Se tudo o que começa exige uma causa,... Northon Salomão de Oliveira
Se tudo o que começa exige uma causa, que causa poderia ter causado a primeira causa? E se essa causa primeira não começou, por que concedemos à realidade o direito de ser exceção apenas no ponto em que nossa razão já não consegue prosseguir? Talvez o erro esteja menos no universo do que na arquitetura de nossas perguntas: aprisionados à representação do tempo, projetamos sobre o ser a necessidade de um primeiro instante, como se o infinito devesse obrigatoriamente possuir uma porta de entrada.
Kant talvez nos lembrasse que procuramos além da experiência aquilo que nossas próprias categorias tornam inevitável pensar; Schopenhauer suspeitaria que confundimos a ordem de nossas representações com a estrutura última do real; Nietzsche talvez perguntasse por que nossa necessidade de um princípio absoluto não seria apenas a vontade humana de transformar o abismo em explicação.
Talvez, portanto, a realidade não tenha começado. Talvez começo e fim sejam apenas fronteiras que a consciência desenha sobre aquilo que, em si mesmo, não conhece fronteiras. O primeiro instante pode ser uma ficção necessária à nossa inteligência, mas não necessariamente uma propriedade do universo. E talvez o mais vertiginoso dos mistérios não seja saber quem iniciou a existência, mas admitir a possibilidade de que nunca tenha havido um primeiro capítulo, porque o próprio universo não seja uma história que começou, mas o enigma diante do qual a nossa necessidade de começo nasceu.
