A Inteligencia Nao se Mede
O que é solidão?
Eu não sei... está tudo tão escuro, tão silencioso.
Saudades?
eu tenho da saudade que eu tinha...
e agora eu não tenho mais.
o que eu sinto agora não tem nome,
não tem referência... é longe do longe,
vazio no vazio, frio no frio e indiferente
Sua referência é referência nenhuma;
solidão? eu não sei...
está tudo tão escuro, tão silencioso
pelo menos até que júpiter cante anunciando a matina...
CAMBAXIRRA
Não existe vida sem poesia...
Sem vida não existe
amor, paixão e fantasia
sem água e ar a gente repousaria...
mas sem poesia aonde esta ave pousaria?
Sabe, não sou o que se sabe por aí...
melhor nem saber
mas se o mundo se acabar
eu vou me equilibrar na linha do horizonte
entre o absurdo e o navegável
como as ilusões...
Só vive na solidão quem já amou,
quem nunca amou é apenas solitário,
e isso não dói...
só sabe o que é amargo quem já provou o doce,
quem nunca provou não sabe de sabores;
então o que é felicidade...
felicidade é esse gosto amargo
de saber que já foi feliz um dia...
e isso dói
então, nunca seremos felizes?
seremos... com netos, rugas e cabelos brancos...
mas isto é inexplicável...
Eu ainda não me entendo,
como pedir compreensão;
ainda não me percebo,
como pedir crepúsculos,
ainda não sei o que é amor,
onde e quando o amor faz bem ou mal,
a beleza se perde no fascínio de olhar,
mas perceber e intuir desencanta;
não é a solidão que nos faz sós,
somos nós solitários que fazemos a solidão,
então inventamos os ocasos
e tudo o que é inatingível como o horizonte;
o outro lado do rio é sempre o mais belo,
no outo lado da montanha é onde o sol se põe;
a terra prometida estará sempre
depois de algum deserto...
mas onde estaremos quando percebermos
o deserto que nos habita o ser?
Talvez não seja tão coerente ser coerente
talvez não seja feliz sermos contentes
talvez não seja humano ser gente
De vez em quando temos
que ter a presteza dos equinos
a leveza dos pássaros
a ternura dos cães...
Salvo: Ter, 08/06/2021 12:38
Aproveite a noite se não for amor, se for amor, aproveite a noite, durma bem e sonhe com os anjos, certamente ela me diria isso; essa pessoa existe e certamente anda por aí pelas praças; contemplando os jardins e fontes e observando os bustos e catedrais. Essa pessoa existe; é romântica e sonhadora, gosta de poesia, deve ter lido muito fotonovela, livrinhos de faroeste e contraespionagem ou talvez não tenha tido essa sorte de alcançar este tempo, mas assistiu muito novelas e deve ter chorado com a dor de seus personagens preferidos e com a saudade deles quando essas novelas se acabavam. A poesia está no seu olhar, nas suas palavras, ela respira poesia e provavelmente chora com certas cenas de filmes, trechos de livros e da vida real e certamente se deprima com a destruição da fauna e da flora. Essa pessoa caminha pelos bosques e se encanta com o canto das aves e sofre com o extermínio dos índios; tem um nome exótico, que nos remeta às lembranças de nascente e poentes, às vertiginosas altitudes que formam vales românticos que sopram brisas suaves nas tardes mornas, silenciosas e aconchegantes, por onde certamente corram boatos de extraterrestres e seus discos voadores reluzentes. Essa pessoa cantarola no banheiro músicas românticas como se fossem trilhas sonoras de momentos inesquecíveis de sua vida ou de momentos que ela imagina no futuro, sonha e sente saudade de pessoas, da ingenuidade do passado, pipas, bolas de gude, petecas, bolas de meia; entes queridos que partiram, dos que foram embora, dos que disseram adeus, dos que sumiram e se perderam na sua indiferença. Você que espera alguém, saiba que essa pessoa existe; você que só aproveita a noite porque ainda não se encontrou nos seus abraços, você que nem sabe que espera porque se acomodou com as garrafinhas de cerveja e administra atitudes agressivas de palavras ríspidas, essa pessoa existe e é alguém que você pode falar dos seus sonhos, dos seus erros dos seus tropeços; alguém que você vai poder olhar nos olhos, e apesar de todo tempo perdido ainda vai te restar uma eternidade para ser vivida, mesmo que só te reste um dia para viver.
