Ricardo Maria Louro

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⁠Perdas -

Há silêncios magoados
Que nos trazem solidões
Amarguras lado a lado
Em par dos corações.

E há olhares cansados
E há vidas sem destino
Tanta gente sem passado
Tantas perdas no caminho.

O que há eu já não sei
O que sinto também não
Porque a vida a que me dei
Não passou de solidão.

E ao viver de mão em mão
Vivi silêncios magoados
E a par do coração
Amarguras lado a lado .

Há verdades que ficam por dizer
Olhares que falam sem falar
Tanta coisa que fica por viver
E a vida não pára de passar ...

Inserida por Eliot

⁠Marafada -

Lá vai ela p'la calçada
vai tão bela e formosa
onde será a barracada
dessa triste mentirosa!

A cabeça está vazia
nas mãos leva mentira
no passar de cada dia
mais parece a pomba-gira ...

... e gira ... gira ... gira ...
tão rodada que ela é!
É rodada a pomba-gira
mesmo igual ao que ela é!

Lá vai ela marafada
p'ra lixar algum amigo
lá vai ela endiabarada
fujam todos, é perigo!

Inserida por Eliot

⁠Bota - Abaixo -

Bota-abaixo as bocas sujas
Que vagueiam pelo lixo
E adoram pôr-te culpas
P'ra fugirem, bota-abaixo!

Aos que juram com maldade
Sobre os mortos, bota-abaixo!
A quem trai uma amizade,
Denúncia, bota-abaixo!

Quando pensam que te enganam
O que fazes?! Bota-abaixo!
Quando há nomes que te chamam
Fazes bem: bota-abaixo!

Fica longe da gentalha
Desses ninhos que é só lixo
Bota-abaixo essa canalha
Tu não queres nem papas disso!

Inserida por Eliot

⁠Filho do Passado -

E há silêncios na rua do meu medo
por entre as vagas ondas d'um Sol abrasador
e páira pelo ar o suspiro d'um segredo
deixando em quem lá passa desamor.

Sou na vida um deserdado sem esperança
um filho do Passado só e triste
Alguém que já perdeu a confiança
numa vida que não vive, só resiste.

Sou um filho da poesia, endiabrado,
a pausa entre as notas que faz a melodia
a memória d'um mendigo rejeitado
que vai matando a vida dia a dia.

Sou alguém qu'inda se lembra do ter sido
uma culpa que não tem pai, bastarda,
os olhos d'um desenganado, vencido
ou até o Pranto de Maria Parda.

Inserida por Eliot

⁠Nã passes tã fria -

Nã passes tã fria à minha igreja
Que me dexas triste, sem acção,
A conversa é forte, c'mas cerejas
Vê lá se cais num cagalhão!

Nã! Nã passes tã fria por alí
Que assim até perdes a razão
Anda, anda daí até aqui
Talvez, 'inda tenhas salvação!

Mas tu já não tens a salvação
Nas costas tens uma marreca
Só já te resta o cagalhão
E uma vida de pileca!

Inserida por Eliot

"⁠S. Miguel" perdeu a espada -

É mentira é mentira
É mentira o que ela diz
Aldrabona, mentirosa
Vê-se logo no nariz!

Interessou-se por alguém
Que eu não quis e não a quer
Muito pura, muito casta
Tinha fome, quis comer!

Ai coitada, pobrezinha
Foi p'ra Lagos e voltou
S. Miguel como previsto
Nem com um dedo lhe tocou!

Ou o Santo perdeu a ponta
Ou ela está desesperada ...
Mas todos sabem na verdade
Que o S. Miguel perdeu a Espada!

Será que o Santo é maricas
Ou a velha está usada?!
Destas velhas, destes Santos
É melhor não esperar nada ...

Inserida por Eliot

⁠Cobras Condenadas -

Quando se acredita em alguém
que diz ser verdadeiro
e grita amar-te a uma voz
não se percebe como vem
a calúnia e o mau cheiro
da mesma boca contra nós.

É mentira e nós não vemos
mas até desconfiamos
quando jura sempre em falso
dessa LAIA não seremos
e é por isso que deixamos
que se enterre passo-a-passo.

E depois quando te afastas
conta tudo à sua maneira
porque pensa que te enterra
o teu silêncio serão facas
porque a matas na fogueira
da mentira onde ela BERRA.

Essas cobras venenosas
com bom ar e elegância
que vagueiam por aí
morrerão todas ranhosas
do veneno e da ganância
que destilam contra ti.

Inserida por Eliot

⁠Hei-de rir-me -

Diz o povo e muito bem
Quem vê caras não vê corações
Mas o povo diz também
Que se apanham os aldrabões.

Quem vive alegre de traição
Ou de promessas sobre os Mortos
Há-de morrer do coração
Apodrecendo-lhe nos corpos.

Pobre gente da intriga
Cuja língua é veneno
São mais tristes que a lombriga
Que lhes vai no pensamento.

