além do que alguém foi!
E correram águas, e houve medo,
e houve espuma e houve espanto.
Mas fui … sem nunca duvidar.
Sem nunca desistir.

E à força do meu canto, sobre palcos sem nome,
ergui desvãos sombrios, olhares secretos,
noites diferentes e dias repetidos.

E fui rio, fui margem, fui amor, fui ódio,
espasmos e perdões!
Fui tanto … tanto … que o recordar me deixa
inebriada …

E tanto que perdoei! Perdi-lhe o conto …
De mim nasceram filhos.
Glórias! Palmas! Tributos!
Tanta gente … tanta gente …
E tantas pautas me gastaram …
Tantas outras por gastar …

Mas o palco! Os panos! As luzes! E o canto!E a minh'Alma!
Tudo em mim, ainda, tão intenso!

E acordaram ecos, iludiram mágoas,
e corri o mundo e o mundo correu-me a mim!

E dancei … dancei, rasguei palcos d'ilusão
aos movimentos do meu corpo.
E fui sonho - fui estepe, fui quimera -
tão fundo como os mares …

Levo tudo na mão sem sombra ou nostalgia …
Só saudade em lânguidas tardes mornas …
Por mim tudo passou ao som das águas turvas
e dos ternos temporais...

E os anos desfilaram, lentos e absortos ante ruínas
repetidas, mas nunca desisti! Nunca!
E recordo o silêncio que então se fez.
A beleza tombada das estátuas rodeadas de gardenias.

Meu corpo! Meu corpo!
Corri o pano! Calei as pautas!

Mas não parei … renasci … fui de novo … em frente …

Meu rio continuou …
Em busca de outros horizontes...
Nova aurora … novo amanhecer...
Em busca d'outros mares …
Novas margens … novo leito …

Afinal, Eu sei quem sou!
A que fui! A que serei!
Por onde vou? Não sei!
Sei que vou … que irei …

Além … sempre mais além ...

Inserida por Eliot

E Anoiteceu -

⁠Há no frontispício do meu olhar
a mácula d'um vazio indefinido ...
E anoiteceu!
Fez-se escura a minha Alma
cheia de turva solidão.
Longe do Céu, longe da Terra,
longe de todos os sonhos
nada sei do meu silêncio.
Há ainda um qualquer destino
por cumprir,
coisas por viver, vontades por abrir.
São abismos! Profundos, silenciosos ...
São vales! Densos, parados ...
São montanhas! Penedos que se erguem
entre mim e a vida. Entre a Vida e Deus.
Estou cansado!
Há no frontispício do meu olhar
a mácula d'um vazio indefinido ...
E anoiteceu!

Inserida por Eliot

⁠Praia dos Mortos -

As manhãs
vagas; sombrias
pairam densas sobre
a Praia dos Mortos,
vem as madrugadas
duras, frias
cheias de silêncio
e águas paradas ...

O que restou
dos sonhos dos mortos?! ...
Esperam neste cais
o regresso à vida;
vivem de memória
ninguém os vê,
vivem de saudade
e da velha história ...

Inserida por Eliot

⁠Há qualquer coisa -

Há qualquer coisa d'infinito
nas vagas linhas do horizonte
uma quimera sem sentido
ou uma saudade sem fonte ...

Há qualquer coisa que nos negam
os olhos fechados de quem parte
um não sei quê d'águas sem arte
onde os barcos não navegam ...

Há qualquer coisa permanente
que nos injecta mágoa e solidão
uma visão errante, um senão
ou uma vontade de ser diferente ...

Há qualquer coisa dita em vão
nas bocas que maldizem o amor
inveja, dor, mágoa e solidão
que vai matando sem pena nem pudor ...

Há qualquer coisa que não sabemos
oculta no tempo que nos castra
talvez seja a distância que nos arrasta
da juventude que perdemos ...

Há qualquer coisa, muita, tanta coisa
inerente à vida sobre a Terra
a ausência de paz é guerra
mas o destino é a pedra de uma lousa.

Inserida por Eliot

⁠- Calma e Silêncio -

Há vontade de morrer em meu
Espirito breve!
Nenhuma ausência há em mim
além de mim ...
Meu rosto é de silêncio,
oblíqua madrugada, vontade de
negar e não ceder.
Minh'Alma é breve, tão breve
como breve é o instante!
Tudo é passageiro, nada fica,
é destino ...
É a calma e o silêncio
de quem se aceita, entrega,
resigna ...
Estou só! Sempre só!

