Poemas curtos de Clarice Lispector
Água-marinha? meu primeiro namoradinho tinha olhos azuis de água-marinha. Mas eu não chegava perto dele: tinha medo. Porque água quieta é água funda e me dava calafrios.
Estou cansada de pessoas e sozinha me aborreço. Eu mesma não sei o que quero.
Nota: Trecho de carta para Tania Kaufmann, escrita em 16 de fevereiro de 1944.
...MaisÉ a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inconsciência. O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?
É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.
É que, quando amávamos, eu não sabia que o amor estava acontecendo muito mais exatamente quando não havia o que chamávamos de amor. O neutro do amor, era isso o que nós vivíamos e desprezávamos.
A verdade é sempre um contato interior e inexplicável.
O que chamo de morte me atrai tanto que só posso chamar de valoroso o modo como, por solidariedade com os outros, eu ainda me agarro ao que chamo de vida. Seria profundamente amoral não esperar, como os outros esperam, pela hora, seria esperteza demais a minha de avançar no tempo, e imperdoável ser mais sabida do que os outros. Por isso, apesar da intensa curiosidade, espero.
Amor (...) é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor verdadeiro, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões.
Nota: Trecho da crônica Atualidade do ovo e da galinha (II).
...MaisO perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo.
É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.
Nota: Trecho da crônica Atualidade do ovo e da galinha (II).
...MaisEu me sinto culpado quando não vos obedeço. Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam.
Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade.
Quero que me deem isto: não a explicação, mas a compreensão.
Nota: Trecho da crônica Ao correr da máquina.
...MaisTulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.
Adoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância.
Faça a descoberta de si mesma – e aos poucos você descobrirá que é mais seguro e compensador valorizar-se
O ponto de partida deve ser: “Não sei.” O que é uma entrega total.
Nota: Trecho da crônica Máquina escrevendo.
...MaisOh Deus, e eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim, é uma tranquilidade.
