Ricardo Maria Louro

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⁠Pesadelo -

Por momentos julguei sentir o eco dos teus passos por entre o silencio da horas inquietas! Julguei sentir a culpa das palavras que não disse, dos momentos que perdi e dos instantes de saudade. Por momentos desejei que fosses tu, caminhando para mim como um Sol d'Inverno ...

Mas os teus passos vinham sobre a noite opaca e triste ... mesmo assim ... desejei que fosses tu!

E tudo terminou à hora do Sol-pôr ...

Meus olhos, na distância, na miragem, cheios de água e solidão, encheram-se de silencio e desenharam no horizonte das tardes quentes d'Agosto, um não sei quê de poesia ...

Ah! Que ninguém venha pedir-me "que razões!" O porquê de amar alguém que não nos quer?! Não sei! Não sei! As razões, essas, transcendem-me, ultrapassam-me os sentidos ...

E há bocados de sonhos despedaçados, caídos na noite, sem fim! E tudo está gasto! Menos a dor que me atravessa nesta hora e que me deixa estático, parado a meio tempo, como se fora o principio de tudo ou o fim de qualquer coisa ...

E não peçam que me cale! É impossível ficar aqui - no silêncio! Estou farto de sombras mudas - mortas! O amanhã não existe mas é teu ...

A noite cobriu meu ser de um mar de trevas e o Pesadelo aconteceu ... o silêncio apodreceu nas minhas veias e um punhal trespassou a minha Alma!

Outros dias virão! Adeus!

Inserida por Eliot

⁠Vida Suspensa -

Há uma voz de espuma e sangue
a gritar dentro de mim
nesta hora apetecida!
É a espuma d'um silêncio
é a fome d'um Poeta
uma esperança concebida ...

Sou meu próprio sofrimento
sou ausência integral
rasgando gestos de perdão
e cada sonho que persigo
na ilusão do alcançar
é um sonho diluído!

Eu sou a vida suspensa
sou a verdade calada
num bater d'asas caídas
p'ra que a vida renasça
na manhã clara do dia
que a mim nunca me abraça!

E já não oiço aquela voz
aquela musica triste
um quase vento no rosto
aquela angustia cansada
uma sombra crescendo, e outra
na minh'Alma parada!

Inserida por Eliot

⁠O Silêncio do Papa -

Que momento tão doce
Que instante profundo
Que alegria nos trouxe
Aquele +Homem do Mundo.

Tanta gente perdida
Que na vida sofreu
Tanta esperança caída
Que da vida se perdeu.

Tantos olhos sem miragem
Tanto grito magoado
Que ao ver aquela Imagem,
Ali, ficou abandonado.

Emudeceu a garganta
Foi Presente o Passado
Frente à Virgem Santa
O Mundo ficou parado.

E aos Pés de Maria
Onde nada é Novo
Um gesto de Amor
Um +Papa do Povo.

Inserida por Eliot

⁠No céu da minha noite -

No céu da minha noite as estrelas já não brilham!
No mar do teu silêncio os barcos estão parados!
A música não soa, os Homens não partilham
os desejos nem os sonhos, e os olhos estão cansados.

E não há palavras que descrevam este suplício!
Não há angústia maior do que não termos quem nos ame!
Porque estará a vida rodeada de tal bulício?!
De não termos no destino ninguém que por nós chame?!

Que o dia em que vim ao mundo seja posto em escuridão,
cheio de nuvens, que se oiçam gritos de viúvas
e agonias vestidas d'uma imensa solidão!

Que ao largo dos meus olhos as lágrimas se agitam
e agitam-se dores pela estrada, tantas curvas,
pois no céu da minha noite as estrelas já não brilham!

Inserida por Eliot

⁠Aplaudam -

A alegria de um olhar
A doçura de um gesto
Um anseio, terno e calmo
Que trazemos na mão
Para poder aconchegar ...

Um aplauso soluçante
Num empedrado frio
Um destino viajado
Um cetim agreste
Num desejo constante ...

A água da infância
Numa fúria por dentro
Num mundo que não tive
Com cheiro d'açucenas
Em eterna permanência ...

Aplaudam minha dor
Riam do eu que vivi
E com espanto e alegria
Vejam que em meus olhos
Ainda há amor ...

Inserida por Eliot

⁠Poentes encalhados -

Se um dia o meu destino se encontrar
com o amor, se um dia, por ventura,
alguém disser que me quer amar,
hei-de abandonar esta amargura.

