Versos de Interesse para uma Mulher
Uma centelha de vida
Surgiu, brilhou, voou
Escapuliu
Aquele tempo passou
e ninguém viu
Nem Percebeu
O tempo é um relógio
Quebrado e parado
Todas as coisas impossíveis
Apenas assim as são
Até que se tornem possíveis
O colorido que se apagou
Não mais poderá
Eternizar-se assim
Não se pode enganar o tempo
Aquela centelha de vida
Que surgiu
de onde ninguém sabia
Que viria
Voou, brilhou
Salvou o dia
Escute a melodia
Que vem do outro lado do espelho
E a tudo desmonta
Pra que as coisas possam
Eternamente e pra sempre
Remontar-se novamente
Num sonho
e é lá
Que a gente se encontra.
Edson Ricardo Paiva
Quem joga uma pedra
Nas águas de um lago tranqüilo
Pode sempre vislumbrar
O efeito na superfície
Mas a pedra prossegue impassível
Invisível trajeto
Cujo destino a gente não sabe
Nem pensa...se esquece
E a pedra e as águas
Obedecem seus destinos
A água, no seu ciclo
Percorre o mundo
Enquanto a pedra
parada
vai cumprindo
solitária
A triste sina
de ter nascido pedra
Mas a pedra,
quando nasce abençoada
Percorre por tempo indeterminado
Os confins do Universo infinito
Guardadas as proporções
Há vidas que são água
Enquanto
Outras vidas são pedra
Fazem vôos diferentes
Leves ou pesados
Ambas, porém
Jamais poderão se eximir
de um destino
E ambas estão obrigadas
A um dia experimentar
A queda
Edson Ricardo Paiva
Houve manhãs
em que acordei
E pensei
que após uma noite de sonhos
Eu havia retornado em outro corpo
Em outra vida
Outra parada
Parecia simplesmente
Que eu acordei na vida errada
Passava horas e horas
Sentindo que eu apenas
Alguém que era menos que nada
Noutras horas me sinto
Voando ao sabor do vento
Passageiro de uma nuvem
Simplesmente
Algo que evapora
Some
Vai embora
Não chove e nem morre
Há momentos
Em que a decisão de tudo isso
Pousa finalmente em minhas mãos
E posso pensar mais calmamente
E escolho sonhar
Que sou nuvem que chove
E quando acaba a tempestade
Percebo que floresci
Nos galhos de linda parreira
E que ainda existe escolha
Alguma coisa que não tive
Por toda uma vida
Após a chuva
e depois de tão longo caminho
Eu posso ser suco de uva
E me resta a opção de ser vinho
Trilhar em paz o restante da estrada
Onde nunca mais
Ninguém há de me olhar
E não ver nada.
Edson Ricardo Paiva.
Mantenha-se calmo
Tranquilo em em paz
Quando se vive
Uma vida correta
de vez em quando a gente acorda
Com a alma inquieta
Mas o coração, esse permanece
Tranquilo demais
Portanto
Jamais se esqueça
Que por mais que cresçam
As indiferenças e desconfianças
É essencial
Conhecer as astúcias do Mundo
E saber que o mal se esconde
Daqueles que mesmo assim
Permanecem confiáveis
E sensíveis, igual a uma criança
Isso pode sim, existir de verdade
Nem sempre a idade
é capaz de revelar
A quantidade de anos vividos.
saiba manter seu coração
de portas sempre abertas e apercebidas
Na medida que caibam
Somente palavras certas
e faça valer sua vida.
Edson Ricardo Paiva.
Vivemos de buscar certezas
Mas jamais estaremos satisfeitos
Ao obter uma certeza incerta
Vivemos de buscar uma certeza
E morremos ávidos
Em querer sempre
Que ela seja do nosso jeito
E assim espantar aquela dúvida
de que, por que será
Que a nossa certeza
Apesar de tornar este mundo
Um lugar pra lá de perfeito
Jamais
É a certeza certa
Viramos a mesa
Mantendo a alma na dúvida
Obtemos certeza incerta
Sem perceber jamais
Que a vida é somente viver
Havendo sempre a opção
de poder estar feliz
Vivendo do jeito
que sempre quis e desejou
Pedindo a Deus
A certeza de que nunca mais
Vai precisar pedir nada
Além daquela paz
tão desejada quanto certa
Pois a certeza mais cristalina
Que Deus nos concede
e também que o tempo ensina
é que, neste curto espaço de vida
Não existe certeza de nada.
