Amor entre Almas
Numa corrida entre os manuscritos da antiguidade, o Novo Testamento não vence por metros, vence por dias.
O nascimento abre os olhos. A morte fecha as pálpebras. Entre um e outro existe a oportunidade de amar, aprender, servir, perdoar e deixar um pouco de luz no caminho dos que vêm depois.
A vida é o intervalo sagrado entre o nascimento e a morte, uma oportunidade de lapidar a alma até que ela esteja pronta para regressar à Fonte de onde veio.
Entre o Toque e o Adeus
Sentir você tão perto.
Sentir o calor da sua pele.
Sentir o leve tremor das suas mãos.
Sentir o desejo que transborda do teu olhar.
Diz-me,
como isso não pode ser paixão?
Ou amor...
quem sabe.
Poderia ser uma cor,
qualquer uma,
desde que deixasse de ser
esse mundo em branco e preto.
Poderíamos criar um vermelho
que existisse apenas para nós.
Então você me beija,
me toca,
e, logo depois,
diz que não posso ser sua.
Se é assim,
por que continua alimentando
o que sabe que não pode florescer?
Eu te amo
para além do teu corpo.
Mas você...
Será que ama apenas o meu?
Que as luzes iluminem o breu que és,
A solidão consome da cabeça aos pés.
Vive entre tantas aspas, manipulando ao seu favor,
Sofro com meu vazio, não com vontade de me sobrepor.
Poderia me dizer que sou o mal gosto,
Que eu sou idiota que te fez um esboço,
De uma princesa que sonhava ser,
Apaixonada no príncipe que poderia ter.
Mas suas fantasias eram tão venenosas,
Sufocaram os cabelos que eram vossas...
Beleza, natureza, tristeza ter acabado assim,
Por algo ter tanto sofrimento, tem que haver fim.
Eu não sei de muita coisa
Não sei de mais nada afinal
Corrompi minha fé em busca de um final
Tão feliz que me faria sentir flores na barriga
Mas as abelhas já voaram pra longe
O vento não sopra tão suave
Da poluição perfeita, há um monte
Com o cheiro das flores abatendo sua falha
Poderia me lamentar todo o santo dia
Mas você se tornou o que odiaria
Vou deixar você sonhar, pequena
Eu que sou o problema, afinal.
Deitado no terraço, que mais parece um navio, navego entre as estrelas sem definir um caminho. O olhar é como um farol refletindo a luz celestial, que chega a mudar o brilho e nos empresta uma nova forma de olhar. Céu desconhecido, abstrato faz-nos interrogar tudo o que há no espaço. Mas a verdade é que nesse momento coloco-me a sonhar e admirar, permaneço estático e continuo a contemplar o céu de Tangará...
entre as nuvens e as estrelas,
a música é o som vivo da natureza,
enquanto a fogueira e o bom vinho aquecem a noite inteira ...
#bysissym
No silêncio entre dois corpos nasce um campo magnético,
onde cada gesto é promessa
e cada respiração é caminho.
A pele torna‑se horizonte,
o olhar, uma mão invisível,
e o tempo verga‑se como tecido húmido à espera de ser moldado.
Há um tremor que não é físico,
uma vertigem que não é carnal,
mas que acende o coração
como se fosse chama a acender
as constelações da alma.
E quando o silêncio desaparece,
os gemidos tornam-se linguagem.
E o ar entre nós torna‑se incenso,
lento, quente, vivo.
Uma língua feita de luz,
que só dois sabem ler.
Uma liturgia de sombra e claridade,
onde duas almas se reconhecem.
Entre a ideia e a sua realização existe uma travessia solitária: momentos de perda, de silêncio e, no meio disso, um encontro consigo mesmo. Porque às vezes, para executar um sonho, precisamos nos reinventar, e nos tornar outra pessoa.
Entre todos os tormentos que a alma humana pode suportar, não há nada mais dilacerante do que ver-se privado daquilo que deveria estar ao seu alcance. Contudo, mais cruel ainda é ser rejeitado, expulso, traído... justamente por aqueles que um dia juraram ser o porto seguro ao qual eu recorreria em minha hora de maior necessidade. Essa ferida não apenas consome o coração — ela desperta a chama da revolta.
O Visitante
Há quem entre
sem fazer barulho.
E, ainda assim,
desorganize a casa inteira.
Toca nas paredes,
elogia a luz,
senta à mesa,
fala como quem pretende ficar.
Depois rareia.
Não vai embora de uma vez.
Seria honesto demais.
Vai sumindo aos poucos,
como quem espera
que o silêncio faça o trabalho
sujo.
A casa observa.
Não cobra.
Não chama.
Não implora.
Só aprende.
Porque há presenças
que não quebram nada,
mas deixam tudo mais frio.
E no fim,
o que pesa não é a partida.
É lembrar que alguém soube
entrar
e ainda assim
não teve coragem de
permanecer.
Entre marés e silêncios,
cada criança, cada jovem,
aprende a navegar.
E quando encontra acolhimento,
descobre que pode florescer
mesmo em meio ao mar.
“Nem sempre vemos quem está a cuidar,
mas sentimos quando alguém decide ajudar.
Entre sombras e passos, há mãos que acolhem,
e caminhos que, com carinho, se escolhem.”
Entre raízes antigas e o silêncio das folhas, encontrei um lugar para respirar.
Ali, meus pensamentos não precisavam correr, nem minhas decisões tinham prazo.
A vida, como aquela árvore, me ensinava em silêncio:
tudo cresce no seu tempo, tudo se sustenta naquilo que cria raízes.
E talvez, naquele instante, eu não precisasse escolher…
apenas confiar que, como a natureza, eu também saberia o caminho.
A Herança do Silêncio
Nasci entre multidões,
todavia jamais encontrei morada.
As vozes entrelaçavam-se em incessante rumor,
mas nenhuma aspirava ao peso das ideias.
Celebravam efêmeros esplendores,
como se o transitório bastasse à existência;
enquanto a contemplação, a filosofia
e a memória das civilizações
definhavam na penumbra do esquecimento.
Percorri incontáveis caminhos
em busca de um destino compartilhado,
sedento pelo mistério das origens,
pela arquitetura do pensamento,
pela grandeza que transcende o instante.
Encontrei apenas superfícies.
Sorrisos sem permanência.
Palavras sem substância.
Encontros destituídos de comunhão.
Descobri, então,
que a mais severa das solidões
não floresce na ausência de companhia.
Ela habita a convivência
quando nenhum destino
alcança a profundidade do outro.
Minha morada converteu-se em refúgio.
A cidade tornou-se território estranho.
E até o vínculo consanguíneo
passou a recordar um antigo monumento:
permanece erguido,
mas há muito deixou de ser habitado.
À mesa, os corpos persistem;
os afetos, contudo, dissipam-se
na sucessão das horas indiferentes.
Cada qual encerra-se
na fortaleza invisível de si mesmo,
onde nenhuma palavra atravessa os muros
e nenhum silêncio encontra tradução.
Compreendi, por fim,
que o verdadeiro exílio
não se mede em léguas,
nem se escreve nos mapas.
Ele principia
quando o destino já não encontra
outro destino capaz de partilhar
a mesma reverência pelo conhecimento,
pela beleza,
pela reflexão
e pelo infinito.
Desde então, caminho.
Não à procura de um lugar,
pois os lugares pertencem ao mundo.
Procuro um destino
no qual o pensamento
não seja estrangeiro.
E enquanto ele não se revela,
permaneço habitando
a mais vasta das distâncias:
aquela que separa
dois destinos incapazes
de reconhecer-se.