Se me derem desse cálice a beber,
a prisão dos meus sentidos cessará,
e, por fim, o mundo inteiro irá ver
que um Poeta d'outra estirpe nascerá.

E deixarei p'ra sempre de me queixar
hei-de dar às rosas os meus olhos
e no jardim dessa promessa caminhar.

E hei-de amar os Poentes Encalhados,
hei-de repousar nas sombras, entre folhos,
e dar meu corpo ao silêncio d'outro Fado.

Inserida por Eliot

⁠Sina -

Na minha boca há um grito
que é feito do teu silêncio
nem sei amor o que sinto
se a noite vem em segredo
como uma onda que agito.

Nas asas brancas do vento
não há vida nem morte
que o nosso amor não tem tempo
pois sinto que a nossa sorte
é filha do sofrimento.

E como uma rota traçada
tracei a sina na mão
esperei tanta madrugada
vesti tanta solidão
de ti não tive mais nada.

Inserida por Eliot

⁠Mãe -

Se escutasses este fado
minha mãe a esta hora
esse teu olhar cansado
não teria ido embora.

Tu partiste e eu perdi
teu regaço doce e quente
minha mãe quanto eu sofri
ao partires para sempre.

Esse teu último olhar
foi p'ra mim último beijo
minha mãe vi-te a chorar
numa ânsia, num desejo.

Minha mãe, ó minha mãe
se na vida tudo passa
por que não passa também
esta dor que ainda me abraça.

Inserida por Eliot

⁠Cristo Vivo -

Mas num momento de pura Poesia
o Monte transformou-se em Azinheira
das vestes negras, solitárias de Maria
surgem vestes brancas numa Glória derradeira!

Da noite escura fez-se o dia claro
o Sol no Céu desponta, dança entre as nuvens,
e a Mãe de Deus, num silêncio terno e raro
revela que seu Filho está vivo entre os Homens!

Vi então a prata dessa Espada no seu peito
diluir-se pelo espaço em Raios de Luz
levando a cada Coração os Olhos meigos de Jesus!

Então, alevantando-me do leito,
fixei aquela Cruz que tenho em minha casa ...
Emudeci de espanto! Ele já não estava!

Inserida por Eliot

⁠A solidão da Virgem -

E eis que lá no cimo daquele monte
há um Espirito magoado que me seduz,
um olhar triste, bem de fronte,
mirando o filho, morto, numa cruz!

Uma Virgem de preto guarnecida,
de mãos postas, fixas, junto ao ventre,
entre um séquito de sombras, sem vida,
no rosto, uma mágoa permanente!

Estranho quadro se alevanta no Calvário!
O Filho de uma Mãe condenado por amor
e a Mãe do Filho enrolada num Sudário.

Quando chego enfim ao Lugar de tanta dor
onde a esperança parecia arrebatada
vejo no peito de Maria a Prata d'uma Espada!

Inserida por Eliot

⁠Cruz -

Tenho numa cómoda em casa
um Cristo sofredor pregado numa cruz
quem chega, fica arrepiado, não diz nada,
ao ver ali aquela imagem à contraluz!

Estendido num "madeiro de pau santo"
a cabeça reclinada sobre o peito,
semeia nos olhares dor e espanto
quando fixam o seu corpo em vão desfeito!

Que tristeza ver seus olhos enevoados,
parece que o não quiseram matar logo
p'ra morrer antes, vendo os nossos pecados!

E um fio de sangue lhe escorre pelo rosto!
Na minha casa há um Cristo cego e louco
morrendo, há mais de dois mil anos, pouco a pouco.

Inserida por Eliot

⁠Saudade entreaberta -

Eu sou a vontade de Ser que não se encontra!
Sou o grito de revolta, a saudade entreaberta,
sou a noite, o dia que se levanta
na Sintra que se ergue e me desperta!

Eu sou a manhã de nevoeiro densa e baça!
A tristeza de uma mãe que se lamenta!
Sou no corpo um silêncio que me abraça!
Um pássaro no céu em rota lenta!

E há sonhos nos meus olhos de mãos dadas,
verdades por dizer, estrelas por brilhar!
Há lágrimas no meu rosto em vão cansadas.

Eu sou o verso d'um poeta solitário!
Um nocturno de Chopin que toca sem parar,
frente ao Cristo, no cimo do Calvário ...

Inserida por Eliot

⁠Do teu silêncio -

Na verdade o teu silêncio 'inda me acusa
como a orla da manhã de Nevoeiro ...
Tudo em ti parece um grito de recusa,
nada do que trago, em mim, parece inteiro!