Edson Ricardo Paiva
A vida é uma coisa doida
Difícil de viver, se bem cuidada
E flui mais naturalmente
Quando gente não liga pra nada
Portanto
Os olhos fechados
Nos momentos de profundo pranto
Proporcionam uma visão mais aguçada
Pérfida e sórdida.
Somando-se a isto
A total ausência de ilusão
Muita gente ficaria estarrecida
Ao perceber
Que ela se torna um tanto assim
Menos estúpida
Guardadas as devidas proporções.
Proporciona uma cândida lucidez.
Explêndida!
Repleta da hipocrisia enrustida.
A gente dá voltas ao mundo
Enquanto parado
Ficando estacionado, andando em círculos
Percebe a Humanidade
Praticamente um corpo só
Imbuído de uma mente louca
Investido da rara qualidade
de saber amar
Possuindo pra isto
Um possessivo, enorme e falso
Amor de verdade
Conforme lhes convém
Me perdi
Foi aí que eu encontrei a solução
Se olhar direito, dentro de cada coração
Hoje eu sei:
Não há de se salvar ninguém!
Edson Ricardo Paiva
De repente
uma nuvem branca
Atravessa lá no Céu
Parece que tão velozmente
Parece até
Que entre ela e a gente
As copas das árvores
Telhados de casas
E os gramados das colinas
Parece que tudo se move
O tempo pára
Até que o Céu termina
Tenho a impressão
Que o mundo gira de mentira
Meus pés na calçada
Uma formiga caminhando
Atravessando o pavimento cimentado
Eu olho pros lados e nada
O tempo que havia parado correu
Passou desesperado por aqui
Correu tão depressa
Que nem vi
Enquanto eu olhava
Pra nuvem que não chove
A vida parecia se mover
E se moveu
Enquanto isso
Muita coisa eu não via
Não sentia
Não senti
A nuvem passou
A formiga se foi
O cimento tornou-se areia
Tanta coisa mudou por aqui
Pode até parecer que não
Mas um dia eu
de uma só vez
Juro que senti
E doeu.
Edson Ricardo Paiva
Tua vida, uma ilusão.
Se refaça
Procure
por um pouco de graça
Em sua vida
Olhe pra si mesmo
e responda
Se o caminho que trilhais
Não estará te levando
Pra demais distante
da alegria de viver a vida
Mira-te a ti mesmo
Diante do espelho
Reflita
Se a velha receita que jamais deu certo
E o infarto constante
Aquele que vem tentando derrotar-te
a cada instante
Na curta viagem indecisa e dividida
Será que tem visto
Miragens no espelho
Em vez da mesma imagem refletida?
Isso, é você quem deve decidir
Mas...
Decida
Talvez essa existência
Seja mesmo uma ilusão
Um tanto rude
Mas, até onde se sabe
É sua ainda
Portanto
Talvez seja sua hora de escolher
A ilusão
Que mais e melhor
Te ilude
Edson Ricardo Paiva
Triste luz da manhã.
Bela manhã de Sol
Lindo Sol
de uma manhã tão triste
de tristeza daquela que mata
Esconde a morte
entre os cortes
da arte de natureza morta
sete cores escondidas
no branco da luz do Sol,
Triste Sol de branca luz
Manhã de borboletas voando
exibindo seu voo manco
Manco voo à branca luz de Sol
Luz de hemorragia
Branca luz do dia
O sangramento estanca
Hemofílica alegria
Luz que na verdade mente
e mente com propriedade
Quisera me esconder da luz do Sol
Ah, meu Deus
Como eu queria
Que esse manco voo de alegria
tornasse uma tristeza verdadeira
Quando do Céu despontasse
A derradeira luz da tarde
desse branco Céu
Sangrando de falsa alegria
Que voa e não voa
A vida correndo a toa
Ardendo de verdade
doendo com qualidade
Prenúncio de tempestade
Pálida verdade
Triste Sol de uma manhã que arde.
Edson Ricardo Paiva
Chuva fina
A cara cinzenta do dia
Deseja a todos
Mais uma semana
de qualquer coisa que seja
Alegre ou triste
O dia começa igual a tarde
Parecendo que acaba e escurece
Sem nascer nem por de Sol
Apenas passa
Tão sem graça quanto a vida
Só isso
Chuva cinza
Como tem sido
Cinza e vazia
A cara de cada dia
Que tem nascido
Parece uma canção
Cuja melodia remete
A um tempo que há de nascer
Um tempo que promete
Ser tão cinza e tão frio
Tão vazio
Quanto tem sido
A própria vida
Dividida
Entre cinza e vazia
Embora também
Tenha sido bem fria
Mas isso ninguém viu
Pois já faz tempo demais
Que amanheceu
Chovendo assim
Edson Ricardo Paiva.