Hei-de rir-me dessa gente
Ao vê-los tristes por aí
Hei-de vê-los de repente
Caídos onde eu caí.

Inserida por Eliot

⁠Tem cuidado -

Tem cuidado com quem diz gostar de ti!
Muitas vezes é o tempo de criar
uma teia de mentiras aqui e ali
deixando-te à mercê de bocas sujas a falar.

Na verdade, de promessas está o inferno cheio,
de gente que por lá perde a sua Alma,
coitado de quem trái o bem alheio,
será abandonado por quem ama ...

E quem jura e rejura em falso, por seu mal,
nesta vida pagará essa mentira,
do inferno lhe há-de vir um catarral!

Nada mais há a dizer do que obrigado!
A roda do destino, não pára, sempre gira,
por isso, meus amigos, tenham cuidado.

Inserida por Eliot

⁠Tremores -

E eis que na solidão da praia deserta
Caem águas do meu triste olhar,
Mas essa água que me aperta
Não é menos que as águas do mar.

Não me lembro de existir dentro de mim
Algo maior que a palavra solidão,
Algo mais seco que a amargura d'um jardim
Plantado junto aos portais do coração.

Há uma noite enleada aos desejos de cada um,
Um grito, uma metáfora de saudade,
Uma vontade de comer que é jejum
Que a trazemos desde o berço por piedade.

E o que ser para além d'um silêncio sem destino?!
Um planeta sem elipse, uma curva,
Uma pedra só, pisada no caminho,
Um punhal numa fonte de água pura!

Inserida por Eliot

⁠Cegos de Amargura -

Às vezes procuramos o que temos
na iminência de inventar felicidade
e ali está, ao nosso lado, não a vemos,
cegos de amargura e de saudade!

Somos da História um filho do meio
à procura d'um lugar que não é nosso
procuramos o que temos, que já veio,
vida que respiro mas não toco!

É tão estranho estar vivo e parecer morto
estar alegre e sentir uma tristeza
que nos invade de lés-a-lés o corpo
deixando a Alma revestida d'incerteza!

Será loucura acreditar na felicidade?!
Será a felicidade feita de loucura?!
Nada existe sem um pouco de saudade
porque a saudade é feita de ternura ...

Inserida por Eliot

⁠Leme -

Na rua do meu silêncio
há um grito de saudade
é como o Céu tão cinzento
nos dias da tempestade.

Quando sopra qualquer vento
na minh'Alma há muita dor
pois na raiz do pensamento
sempre baila o nosso amor.

E no cais de qualquer porto
há sempre alguém que se demora
bailam saudades no meu corpo
como as dores de quem chora.

Alguém chora e não agarra
este meu sentir tão louco
sou como um barco sem amarra
que se afasta pouco a pouco.

Inserida por Eliot

⁠Barco antigo -

No cais da minha saudade
Atracou num barco antigo
Que julguei não ver jamais;
Um amor de pouca idade
Que o destino decepou
Em agrestes temporais.

A noite calou meu ser
Senti perto dor e perigo
Senti medo do passado;
Era o medo de te ver
Porque em mim nada mudou
Só a voz neste meu fado.

O barco chegou à praia
Fez-se perto aquele grito
Que deu voz ao alto mar;
E na proa que desmaia
Nesse barco que aportou
Vi um braço a acenar.

Nada trouxe de verdade
Afinal estava perdido
E nós ficámos iguais;
Do cais da minha saudade
Foi-se embora o barco antigo
Que julguei não ver jamais.

Inserida por Eliot

⁠Eu canto porque o meu canto é da cor
do sangue,
porque o meu sonho é maior que o mar
e porque a vida tem de cumprir-se!

Inserida por Eliot

⁠E outros dias virão!...
E com eles outros versos
menos amargurados, mais sentidos,
como pedras primeiras, bem alicerçadas,
na reconstrução de vidas destruídas!
A tristeza dos dias tumultuosos secará,
a fonte dos meus olhos minguará
e o poeta poderá enfim cantar...

Inserida por Eliot

⁠Praia Deserta -

Naquela praia deserta
deixei outrora um amor
e a solidão que me aperta
veste o meu corpo de dor.

Passou o tempo e a idade
naquela praia deserta
só não passou a saudade
que no meu peito me aperta.

O que ficou foi tão pouco
que tudo em mim se consome
gritei então como louco
gritei ao vento o teu nome.

Parti depois sem pensar
da solidão que me aperta
deixei meus olhos no mar
daquela praia deserta.

Inserida por Eliot

Desabafo sem medo -

⁠Eu canto porque o meu canto é da cor
do sangue,
porque o meu sonho é maior que o mar
e porque a vida tem de cumprir-se!

⁠E outros dias virão!...
E com eles outros versos
menos amargurados, mais sentidos,
como pedras primeiras, bem alicerçadas,
na reconstrução de vidas destruídas!

A tristeza dos dias tumultuosos secará,
a fonte dos meus olhos minguará
e o poeta poderá enfim cantar...

