PLANEJAR É RESPEITAR QUEM VOLTOU... Eraldo Cunha
PLANEJAR É RESPEITAR QUEM VOLTOU
Planejar aula para criança é importante.
Planejar aula para aluno da EJA é um ato de respeito.
O aluno da EJA não é obrigado a estar aqui. Ele escolheu estar. Ou veio porque foi "forçado" pelos mais diversos fatores.
Ele já trabalhou o dia todo. Ele deixou o filho com a vizinha. Ele se deslocou de longe. Ele venceu a vergonha de voltar a estudar depois de anos. Ele está cansado e, mesmo assim, ele veio.
Quando a gente entra sem planejar, com a aula improvisada só no piloto e no quadro, sem pensar nele, o que a gente está dizendo, sem falar, é: "O seu esforço para vir não valeu o meu esforço para preparar." E, infelizmente, o aluno da EJA nota, com exatidão, quem faz e como faz. E ele percebe.
O aluno da EJA percebe tudo. Ele pode não saber as fórmulas complexas de matemática, mas ele sabe quando foi respeitado e quando foi enrolado.
Planejar para a EJA não é preencher papel. É responder a três perguntas antes de entrar em sala:
A) O que da minha aula serve para a vida dele amanhã de manhã?
Se eu vou ensinar porcentagem, por exemplo, como isso ajuda ele a não ser enganado no mercado, no empréstimo, na venda da sua produção?
B) Ele vai participar das atividades ou vai ser só ouvinte? Ele coloca a mão na "massa" também?
Adulto não aprende só ouvindo. Ele aprende fazendo, falando, medindo, calculando o seu próprio salário, a sua própria roça, a sua própria receita. Se ele só copiou, ele não aprendeu.
C) O que eu vou fazer se ele não entender?
Porque, na maioria dos casos, ele vai ter vergonha de dizer "não entendi". O planejamento já precisa ter o plano B, com outra explicação, com um exemplo mais simples, mais perto da realidade dele.
Professor da EJA, o seu caderno de planejamento não é um documento para a secretaria. É o mapa do caminho de alguém que confiou em você para recomeçar.
Improvisar é até humano, todos nós improvisamos um dia. E, às vezes, a realidade nos impõe a fazer caminhos diferentes do que foi traçado.
Mas viver improvisando na EJA é dizer para aquele pai, para aquela mãe, para aquele jovem trabalhador: "O seu sonho pode esperar, porque eu não tive tempo de pensar nele."
Planejar é o contrário. É dizer: "Eu pensei em você antes mesmo de você chegar. Eu preparei essa aula pensando no seu cansaço, no seu trabalho e no seu sonho de terminar os estudos."
Quando você entrar na sala, antes de abrir o livro, abra a história da sua turma.
Planejar é isto: transformar conteúdo em esperança.
E esperança, para quem voltou a estudar, vale mais que qualquer conteúdo.
Por fim: não somos forçados a fazer "muito", mas o que nos dispomos a fazer, que seja feito como se fosse para nós, nosso filho, para a pessoa de quem mais gostamos. Nosso aluno só leva da escola o conhecimento que conseguiu produzir. Tudo, além disso, fica impregnado no papel, nos protocolos, em documentos.