As lembranças são lindas,
As saudades são belas;
As lembranças não envelhecem,
As saudades não decepcionam
CRIADO MUDO
Alguma coisa deve mudar de hoje em diante, os fantasmas que vejo é Mentira... não somos tão solitários assim, eu e meus eus distintos,
Às vezes sou velho, às vezes num berço, embalo o tempo da inconsciência
Às vezes morro de saudade do meu eu menino
Mas nada disso é motivo ou explica nossas dores
Os corredores silentes passeiam nossos fantasmas,
Que cobram por desilusões e murmuram antigos amores
Alguma coisa deve mudar de hoje em diante
Vovó se espreguiça sobre a cama como se o tempo
Lhe esticasse sem dó suas canelas depois de levar o seu juízo
E sobre o criado mudo a dor revela, próteses que já foram seu sorriso
não posso mais te olhar como o céu, a noite e as estrelas, agora outra imensidão me preenche e os raios da manhã dourando a tua silhueta na calçada me faz imaginar que o infinito é o espaço ínfimo entre teus olhos, teu sorriso e tua boca... sei que essa viagem é longa e a eternidade é feita de segundos, mas onde estarei na ausência do teu abraço, a eternidade é tão lacônica e a brevidade das ilusões sussurra nas brisas matinais... não posso mais te olhar como um luar que morre nos primeiros raios da manha; este sentir me ensinou pra sempre que pra sempre é sentir assim... as aflições que conduzem a noite trazem a serenidade que nos ensina a esperar, é isso que chamam de esperança. ah, este sentimento esquisito de sentir as estações como se pudéssemos manusear o tempo... o tempo bate portas, colore as florestas, descolore as nossas cãs em busca de horizontes, mas essa ilusão que acolhe nossos olhares é só um tema poético batido, surrado e de validade prestes a vencer. quero caminhar por uma trilha que me conduza sempre a tua presença
Eu não sei se sou triste
ou se é só mais uma ilusão que eu alimento,
mas esta felicidade ninguém tira de mim...
NÓS, VÓS, ELES
A minha solidão é tão sozinha,
não é só minha essa paixão,
a dor de existir é só uma ilusão,
ávida como a vida...
a minha solidão não é só minha,
se avizinha a solidão de todo mundo,
a solidão de toda multidão
quando não tenho nada,
tenho tudo de que preciso,
quando preciso de tudo, nada tenho;
mas o que me levará
a tal necessidade de existir;
quando só o fato de existir
já me traz tantas necessidades...
Acho que não tive, antes que me vissem daquele jeito, a oportunidade de falar-lhes de madrepérola. Agora ela estava ali pendurada num armador de redes, eles ao meu redor e eu sem voz para contar-lhes de como fomos felizes. Ah, quem pode entender todos os mistérios do mar, suas profundidades, suas essências; tudo isso se refletia na alma de Doralice. Agora eu estava ali sob o olhar penalizado dos meus entes mais queridos; lacrimejavam, sussurravam coisas que eu não conseguia ouvir direito, mas que eu supunha perfeitamente. O mogno de minha bengala à minha cabeceira mirava a perfeição de madrepérola, sabíamos desse encanto e sua verdadeira recíproca; quantas vezes empunhei o lenho quando o meu corpo oscilava nas minhas debilidades. Quantas estações, quantas tempestades, ventanias, quantos fantasmas cingiram aquela que me apoiou por décadas. Doralice foi levada por mais ou menos uma dúzia de entes, provavelmente irmãos, primos, filhos... notei seus olhos numa ruivinha com cabelos cor de cobre, que me lembrava os finais de tarde cor de bronze dos finais de dezembro ali em Petrolina. A brisa à margem do velho chico lacrimejou aqueles olhos e acariciou aqueles cabelos; era assim que a via, saltitava à praia do rio como se a eternidade a esperasse na outra margem, e nos meus delírios haveria uma terceira margem. Madrepérola