Inserida por Eliot

⁠CANTIGA DE ESCÁRNIO E MALDIZER:

Quando as tripas te doerem
Ou tiveres diarreia
O XANAX, é bom saberem,
Faz passar, é boa ideia!

Na farmácia Malagueira
A Crispina ao balcão
Dá XANAX p'ra cegueira
A quem vem com comixão.

Aos jantares de Natal
Só lá vão os coitadinhos
deixa estar que não faz mal
Serão sempre pobrezinhos.

Um XANAX, é bom saberem
Faz passar a diarreia
Quando as tripas te doerem
Bota-a-Baixo, é boa ideia.

Inserida por Eliot

⁠Um Piano na Sala -

Na solidão dos dias cansados,
num apanágio de silêncio,
há um Piano na Sala ...
O barulho das gentes
vai e vem e volta sem sentido!
Nos rostos cansados, severos,
que a parede proclama,
suspendem-se os gestos
de quem está.
No ar ... o Piano ... a musica ...
... a voz suspensa, calada,
dos estáticos homens
e a voz dos que vivem, sentem
e falam ... tudo no espaço
em torno do Piano!
Há Poesia no ar ...
E a musica ... sempre a musica
... união entre mundos!

Inserida por Eliot

⁠Dor sem rosto -

Sou na vida um filho triste
sou um pobre solitário
sem presente nem passado
a viver neste Calvário.

No silêncio dos meus olhos
inclinados para o chão
trago medos, deixo culpas
nos caminhos da paixão.

Desde a hora em que nasci
que a minh'Alma ferida canta
que o destino me enrolou
uma corda na garganta.

Na fraqueza dos meus braços
sobre o peso desta cruz
já não rezo, só já canto,
porque eu ó Bom Jesus?!

Pela Rua da Amargura
vou sofrendo sem falar
tantas vezes minha mãe
tu me vens aconchegar!

Inserida por Eliot

⁠Sino da Fome -

Quando se ouvem badaladas
Desse sino solitário
Fala a fome das consagradas
De Santa Helena do Calvário!

No silêncio da cláusura
Entre o dia e a penumbra
Grita o sino por ternura
Contra a fome que se apruma!

E as Trindades vão soando
E a fome vai batendo
Toca o sino de quando em quando
E à Abadessa vai morrendo!

E não há quem não pereça
Ao saber que num Sudário
Morre a última Abadessa
De Santa Helena do Calvário!

Inserida por Eliot

Conversão -

⁠É loucura não saber de onde se parte
sempre que se parte de algum lado,
para amar, precisamos de ter arte,
ser fortes p'ra fugir do que é errado!

Tantas vezes que afinal nos enganamos
com olhos que nos olham sem verdade
porque erradamente acreditamos
que esses olhos são olhos de saudade!

Deixa Deus falar-te ao ouvido
só Ele te pode encaminhar na vida
e mostrar-te qual é o teu sentido ...

Entrega em oração o teu penar
e abre o Coração a Esse Amigo,
pois Ele, jamais te irá abandonar!

Inserida por Eliot

⁠Aquela Cruz -

Lá no alto, aquela Cruz
tem um Cristo cansado;
pobrezinho, não tem luz
abandonado, ó Bom Jesus
por mal do nosso pecado!

E uma tão bela Mulher
chorando ao ver tanta dor;
disse, não posso viver
sem a vida me dizer
porque mataram o meu Senhor!

Tristemente Jesus morreu
numa tarde sem amor;
e uma voz se ouviu do Céu
vem a Mim ó Filho Meu
que esse mundo só traz dor!

E os homens desde então
por este gesto numa Cruz;
puderam ter em comunhão
a cada Passo da Paixão
o Corpo e Sangue de Jesus

Inserida por Eliot

⁠Fiz um poema -

Fiz um poema:

Rimei esperança com virtude
saudade com cegueira
distância com regresso
nada com vazio
e água com poeira!

Fiz um poema:

Rimei silêncio com amor
alegria com paixão
medo com pavor
e o teu olhar
com coração!

Inserida por Eliot

⁠(Des)Campanha politica -

Há p'las ruas da cidade
Muitas caras em cartazes
Uns sinceros, com verdade,
Outros disso tão incapazes!

Quem são uns ou quem são outros
Não me cabe a mim saber
Mas que saibam aqui todos
Há um ratado a bem d'zer!

Que haja ratos na cidade,
Já sabemos, teem manhas!
Mas comem por maldade
Os cartazes das campanhas?!

Ainda há uns impecáveis
Limpos, claros, sedutores,
Mas os mais indesejáveis
São rasgados por doutores!

Foi só um o maltratado!
Até um dente lhe faltou!
Mas quem seria o irritado
Que ao seu charme se curvou?!

Ora deixa lá Henrique
Que o teu nome já é Sim
Que este gesto prejudique
Quem traçou nele o seu fim!

Há muito que nesta Praça
Não se vê que haja Lei
O que irritou foi teres Graça
Só por teres o ar d'um Rei!

Inserida por Eliot