Pensamento
Eu pego uma porção
Do silêncio que me acaricia
Divido em pequenos momentos
Escolho a parte mais bonita
E depois eu a guardo
No mesmo lugar, onde durante uma vida
Eu sempre procurei guardar
Um sorriso reservado
Pra tantas alegrias sinceras
Que ainda estão ali, guardadas
Divididas
Entre um e outro pensamento
Embrulhadas em porções
de pequenos momentos
À espera do esquecimento
Visitadas amiúde
Tão somente
Pelo som desse silêncio
Que tristemente me acaricia.
Edson Ricardo Paiva.
Talvez as palavras
Nós somos os únicos
Seres de toda uma criação
Que aprendemos desde muito cedo
Que existe um coração dentro de nós
E temos medo das palavras
Por não saber usá-las
Talvez o silêncio
Que sempre cede espaço ao pensamento
Pode ser que esse
Seja o maior culpado de tudo isso
Por haver em nós esse jeito
Em abusar do direito
de pensar sem compromisso
Na palavra
Que mata e que fere
Palavras nas quais
Muitas vezes pensa-se agora
Mas falou-se
A mesma palavra, por ora trouxe
E depois mandou embora
Talvez esquecimento
Que não se lembra exatamente
Do que se quer e procura
No momento em que a gente acha
Mas tem sempre tem a palavra dura
Que desconhece a força de fera
A lei da espera e da tortura
A verdade mais pura
É saber que este mundo é uma esfera
E ela gira
Tudo muda de lugar
Em um segundo
E de segundo em segundo
A vida passa.
Edson Ricardo Paiva
Vita.
Nesta pouca vida
Quase tudo é verdade inventada
Uma grande quantidade de ar azul
Deserto suspenso, que de perto, é nada.
.
Penso ser tudo olhar da mente
Todo dia é sempre dia
de partida, chegada e olhar desatento
O mundo gira pro mesmo lado, sempre.
.
Essa vida é um castelo de cartas
Uma folha no chão
Uma pluma no vento.
.
Pluma, vento, chão , mente que mente
A gente só vê ao que quer e inventa
Quando a lente do olhar aumenta: é o nada.
Edson Ricardo Paiva.
Relendo um pedaço de vida
Escrito qual fosse
Endereçado aos Céus
Redigido em dourado
Uma longa descrição de nada
De frase em frase
O sentido das coisas muda
Depois de alguns pontos finais
Na mesma linha, ainda tentava
Enquanto a ideia era a mesma
O mesmo fôlego, depois da virgula
Um aposto
Reticências
A vida seguindo entre aspas
Navegava
Dígrafos e interjeições
Transmutanto em novas
As mesmas sempre velhas sensações
Esperanças em letras maiúsculas
O parágrafo insistente
Uma pausa a cada nova esclamação
O sinal que interroga
Uma praga que rogam
Bem querer descrito
Um mal feito
O antônimo de tudo
Transformando agora em nada
O que parecia
Tão bonito no princípio
Quem leu
Pouco soube interpretar
Lentamente
Sem sentido
Eis que surge
O último ponto final
Se fecha o livro
Livre pra prosseguir
O verbo é viver sem destino
Despedida; substantivo feminino
Sem sínteses
Nem parêntesis.
Edson Ricardo Paiva
Pra cada dia uma noite
Uma morte a cada vida
E pra cada norte um rumo
Vários ventos sem direção
Em cada mar, muitos naufrágios
A saudade que se vê tão só
A pá de terra sobre o tempo
O erro que me acerta
A resposta certa eu nunca soube
A tarde que não me cabe
Antes que o Céu
Desabe por sobre essas nuvens
Há pra cada chuva, um Céu
Mas não sei dizer
de quantos Céus há sobre nós
Sob meus pés
Estrada e pó
Simplesmente mais nada
Pra cada vida
Uma morte apenas
Viver de espera
Termina
Na serena morte
De sorte que ela vence no final
Pra cada um
Há outro igual
Só não se sabe onde.
