Northon Salomao
Em vez de invejar quem sabe mais, seria mais útil estudar até que a diferença deixasse de incomodar.
Invejar uma inteligência é reconhecer, silenciosamente, uma capacidade que ainda não se teve coragem de desenvolver.
A diferença entre admirar e invejar alguém inteligente está na decisão de transformar a admiração em estudo.
Enquanto alguns procuram diminuir quem sabe mais, outros procuram aprender até não precisarem mais se sentir menores.
A inteligência que incomoda pode ser uma ofensa ao ego ou um convite ao aperfeiçoamento. A escolha é de quem observa.
Pouco adianta invejar a mente que estudou durante anos quando se permanece parado diante dos próprios livros.
Quem inveja a inteligência alheia costuma desejar o resultado sem aceitar o preço intelectual que o produziu.
O talento alheio pode despertar ressentimento ou aprendizado. A diferença está na maturidade de quem o contempla.
Há pessoas que passam a vida questionando por que alguém sabe tanto, quando poderiam perguntar a si mesmas por que estudaram tão pouco.
Quem transforma a inveja em estudo deixa de competir com pessoas e começa a superar a própria ignorância.
Talvez uma das formas mais pobres de desperdiçar inteligência seja invejar quem decidiu desenvolvê-la.
A impossibilidade de demonstrar Deus não constitui prova de sua inexistência; apenas recorda à razão que, diante do transcendente, a dúvida pode ser intelectualmente mais honesta que a certeza.
Não demonstrar Deus não significa refutá-lo: entre a certeza da fé e a certeza da negação permanece o território epistemicamente mais honesto da dúvida, onde a razão, sem abdicar do rigor, ainda pode admitir a possibilidade de uma inteligência transcendente ou de um princípio ordenador do real. Se é que houve um princípio de tudo.
Talvez o maior erro metafísico seja imaginar que a existência precisou começar. Talvez o princípio não seja o início da realidade, mas apenas o limite da nossa capacidade de descrevê-la.
Se tudo precisa começar, quem começou o primeiro começo? Talvez a realidade seja justamente aquilo que não começou, e o nosso espanto diante disso seja apenas a dificuldade humana de imaginar uma existência sem primeiro capítulo.
Se tudo aquilo que existe precisa ter um começo, que começo deu origem ao primeiro começo? E, se houve uma causa primeira, por que ela própria não exigiria uma causa anterior? Talvez o paradoxo esteja em nossa própria pergunta: habituados ao tempo, pensamos a realidade como uma sucessão de capítulos e não conseguimos conceber um livro que jamais tenha começado. Talvez o ser não tenha uma origem, porque a origem seja apenas uma categoria da mente humana diante do insondável. E talvez o verdadeiro mistério do universo não seja descobrir onde tudo começou, mas compreender como chegamos a imaginar que necessariamente deveria haver um começo.
Se tudo o que começa exige uma causa, que causa poderia ter causado a primeira causa? E se essa causa primeira não começou, por que concedemos à realidade o direito de ser exceção apenas no ponto em que nossa razão já não consegue prosseguir? Talvez o erro esteja menos no universo do que na arquitetura de nossas perguntas: aprisionados à representação do tempo, projetamos sobre o ser a necessidade de um primeiro instante, como se o infinito devesse obrigatoriamente possuir uma porta de entrada.
Kant talvez nos lembrasse que procuramos além da experiência aquilo que nossas próprias categorias tornam inevitável pensar; Schopenhauer suspeitaria que confundimos a ordem de nossas representações com a estrutura última do real; Nietzsche talvez perguntasse por que nossa necessidade de um princípio absoluto não seria apenas a vontade humana de transformar o abismo em explicação.
Talvez, portanto, a realidade não tenha começado. Talvez começo e fim sejam apenas fronteiras que a consciência desenha sobre aquilo que, em si mesmo, não conhece fronteiras. O primeiro instante pode ser uma ficção necessária à nossa inteligência, mas não necessariamente uma propriedade do universo. E talvez o mais vertiginoso dos mistérios não seja saber quem iniciou a existência, mas admitir a possibilidade de que nunca tenha havido um primeiro capítulo, porque o próprio universo não seja uma história que começou, mas o enigma diante do qual a nossa necessidade de começo nasceu.
O ferro se deteriora pelo desuso, a água perde sua qualidade quando deixa de circular e a mente se enfraquece quando renuncia ao exercício da reflexão. O mesmo princípio alcança o Direito: aquilo que permanece absolutamente imóvel diante de uma realidade em transformação tende, com o tempo, à obsolescência.
Normas, instituições e interpretações não preservam sua legitimidade apenas pela permanência, mas pela capacidade de responder às novas configurações sociais sem romper com os princípios que lhes conferem fundamento. A estabilidade jurídica, portanto, não se confunde com imobilidade. Uma ordem jurídica verdadeiramente sólida é aquela capaz de evoluir sem perder sua identidade, adaptar-se sem abandonar seus valores e transformar-se sem comprometer a segurança que deve oferecer.
No Direito, conservar não significa impedir a mudança; significa saber quais princípios devem permanecer enquanto a realidade ao redor deles se transforma.
Eu tenho sérios poemas mentais: neles, a razão acende sua pequena lâmpada diante da imensidão do ser; não proclama Deus nem o nega, apenas recusa ajoelhar-se diante daquilo que não pode conhecer. Pois a liberdade do espírito começa quando a dúvida deixa de ser fraqueza e se torna método.