E o que há em nós de tão diferente do que foi?!
Diz-me p'ra que se acabe para sempre o meu penar ...
O porquê de já não sentires quanto me dói
o abandono a que votaste o meu olhar?!

Tudo agora é silencio, angustia e solidão!
Nada mais do que esperança de te ver junto a mim,
tão longe, como tu, do meu pobre coração!

O que está perto é não saber quando te vejo!
Não saber se o teu afastamento é um fim
ou se torno a sentir na minha boca o teu beijo.

Inserida por Eliot

⁠Paisagem -

Quando subo a Monsaraz há uma paisagem
que penetra na minh'Alma combalida,
abrevio por instantes a viagem
e fixo a água pelos campos adormecida!

E recordo por momentos a infância ...
Nada além de Estevas havia por ali!
Nada mais que a solidão em permanência
na era desses tempos que lá vivi.

Que saudade Deus meu, da tristeza pura
que invadia Monsaraz, pelo Inverno,
e adornava pelo Verão sua planura.

Contemplo aquela Vila! É um barco!
E guardo ainda nos meus olhos o eterno
pôr-do-Sol que sempre vi no mês de Março!

Inserida por Eliot

⁠Quando Deus sangrou as rosas -

⁠Quando Deus sangrou as rosas
golpeou a Primavera
às escarpas deu as rochas
e ao silêncio uma quimera.

Todo o vento é poeira
quando a esperança fica presa
aos escolhos da cegueira
que a vida nos põe à mesa.

E nas minhas mãos vazias
trago um mar feito de pedra
trago tudo o que não vias
o sonho de quem eu era.

Mas a vida continua
cheia d'Almas ansiosas
nosso amor nasceu da Lua
quando Deus Sangrou as rosas.

Inserida por Eliot

⁠O que mais gosto -

Sobrancelhas como as tuas
difícil é havê-las
são laços de fitas pretas
a prender duas estrelas.

Os teus olhos cor da noite
trazem Céus enluarados
quando em noites pela rua
são cantados como fados.

As tuas mãos de silêncio
trazem nos gestos dois fados
são ninhos d'andorinhas
a chilrear nos silvados.

Teu passar inebriante
espalha ternura no ar
na tua voz trannsparece
uma guitarra a trinar.

Inserida por Eliot

⁠Oração à Senhora da Graça -

Senhora da Graça
Mãe dos desvalidos,
dos sem esperança, caídos
em busca de um caminho
de Fé e confiança!
Escuta a oração,
a prece, a petição,
que deixamos a teus pés
neste instante de solidão.
Senhora que não descansas
que proteges as crianças
no ninho do teu regaço,
abençoa a nossa mágoa
e alumia a escuridão
que em tantas horas sem vida
nos invade o coração.
Deixamos a teus pés,
Senhora da Graça,
as dores e os cansaços,
os medos e as tristezas,
todos os sem fé,
cada dor dos nossos Passos,
quem nos ama e nos odeia.
Tudo, Senhora,
sobre o vosso altar,
junto à vela que se ateia
ao critério do vosso olhar!
Senhora cheia de Graça,
no teu encanto, no teu sorriso,
o Olhar de Deus esvoaça
e eu encontro um sentido!
Meu porto! Meu amparo!
Minha casa!
Torna as nossas dores
mais leves e o nosso acreditar
com mais esperança.
Senhora da Graça, lança sobre nós
bençãos de amor, de paz e confiança!

Inserida por Eliot

Senhora da Graça -

Num altar feito de pedra
Está a Senhora da Graça
Reluzente e majestosa;
Seu olhar é como a hera
Não se cansa e abraça
Cada casa onde mora.

Nesse altar de azul vestida
Com um manto de cetim
Com seu filho no regaço;
Tal a graça concebida
Que estando perto, frente a mim,
Quase sinto que a abraço.

Seu olhar sereno, é doce,
É em nós timbre de mel
Como o de uma Mãe real;
Mas que graça à vida trouxe
A Senhora tão afável
Que quis ser Mãe de Portugal.

Como um verso feito em prosa
Como a noite que não medra
Ou o tempo que não passa;
Reluzente e majestosa
Num altar feito de pedra
Está a Senhora da Graça.

Inserida por Eliot

⁠Sou Eu -

Há um muro de silêncio entre nós,
é a hora em que a terra já não gira,
tu e eu, dois corações tão sós,
corpo de promessa, olhos de mentira.

Sou eu, esta voz de quem te ama,
no olhar, na solidão, perdida,
sou eu, sou aquele que te chama,
neste corpo que arrefece, sem vida.

