Poemas curtos de Clarice Lispector
Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece.
Nota: Trecho da crônica Atualidade do ovo e da galinha (II).
...MaisEu sonho acordada, mesmo como uma mocinha de quinze anos. É o que se chama de sonho estéril. Imagino conversas, imagino situações e cenas – pareço nunca ter tido nenhuma experiência.
Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.
Vou continuar, é exatamente da minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos.
Quando estou sozinha procuro não pensar porque tenho medo de de repente pensar uma coisa nova demais para mim mesma.
Não gosto do que acabo de escrever – mas sou obrigada a aceitar o trecho todo porque ele me aconteceu. E respeito muito o que eu me aconteço. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço.
A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos.
E eu impávida finjo que não tenho dono. Pontas de cigarro apagadas eu recebo. Um dia vou pegar fogo. De noite fico sozinha no escuro, vazia, pousada num canto do chão. Meu silêncio fede. Ai de mim, que sou o receptáculo da morte das coisas.
Tão carente que só o amor de todo o universo por mim poderia me consolar e me cumular.
Não façamos esforços inúteis, pois o amor nasce ou não espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes é inútil esforçar-se demais... nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende a nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido.
Nota: O pensamento é atribuído a Clarice Lispector, mas não há fontes que confirmem essa autoria.
...MaisQuando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
Nota: Trecho da crônica As três experiências.
...MaisO ar tinha gosto de sábado. E de súbito os dois eram raros, a raridade no ar. Eles se sentiam raros, não fazendo parte das mil pessoas que andavam pelas ruas. Os dois às vezes eram coniventes, tinham uma vida secreta porque ninguém os compreenderia. E mesmo porque os raros são perseguidos pelo povo que não tolera a insultante ofensa dos que se diferenciavam.
Nota: Trecho do conto A partida do trem.
...MaisNão tenho nenhuma saudade de mim – o que já fui não mais me interessa!
As almas fracas como você são facilmente levadas a qualquer loucura com um olhar apenas por almas fortes como a minha.
Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira.
Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto.
Parece que às vezes sou espontânea demais e isso me torna engraçada.
Nota: Trecho da crônica Facilidade repentina.
...MaisO esquecimento das coisas é minha válvula de escape. Esqueço muito por necessidade.
Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz.