Inserida por Eliot

⁠- Complexidades -

Num passo de silêncio
sem misérias nem vaidade
acreditei que a vida
me podia dar futuro ...
Mas ao contrário, deu vazio,
deu-me lânguidas noites
carregadas de demónios
do passado!

E escrevo:

De manhã anoiteço
à noite tardo,
da morte cativo
a vida é um fardo ...
Aqui a vida,
de frente a Norte,
passo a passo, coisa vã,
dirijo-me à morte ...

Morro hoje ... nasço amanhã!

Inserida por Eliot

⁠Ao Sonhar -

Há sonhos incompletos nas madrugadas
que trazemos no coração ...
Verdades singulares que nos invadem
o pensamento,
oblíquas solidões cheias de palavras
ao acaso.
E a noite é vã ... e é vão adormecer
porque dormindo despertamos ilusões ...
... e há cansaços!
Mas por vezes, acordados,
é-nos mais pesado o destino do que dormindo, porque dormindo, fora a morte, sempre despertamos!

Inserida por Eliot

⁠Vives tu -

Na pobreza dos meus sentidos
nas vagas ondas dos meus pobres
pensamentos
no vazio dos meus desejos
na dolência dos meus sonhos
na agonia do que faço e sou
no peso do meu braço
no andar que me atrapalha
na falta de vontade que me habita
na solidão que me trespassa
na angústia que me atravessa ...
... apenas vives tu! ...
E aí onde tu estas é onde nada sou ...

Inserida por Eliot

⁠Rio de Medo -

E eis que d'um tempo recuado
p'las margens d'um rio de medo
vai boiando o meu passado
em silêncio ... em segredo ...

Vem de longe, nocturno e vago,
passa, acusador, galgando, sem parar ...
Cheio de angustia sigo a nado
mas só me resta suplicar!

A culpa é minha! As mãos caídas,
calosas, doídas, cheias de sonhos
encheram-me o passado de feridas!

Mas amanhã, se o dia for risonho,
não tornarei a definir a vida
porque o passado é áspero e medonho!

Inserida por Eliot

⁠Fuga Vã -

Amanhã talvez já seja tarde
porque hoje é cedo p'ra ficar
e sem bulício nem alarde
arrasto o meu destino ao passar!

E passo ... vou passando ...
Meus dias breves p'los dedos vão
tudo está na mesma, secando,
entre vales e colinas de solidão.

Tudo vago sem tempo nem memória
talvez minh' Alma já nem guarde
a saudade que trago da minha História ...

Em mim a chama já não arde
nunca encontrei um momento de vitória
mas amanhã talvez já seja tarde!

Inserida por Eliot

⁠Para Ti Meu Amor -

Para ti meu amor
são todas as palavras ardentes
todas as vontades da vida
todos os sonhos do mundo ...

Para ti meu amor
são todas as flores do campo
todas as nuvens do céu
todas as rochas do mar ...

Para ti meu amor
todas as lágrimas que choro
todos os desejos que tenho
todos os versos que escrevo ...

Tudo é para ti sem excepção
porque nada me faz sentido
se te não tenho a meu lado
bem juntinho ao coração!

Para ti meu amor ...
... tudo é para ti ...

Inserida por Eliot

⁠Sem Destino -

A vida vai passando mais depressa
o tempo diminui
o silêncio veste-me a voz
vejo vultos à luz do dia ...
Tudo passa ...
Fujo de mim - quero ficar! - é confuso ...
Entre o Passado e o Presente só há
mágoa e o futuro é enfim uma miragem!
Mas vou ... sem olhar para trás ...
fujo do meu próprio pensamento ... do que
não quero e sou.
Sigo caminhos que me levam a lugar
nenhum ... e tudo passa ainda mais depressa:
... passam vozes, vontades, sonhos, rostos,
restos de mim (fechados por dentro),
ausências por definir, vontades por decifrar ...
Sinto um vazio profundo, um espaço oblíquo
entre mim e a vida, entre a vida e o destino.
E vou ... mesmo sem saber se um dia vou voltar ...
Vou ... sem saber para onde ir ou se irei parar ...
E vou porque o Mundo se esqueceu de mim.

Inserida por Eliot