Northon Salomao
Nada mais triste que um poeta feliz: pois quando a alma já não encontra abismos em que lançar sua luz, a poesia começa a morrer. Talvez o poeta precise de alguma ferida que não cicatrize, não para sofrer, mas para transformar o sofrimento em forma, e a falta em vontade de criar.
Cada um com seus poemas: há quem escreva para suportar o mundo, quem pense para transformá-lo e quem carregue no silêncio versos que jamais encontrará coragem de pronunciar. Talvez viver seja isso: inventar alguma forma de sentido para o que a existência não se deu ao trabalho de explicar.
Se todo começo exige uma causa, o primeiro começo é a única coisa que não pode começar; talvez o paradoxo não esteja no universo, mas na exigência humana de que tudo tenha uma origem.
Perguntar quem criou o primeiro criador é levar a causalidade até o ponto em que ela revela seu próprio abismo: se tudo precisa de uma causa, nada pode ser a primeira causa.
Talvez o universo não tenha um primeiro instante; talvez seja a nossa consciência, aprisionada ao tempo, que transforma a eternidade em uma sequência de acontecimentos.
A razão procura a primeira pedra da realidade, sem perceber que talvez esteja tentando construir um fundamento para aquilo que não possui chão.
O infinito não precisa de uma porta de entrada; quem exige uma primeira porta talvez esteja apenas confundindo a arquitetura da mente com a arquitetura do universo.
Nossa inteligência suporta melhor o absurdo de uma causa primeira do que a vertigem de uma realidade sem primeira causa.
Talvez a pergunta mais filosófica não seja ‘quem criou o universo?’, mas ‘por que nossa razão sente necessidade de que exista alguém ou algo que o tenha criado?
No limite da metafísica, duas possibilidades permanecem igualmente vertiginosas: que algo eterno exista sem jamais ter começado, ou que a própria realidade tenha surgido de um princípio que nossa linguagem ainda não sabe conceber. Em ambos os casos, o abismo permanece; apenas mudamos o nome que damos à sua escuridão.
Compreender profundamente uma coisa exige atravessar as fronteiras entre várias formas de conhecimento.
Compreender profundamente uma coisa é atravessar as fronteiras do conhecimento até descobrir que aquilo que parecia separado pertence, muitas vezes, à mesma arquitetura invisível.
Há mundos inteiros contidos em uma única estrutura; compreendê-la verdadeiramente exige atravessar as fronteiras entre suas partes e descobrir, na diversidade que as constitui, a unidade que silenciosamente as conecta.
Compreender verdadeiramente uma realidade exige atravessar as fronteiras artificiais entre os campos do saber e reconhecer, na diversidade dos conhecimentos, a unidade profunda que os atravessa.
Não se trata de saber muitas coisas, mas de descobrir aquilo que permanece invisível quando cada coisa é examinada isoladamente.
A realidade não conhece as fronteiras que as disciplinas inventaram; compreendê-la exige atravessá-las.
A privatização juridicamente legítima não se mede pela quantidade de patrimônio público que se transfere, mas pela compatibilidade entre a transferência realizada, a finalidade constitucional preservada e o procedimento que autorizou sua realização.
Às vezes penso que o universo é a grande obra e que nós, em nossa pretensão de compreendê-lo e dominá-lo, somos apenas a erva daninha que cresceu dentro dela.
A paixão é própria da juventude, quando o desejo ainda confunde intensidade com destino; com o passar dos anos, espera-se que a experiência transforme o fogo em discernimento e ensine que nem todo incêndio merece ser alimentado.
A realidade não se curva à narrativa que construímos sobre nós mesmos; cedo ou tarde, ela cobra evidências.
Quem confunde desejo com merecimento transforma a própria frustração em teoria sobre a injustiça do mundo.
A atração pode ser influenciada por valores, caráter e inteligência, mas jamais será inteiramente governada pela razão. O desejo possui sua própria jurisprudência.
O homem que precisa convencer alguém de seu valor já começou a negociação em posição de dependência.
Status é uma linguagem social silenciosa: antes que alguém conheça profundamente nossa história, o mundo frequentemente interpreta os sinais exteriores dela.
