Northon Salomao

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Confundir gentileza com obrigação é uma das formas mais discretas de fabricar ressentimento.

O desejo não funciona como tribunal moral: alguém pode ser excelente e ainda assim não ser desejado.

A rejeição raramente é uma sentença sobre o valor absoluto de alguém; frequentemente é apenas incompatibilidade entre dois sistemas de desejo.

Quem transforma toda rejeição em ofensa demonstra que ainda acredita possuir direito sobre aquilo que nunca lhe pertenceu.

A realidade afetiva é menos democrática do que gostaríamos: ninguém é obrigado a desejar aquilo que consideramos desejável.

O homem que trabalha obsessivamente para parecer superior continua dependente daqueles diante de quem precisa parecer superior.

A verdadeira confiança não exige demonstração permanente; ela permanece de pé mesmo quando ninguém está olhando.

Quem conhece seus próprios limites negocia melhor porque não precisa aceitar qualquer preço para evitar a perda.

Aquele que precisa ser escolhido para sentir-se valioso já entregou ao acaso o governo de sua própria dignidade.

A solitude não é o vazio entre dois relacionamentos; pode ser o espaço em que o indivíduo finalmente escuta a própria voz sem a interferência das expectativas alheias.

Há homens que temem a solidão porque jamais descobriram que a própria consciência pode ser uma companhia intelectualmente inesgotável.

Quem não consegue permanecer consigo mesmo frequentemente procura no amor uma anestesia para perguntas que deveriam ser enfrentadas em silêncio.

O homem que teme profundamente ser abandonado pode acabar abandonando a própria autonomia antes mesmo que alguém o abandone.

Existem prisões sem grades construídas com aprovação, expectativa, culpa e medo de decepcionar.

A sociedade chama de fracasso aquilo que simplesmente não cabe em sua estatística de normalidade.

Nem toda ausência precisa ser preenchida; algumas ausências são espaços necessários para que a identidade respire.

Quem transforma outra pessoa em seu centro gravitacional aceita, sem perceber, que sua própria órbita seja determinada por uma vontade que não controla.

O amor é mais livre quando duas pessoas poderiam partir, mas escolhem permanecer.

Há uma diferença entre desejar companhia e temer a própria companhia; confundi-las é transformar carência em filosofia.

Nenhuma pessoa deveria ser transformada em remédio para uma doença existencial que não provocou.

Aquele que constrói uma vida interessante não precisa transformar o relacionamento em seu único acontecimento extraordinário.

O tempo revela uma verdade incômoda: aquilo que parecia indispensável muitas vezes era apenas aquilo a que estávamos habituados.

Ser livre não significa não precisar de ninguém; significa não precisar trair a própria consciência para que alguém permaneça.

O medo da solidão frequentemente produz relações que tornam a solidão ainda mais profunda.

A maturidade afetiva começa quando deixamos de perguntar “quem me salvará?” e começamos a perguntar “que vida estou construindo?”