És tu, o meu grito de revolta,
a minha esperança no amor, tão longe,
meu barco sem destino, sem rota,
pelo mar, sem fim, onde se esconde?!

E oiço na noite a voz do impossível,
e avanço devagar na luz que dorme,
sou eu, num suspiro inesquecível,
és tu, um terror que me consome.

Inserida por Eliot

⁠Única Razão -

Na imensa tempestade do ser que sou
há redemoinhos d'ilusões agrestes ...
Mas é este não saber aonde vou
que me faz ser mais um entre Ciprestes!

E há sombras de cedros por mim fora,
de mim a mim, um não sei quê de solidão,
chegar é a certeza d'ir embora
procurando outro caminho p'ra razão!

Razão?! Qual razão?! A única razão
que me faz trazer de longe este sentir
é não conhecer o meu próprio coração!

E não reconheço os olhos de minha mãe,
não reconheço os braços, que um dia, a sorrir,
me deram, por destino, este caminho também!

Inserida por Eliot

⁠Viagem -

A vida é uma viagem
Um retorno sem imagem
Nos espelhos do destino,
É um grito sem amarras
Um poema sem palavras
Que vivemos no caminho.

O que trago ou não trago
O que canto e dou ao fado
Só eu sei o quanto dói,
Ver nos olhos de toda a gente
O silêncio de quem sente
O quanto a vida nos destrói.

Visto noites e cansaços
No meu corpo, nos teus braços
Na distância, o teu olhar,
Roda a roda do destino
Acendo velas no caminho
Numa pressa de te amar.

Só há Fado e solidão
Esta dor e um coração
Nos meus olhos a bailar,
E no céu da minha noite
Já nem há onde me acoite
Tanta estrela sem brilhar.

Inserida por Eliot

⁠Saudade de nós -

Chegaste tarde meu amor
E no silêncio desta dor
Nem sei bem o que senti;
Uma saudade de nós
Ou talvez por estarmos sós
Uma saudade de ti.

As andorinhas não vieram
E as pessoas não disseram
Se voltavas p'ra mim ou não;
Grito e ninguém me responde
Oiço-te mas não sei d'onde
Nos confins da solidão.

Passo a passo sem Carinho
Acendo velas no caminho
Virando os olhos p'ra Deus;
Porque não há maior tristeza
Do que trazer a Alma presa
Ao Silêncio de um adeus.

Eu nem sei onde me perdi
Que tudo me fala de ti
Entre a terra e os Céus;
Mas podes sempre voltar
Porque eu vou por ti esperar
Jamais te direi adeus.

Inserida por Eliot

⁠Ao passar pela vida -

Ao passar pela vida
Não levei nada na mão
E ai da minh'Alma perdida
Ai do meu pobre coração.

E houve momentos de comunhão
E houve instantes de poesia
Tantas horas de emoção
No viver do dia-a-dia.

Só a mim levei comigo
E foi muito ou talvez não
Que das saudades contigo
Só ficou a ilusão.

Agonia consentida
Lastro de pura solidão
Ao passar pela vida
Não levei nada na mão.

Inserida por Eliot

⁠Olha -

Olha o tempo que passou
e nada aconteceu
vê a vida que voou
no olhar de quem sofreu!

Olha as vezes que disseste
"este amor não é p'ra nós!"
tantas coisas tu fizeste
que p'ra sempre estamos sós!

Olha a esperança que não veio
que caiu em solidão
no silêncio do teu seio
no vazio de um coração!

Tudo passa e arrefece
até a dor de quem não fomos
na verdade não se esquece
do olhar de quem amámos!

Inserida por Eliot

Hão-de lembrar-se de mim -

⁠Hão-de lembrar-se de mim quando quiserem ver-me,
e eu, volvidos tantos anos, estiver morto,
hão-de lembrar-se de mim quando não poderem ter-me,
porque a terra já desfez meu pobre corpo!

Hão-de lembrar-se de mim ao verem nos meus versos
amargura, tristeza, dor e solidão
e hão-de sentir como traição dos vossos beijos
um punhal profundo cravado no coração!

Hão-de lembrar-se de mim, acreditem, ao ler-me,
e sei que me lerão, porque já terei valor,
"Rei morto, Rei posto!", todos me terão amor!

Mas se afinal, em vida, ninguém pôde querer-me,
vale a pena dar valor a quem chegou ao fim?!
Quando as lágrimas correrem hão-de lembrar-se de mim.

Inserida por Eliot