Northon Salomao

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Aquilo que pode ser pensado e aquilo cuja existência torna possível o pensamento encontram-se vinculados por uma relação ontológica que nenhuma retórica pode dissolver.

O ser não depende de nascimento ou extinção, porque aquilo que verdadeiramente é não pode surgir absolutamente do nada nem retornar absolutamente a ele.

Não há fundamento ontológico fora do ser, assim como não pode haver norma cuja validade dependa daquilo que absolutamente não existe.

O ser é uno, contínuo e indivisível: sua fragmentação pertence ao domínio das aparências, não à estrutura última da realidade.

Pensamento e ser não são estranhos entre si: toda pretensão de conhecer pressupõe alguma relação entre consciência e realidade.

O não-ser não pode ser conhecido como objeto, porque conhecê-lo já exigiria conceder-lhe algum modo de existência.

Não se pode converter logicamente o impossível em realidade por mera declaração de vontade.

Nascimento e destruição podem ser nomes humanos para transformações que, em nível ontológico, não implicam criação absoluta nem aniquilação absoluta.

A mudança percebida pelos sentidos não deve receber automaticamente autoridade superior àquela exercida pela razão.

A razão encontra-se diante de dois caminhos fundamentais: afirmar o ser ou tentar sustentar, contraditoriamente, a realidade do não-ser.

O hábito social não possui força suficiente para transformar aparência em verdade.

O ser permanece imóvel em sua essência porque nenhuma transformação fenomênica pode alterar aquilo que constitui sua condição ontológica fundamental.

Há quem não precise de inimigos: basta que a vida lhe coloque diante de alguém que lhe dispense o mesmo tratamento que oferece aos outros. Pois poucas experiências são tão dolorosas quanto descobrir, na consciência alheia, a crueldade que a própria consciência se recusava a reconhecer.

O preconceito não desaparece com a mudança de quem ocupa o lugar de poder; apenas revela que a opressão nunca pertenceu a uma cor, mas à consciência que transforma a própria história em licença para humilhar o outro.

Somos poeira de estrelas dotada de consciência: existimos por tempo limitado, mas somos capazes de questionar o universo, buscar sentido para a vida e reivindicar a liberdade de pensar, embora nem mesmo a razão nos liberte dos limites da nossa própria existência.

Cor, sabor e outras qualidades podem pertencer à esfera da percepção; a estrutura objetiva da realidade exige investigação para além da aparência sensível.

A felicidade não constitui consequência necessária da acumulação patrimonial, mas resultado da ordenação racional dos desejos.

Uma existência sem momentos de celebração pode conservar sua legalidade biológica e, ainda assim, perder sua legitimidade existencial.

Quem limita racionalmente seus desejos possui uma riqueza que o patrimônio, por si só, jamais garante.

É juridicamente mais racional eliminar as causas estruturais da injustiça do que multiplicar indefinidamente as sanções destinadas apenas aos seus efeitos.

A verdadeira coragem não consiste apenas em submeter adversários, mas em impedir que os próprios impulsos adquiram poder despótico sobre a razão.

Aquele que governa seus desejos exerce sobre si mesmo autoridade superior àquele que conquista territórios sem conseguir governar a própria vontade.

A insuficiência econômica não explica sozinha a pobreza existencial; frequentemente é o desejo ilimitado que transforma abundância em carência.

Aquele que pratica deliberadamente a injustiça corrompe sua própria ordem interior, podendo tornar-se mais miserável do que aquele que sofreu o dano.

O prazer juridicamente legítimo pela razão é aquele cuja satisfação não produz posteriormente uma cadeia desproporcional de sofrimento.