Edson Ricardo Paiva
Depois da chuva
O carisma da tarde
Uma ponta de saudade
A luz do Sol me alisa
Uma brisa suave
Parece até que chove leve, ainda
Um prisma no Céu
Um sinal que à luz decanta
A clara luz que ontem brilhou
E mesmo assim
Ainda me leva
Pra algum lugar longe ou perto
Só não deixa ficar onde estou
Me vem lembrança
de uma rua escura e estreita
De algum sonho que há tempos sonhei
A noite cai
Tudo se ajeita
Pode ser que este mundo
Não seja perfeito
Mas ele sempre melhora
Na hora que eu tenho você aqui perto
Peço ao vento pra levar
Um olhar, um pensamento, a saudade
Quem sabe na volta
Ele traga o alento da lembrança
De algum sonho em que você estivesse
Te juro
Se soubesse onde está
Eu mesmo ia lá
Te buscar.
Edson Ricardo Paiva.
Eu tento uma coisa nova
Invento chamar a chuva
Reclamo quando não chove
E quando chove, também
Eu faço do mesmo jeito
Não me lembro de como ele era
Saio à chuva, depois que ela pára
Reclamo enquanto não chove
Eu tento chamar a chuva
E chove
Eu tenho um jeito novo
Pra fazer as velhas mesmas coisas
Meu melhor modo
É deixar tudo de lado
Da mesma maneira
Um velho pássaro vem
Pousa em meu telhado e morre
Já passou-se a vida inteira.
Edson Ricardo Paiva.
Vida Flor.
A vida é o dia de uma flor
Quando a chuva aproveita
Bota as pétalas de lado, assim
Se espelhando numa poça rasa
Detalhando os seus tim-tins
Orgulhosa da própria beleza
Ajeita luz do sol
Renovando a folia
Acredita, enquanto há tempo
Tempo é tudo quanto mais havia
Quando o tempo de já não mais crer vier
Ele vem, crer ela não quer...aceita
Bota espinhos, tenta defendê-la
Tristes mãos que, porventura, recolhê-la
Assim, como um sol que renasce
E que jamais se opõe
Ao orvalho das trevas
Escolhe uma melhor lembrança e a leva
Molha-te por molhar-se
Escolhe um ramalhete pra passar teus dias
Que, por ora, ornamenta e tenta e tenta
Tanto tenta que, quando desiste
Já não sente assim, tanta tristeza
Tenta, mas aprende a desistir também
Nem jamais te arrependa de nada
Desaprenda o sorrir
Mesmo assim, depois, aprende
Rir-se de si mesma.
Edson Ricardo Paiva.
A vida é uma lista
de coisas que nós não fizemos
relembre o que fez
E verá que deixou de fazer
Um tanto assim de coisas boas
E seu coração
Ainda guarda um lugar vago
Um lago sem vida
Cercado de esperanças perdidas
A saudade é uma cobra que voa
Pouca coisa sobra
Além daquilo que não fez
desde que elegeste a lista
das coisas importantes
Que hoje não parecem
Nem de perto
As mesmas de antes
Algo soa dissonante
A vida é um barbante esticado
No qual penduramos lembranças
Algumas doídas
Outras mansas
E algumas malsãs
A saudade é uma irmã
Furtada de nós, quando criança
A vida é uma dança
Que nós não sabemos dançar
A esperança
é um pote de ouro escondido
que você nunca vai saber
onde ele está
Por mais que procure
Por mais tempo que dure
esta busca infinda
Mas mesmo assim, no final
Verá que acabou de escrever
Uma história linda
num livro que não tivemos
tempo de lêr
Estávamos ocupados
em viver
Ontem, em algum lugar
deste imenso Universo
Uma estrela se apagou
Extinguiu-se antes que a sua luz
chegasse a nós
E iluminasse
por ao menos um segundo
Este nosso mundo atroz
Dela, nem tomamos conhecimento
Nossas vidas não passam de momento
Momento em que sonhamos
vislumbramos, crescemos e concluimos
Nosso direito
De sermos algozes
de nós mesmos
As estrelas partem
Nós partimos
Olhando a nós mesmos do cimo
Sem perceber
As luzes que não nos atingem
Outros fingem
Interpretam perceber
E nem mesmo após o dia
Em que todas as estrelas
já houverem se apagado
Terá percebido um sorriso
Que brilhou a vida inteira
e porventura luziu
Bem ali, ao seu lado.
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