R E C O N S T R U I N D O A cidade... Eraldo Cunha

R E C O N S T R U I N D O


A cidade estava toda pronta para uma noite de Natal iluminada.
O clima era de festa completa. O comércio cheio, as ruas lotadas, o povo indo e vindo com sacolas nas mãos, com aquela pressa boa de quem quer celebrar. Ninguém sabia o que estava por vir após o anoitecer.
Anoiteceu. Jiquiriçá acendeu suas luzes. Em cada casa, a mesa quase posta, a ceia quase pronta.
Já era quase à meia-noite quando a chuva começou. Ela veio sem pedir licença, sem dar tempo para pensar.
A água rompeu as ruas com fúria, engolindo tudo pela frente. O que até então era chão firme e seguro, de repente virou mar.
A alegria virou pranto num instante. Lares foram largados para trás no escuro e inundados. Gente em disparada, com o que coube nas mãos, buscando um ponto mais alto para se abrigar naquela madrugada.
Do alto, abrigados como deu, vimos nossas casas tombarem. E não era só parede caindo. Era uma vida inteira boiando. O retrato da formatura, a geladeira a prazo, o suor de anos, tudo se perdeu rapidamente.
Naquela virada, o brilho do Natal se apagou no lamaçal.
A perda foi sem medida. Aquilo abalou profundamente nosso povo e fez Jiquiriçá chorar.
Os dias que se sucederam foram duros, de muita luta e labuta, mas nada nos abalou. A vida sempre teima em não parar, e nós estamos firmes nessa luta que é de todos.
E é com fé, suor, garra e com a força de quem vive aqui que estamos reconstruindo, tijolo por tijolo.
Não está longe o dia em que a veremos renascida, mais iluminada, mais bonita do que nunca, a nossa querida Jiquiriçá.


Eraldo Cunha