ficou ali ao lado de Mogno velando os meus últimos momentos; o fundo dos mares e as florestas tinham algo em comum, mistérios e magias e todos os nossos manuseios em busca de um equilíbrio perfeito que o tempo e as enfermidades já não nos permitiam; às vezes ficavam ali sobre um banco de praça, mais unidas que nossos desejos e entrelaçadas por suas empunhaduras, enquanto ríamos de nossas aventuras desde o "até que a morte nos separe" numa igrejinha modesta e acanhada ali em juazeiro. Ainda tive forças de apontar-lhes Madrepérola e Mogno, vi através da vidraça, quando Zelda, uma das minhas irmãs as colocou no assento traseiro do DKW Vemag; essa história de amor continuaria, o conto das bengalas, provavelmente ganharia uma linguagem universal; alguém reforçaria que, os sonhos, as paixões e o amor não te deixam envelhecer. Doralice acompanhada por Miquica, a cadela vira-lata, corria numa praia, os cabelos ruivos ao vento no limiar de sua adolescência; dançava numa festa, esbanjando sensualidade num evento familiar no auge de sua juventude, ou simplesmente encantadora, vestida de noiva no altar casando-se com Dionísio, o meu melhor amigo; assim três meses depois eu casaria com Denise sua irmã, apaixonada por Dionísio; sabe aquele negócio de João amava Maria, que amava Joaquim, que amava... penso que são desencontros, uma prova, uma gincana a que nos submete o amor, ou só um capricho da paixão, um orgulho bobo por uma birra qualquer que a juventude com o poder de seus encantos usa como uma arma, quando seria menos doloroso um punhal. Mas o tempo... o tempo nos faz perceber a beleza dos crepúsculos. A empunhadura do mogno me fazia imaginar oscilações entre brisas e tempestades que castigam as florestas; por décadas os tons dos ocasos e o calor de suas luzes compuseram aquela madeira, ninhos de aves foram abrigados, insetos cumpriram com suas tarefas na constituição da vida do ecossistema. madrepérola tinha o mistério dos mares, o poder dos deuses e mantivera equilibrado o corpo de Doralice; mas agora, algo bem distante sussurra uma melancolia, as lágrimas nos olhos da ruivinha e nos meus entes queridos me dizem que somos personagens figurantes de um ato teatral que chega ao seu final. Mogno e Madrepérola apoiarão outros corpos, ávidos por amor e esgotados pelo tempo, serão testemunhas silentes da paixão, e assim o conto das bengalas continuarão marcando os passos de outros figurantes, aqueles que não desistiram da paixão, do amor, dos seus sonhos e da vida.
Não posso te falar de amor,
não posso te falar de amor
o meu amor é tão calado,
é tão mudo, tão silente, tão oculto
o meu amor é a periferia perigosa,
pisa em ovos,
olha de soslaio,
fala sozinho com essa multidão de becos,
travessas e vielas
essa multidão que não ouve,
não fala e nem escuta falar de amor
LIBÉLULA
Nenhum verso faz tempo,
faz tempo a solidão não incomoda,
às vezes procuro estrelas,
às vezes o firmamento com seus enigmas,
às vezes vou ver se estou na esquina, e estou...
olhar perdido na vidraça,
a libélula esvoaça sobre os lagos da minha infância,
é a parte mais bela de qualquer existência,
quando ainda não somos deuses
e não temos uma sentença pra cada rosto
as libélulas adornavam a minha ingenuidade,
agora pousam na minha ansiedade...
uma tatuagem na alma!
não sabes o que é o mundo
onde termina o horizonte começa a ansiedade
e a cidade é um monstro consumindo tua presença
não sei o que quero , mas tua ausência só me diz:
não sabes o que é o mundo...
e eu sei, pelo menos até saber-te perto
então transito, assim como se fosse tudo tão bonito
mas a brisa só deixa teu perfume a me dizer
não sabes o que é o mundo...
eu não sei
