Poemas curtos de Clarice Lispector
Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem.
Nós estávamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. Éramos um só ser. Esses momentos são o meu segredo.
Nota: Trecho da crônica Ao correr da máquina.
...MaisAs árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia.
O fato é que tenho nas minhas mãos um destino e, no entanto, não me sinto com o poder de livremente inventar: sigo uma oculta linha fatal. Sou obrigado a procurar uma verdade que me ultrapassa.
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.
Nota: Trecho da crônica Intelectual? Não.
...MaisQuando começa a ficar muito bom eu ou desconfio ou dou um passo para trás.
Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?
Perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova da "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando...
Nota: Trecho de carta para Tania Kaufmann, escrita em 23 de fevereiro de 1944.
...MaisFui até onde pude, mas como é que não compreendi que aquilo que não alcanço em mim... já são os outros?
De repente as coisas não precisam mais fazer sentido.
O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível.
Não telefono para mais ninguém. Quem quiser que me procure. E vou me fazer de rogada. Agora acabou-se a brincadeira.
Em vida, observo muito, sou ativa nas observações, tenho o senso do ridículo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido.
Que o Deus me ajude a conseguir o impossível, só o impossível me importa.
Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo.
E eu impávida finjo que não tenho dono. Pontas de cigarro apagadas eu recebo. Um dia vou pegar fogo. De noite fico sozinha no escuro, vazia, pousada num canto do chão. Meu silêncio fede. Ai de mim, que sou o receptáculo da morte das coisas.
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Nota: Trecho da crônica A lucidez perigosa.
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