Agradecimento ao Mestre
"Esteja muito bem preparado, pois precisarás trilhar seu caminho sozinho. Seu mestre somente poderá lhe apontar a direção correta."
Aristóteles afirmava: "O verdadeiro discípulo é aquele que supera o mestre". Leonardo da Vinci seguia a mesmo entendimento ao dizer: " Lastimável discípulo que não ultrapassa o mestre". Tudo é muito bonito e possível quando o mestre não é Jesus.
Quando o fardo for pesado,
E a alma cansada estiver,
Lembra-te do Mestre amado,
Que convida a quem quer.
"Vinde a Mim", Ele chama,
"Aos cansados darei paz."
Não é o mundo que acalma,
Só Jesus nos satisfaz.
Chorava Maria ao romper da manhã,
com o coração em pedaços, sem saber onde Ele está.
O Mestre, o Amado, o Libertador,
parecia ter ido embora, deixando só a dor.
Jesus, meu Mestre, estar assentado aos teus pés é melhor do que ocupar o mais soberano trono da terra, pois ali se está entronizado para sempre no teu reino eterno.
O Senhor Jesus ensina que só Deus é Pai e Cristo é Mestre. Nenhum líder, político, pastor ou papa deve ocupar essa posição. No Reino de Deus, quem serve é o maior.
Mateus 23:9-11
O tempo é um mestre tardio, só entrega respostas quando já não há perguntas, cura quando a dor já foi assimilada e oferece lições quando já não há mais como aplicá-las. Sua sabedoria chega sempre depois da necessidade.
NeiVes, o mestre artista, filho de Bernardina e de Ramon Batista. Guardião de saberes ancestrais, consagrado em grandes carnavais como um grande intérprete, ensaiador e ritmista. O sopapo, seu tambor-rei, regia o samba. Na General Telles, o maior, o mais bamba. Na Estação Primeira, mostrou ao povo como se faz um carnaval. Na Academia do Samba, não precisavam perguntar: "Quem é você? Quem é você?" Todo mundo o conhecia, e quem não conhecia vai agora conhecer. Lançou seu primeiro samba ainda no quartel, sobre os grandes Lanceiros Negros. Merecia um troféu! Queria tê-lo ouvido tocar ao som envolvente do tambor-rei, instrumento com o qual me encantei.Samba com nome único, ritmado com o coração, homenagem aos companheiros de farda: O Segundo Esquadrão. Retratava bravos guerreiros, uma grande famíliana linha de frente da Revolução Farroupilha.Um paralelo entre ele e o antigo esquadrão escravizado, montados em cavalos e de lança na mão, no passado. Hoje não lutamos com lança, mas há uma esperança pra quem ainda acredita na educação. Já dizia uma amiga minha: "Salvem a professorinha! Salvem a professorinha!" Quase uma analogia do antes e do agora, diante das batalhas, com promessas ilusórias,onde só vejo luta e nada de glória. Presidente da Academia no campeonato de oitenta e sete, época boa em que a cadência do samba batia no ritmo do coração, com fervor. Ao som do sopapo ensurdecedor, que o peito refletia e reflete.Pode acreditar: ele ainda é manchete! Nasceu com o dom de ver gente morta. Com que frequência? Todo o tempo. O que para ele e seus pais era um tormento. Seus pais diziam que era coisa do demônio aquilo que ele via. Depois ele cresceu e disse: "Assim como o Papai Noel, o Diabo não existe".
Nasceu e cresceu rodeado pela espiritualidade, com a proteção dos pretos-velhos e orixás, os quais traziam à tona a sua mediunidade. Através dela, resgatou o sopapo esquecido nos porões da cidade. Mas não foi sozinho: levou consigo sua ancestralidade. O trabalho da vida, motivo de felicidade, contrastando com o sofrimento ao ver o sopapo ser substituído pelo surdo de terceira. Restando o lamento... Seria o fim de carreira daquele que ecoou na Telles, Academia e Estação Primeira? Não! Graças ao griô que acreditou no tambor que atravessou fronteiras.Trazendo à tona o verdadeiro som que eleva a alma e que satisfaz: o do sopapo que dá vida à
sonoridade sagrada dos orixás. Instrumento ancestral de negros escravizados, para o Mestre Batista, todo sopapo é sagrado.Usado na religião, atravessou fronteiras, feito de muitas madeiras e de couro animal oriundo do abate. Hoje o instrumento venceu barreiras, tornou-se contemporâneo graças a grandes debates. Sua arte virou pública, chamava a atenção por sua sonoridade grave e única. Segundo o próprio mestre, era instrumento versátil e de grandiosa percussão. Feito nas senzalas e nos cativeiros das charqueadas, pelo suor das mãos calejadas no tempo da escravidão,versando da valsa ao tango... E, assim que foi para o carnaval, virou objeto profano. Hoje se usa a invenção de Graham Bell,mas, antigamente, o sopapo mandava mensagem pelo ar,com o toque do tambor como se fosse um cordel, com avisos de orixás que ecoavam no céu.O mestre foi uma joia rara. Fundou o Filhos de Zumbi, hoje Odara.Fez parte do Cabobu, idealizado por Giba Giba, com o qual teve forte ligação. Giba Giba tinha uma mente coletiva e viva; para o Mestre Batista, era um anarquista, um guardião.Seu ensinamento ainda ecoa, eternizado também no Museu da Pessoa. Multitarefa: além da forte ligação com o carnaval, foi ajudante de pedreiro, taxista e oleiro, deixou sua marca na Vidraçaria Ideal e Cruzeiro.Abençoado em tudo o que desempenhou, foi motorista na Nossa Senhora da Penha, onde se aposentou. A sabedoria lhe pertencia e o consagrou, eternizado com saudosa alegria para sempre no coração de Dona Maria.Deixou seus ensinamentos ao grande luthier, seu filho, Mestre José,pois sabemos bem que filho de guerreiro, guerreiro também é. Como dizia Mestre Batista: "Tudo que se refere à cultura me agrada. Sou negra em movimento e feliz".E, como ele, sigo a minha estrada, amando o som do tambor como uma aprendiz. Mestre que em vida brilhou, recebendo em 2008 o título de Mestre Griô.Guardião sagrado da memória oral, do samba e da luteria do tambor do sopapo,tendo reconhecimento oficial, pois era a cultura viva da Ação Griô Nacional. Não é sobre o tambor em si, é sobre aquilo que tem no sopapo e que se sente. É algo que envolve toda a gente. É energia viva, ancestral e latente.
Se em algum momento você não soube se eu falava do sopapo ou do Mestre Batista,você também já pode recontar a história desse artista.
