Vento

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Bebelle sempre sonhou com uma casa no campo, onde as flores lhe bordassem as janelas, o vento acariciasse as tardes e a vida, enfim, desacelerasse o passo para que ela pudesse existir sem a urgência de sobreviver. Imaginava a serenidade das coisas simples, a beleza silenciosa dos jardins e a liberdade de pertencer a um lugar sem se sentir prisioneira dele.


Mas o destino, indiferente à delicadeza dos sonhos, reservou-lhe os cortiços de Primavera. Onde deveria haver jardins, ergueram-se muros; onde deveria florescer a tranquilidade, enraizou-se a angústia. Entre escolhas mal planejadas, responsabilidades acumuladas e a ausência de prudência na administração da vida familiar e financeira, o futuro foi estreitando suas possibilidades até transformar a esperança em ruína.


Agora, nem mesmo o descanso lhe pertence. O tempo, que deveria ser seu, converteu-se em instrumento de sobrevivência. Cada dia exige mais do que o corpo pode oferecer, cada amanhecer renova a dívida com uma existência que parece cobrar juros sobre a própria miséria. Trabalha-se para continuar vivendo, vive-se para continuar trabalhando, e, nesse círculo implacável, a liberdade torna-se uma palavra bonita, porém distante.


E assim, sob as luzes de um presente que se orgulha de seu progresso, Bebelle parece recuar séculos na história. Retornam, sob novas vestes, as antigas estruturas de servidão: já não são necessariamente as correntes de ferro que aprisionam, mas a necessidade, a dependência, a exaustão e a impossibilidade de escolher outro destino. A escravidão muda de linguagem, moderniza seus mecanismos e aprende a conviver com a aparência da liberdade.


Talvez a tragédia mais profunda não seja apenas a de uma mulher que jamais alcançou o campo florido de seus sonhos, mas a de alguém que, sem perceber, herdou as sombras de um passado que julgava distante. Na história de seu povo, a liberdade foi tantas vezes prometida e tantas vezes adiada que até o direito de descansar parece um privilégio reservado a outros.


E as flores, aquelas que Bebelle imaginava cultivar, continuam existindo em algum lugar. Florescem indiferentes, sob o sol de uma primavera que não conhece fronteiras. Mas há primaveras que chegam apenas ao calendário, sem jamais alcançar a vida daqueles que passam os dias tentando sobreviver.


Porque nem toda primavera renova. Algumas apenas revelam, com dolorosa clareza, o quanto ainda permanece inverno dentro da história humana.

Se já viveste numa casa com telhas de céu, paredes de vento, janelas de chuva, portas de solidão e cama de pedra, aprendeste o quão é fria a humanidade.

Outonarmo-nos


Tu e eu outonarmo‑nos:
desfolha lenta,
vento a passar entre o que fomos, silêncio a pousar no que fica.


E no fundo dos nossos olhos, um verão que insiste,
mesmo depois de cair.


Há um calor que se move devagar, tão leve
que parece horizonte.


E quando nos deixamos cair, o corpo torna‑se terra lisa: sente o que passa,
guarda o que fica.


E tu sentes o meu Alentejo no teu corpo como quem encosta o poente à pele.

Mesmo quando o vento sopra a favor ele vira-se contra ti quanto percorres um vale. Continua em frente, a resistência será temporária.

No recanto


O vento quente do sertão
varre a alma cansada,
E a ansiedade aperta
o peito como corda de viola.
O homem sente
o mundo pesado nos ombros,
E a esperança parece distante, escondida no céu de brasa.


Mas chega uma palavra doce, feita de calma e cheiro de terra molhada,
Um sussurro que floresce entre
o juazeiro e a laranjeira.
O coração se abre,
desata o nó que sufoca,
E a vida volta a dançar
na batida lenta do luar.


No recanto da paixão,
o olhar se encontra,
Mãos trêmulas se entrelaçam,
tão simples e certeiras.
O medo se dissolve
na música das palavras,
E o amor cresce no silêncio
que fala mais que tudo.


Ah, sertão que ensina
a alma a resistir,
Entre seca e chuva,
entre dor e sorriso.
Uma palavra bondosa
é a chuva na rocha,
E o coração do homem
volta a cantar seu próprio destino.

Não sei se é noite ou tempestade,
se o chão queima ou se sou eu,
ou se o vento carrega minhas mãos,
incapazes de segurar o que foge.

Na nossa vida existem encontros
Que são vento nas costas
Mãos que empurram com cuidado
E nos fazem avançar sem medo.


Existem também as âncoras
Que prendem o peito ao fundo
Pesam mais do que abraçam
E confundem amor com permanência.


Há quem puxe pra trás
Sugando a luz dos dias
Transformando sonho em cansaço
E presença em esgotamento.


Mas você…
Você me puxa pra frente
Não corre por mim,
caminha comigo
E transforma amor em caminho,
não em peso

Arte de amar


Amar é aprender a nadar em mar revolto, onde o vento não pede licença e as ondas testam a coragem do peito.
Ainda assim, o coração
insisteem ficar à deriva.


O amor é arte feita sem esboço,
pincel molhado de sal e esperança,
cada toque um risco, cada erro uma nova forma de beleza.


Há noites em que o medo parece afogamento, o silêncio pesa como âncora no fundo do peito, mas até o mar mais bravo ensina
que respirar é um ato de fé.


Porque amar não mata
— transforma.
Desmonta, refaz,
ensina o corpo a flutuar.
Quem ama não foge da tempestade:
aprende a chamar o caos de casa.

O auto-Perdão


Ele incendiou o coração dela
como quem risca fósforo em noite de vento, e no clarão do erro,
queimou as próprias mãos
sem perceber que o fogo também volta.


Ela o perdoou como chuva mansa
caindo sobre terra rachada,
lavando as cinzas, oferecendo verde novo, acreditando que até solo ferido
pode voltar a florescer.


Mas dentro dele morava um espelho quebrado:
toda vez que se olhava, via o erro em cacos.
Mesmo com o céu limpo que ela oferecia, ele insistia em caminhar sob tempestade,
incapaz de se dar abrigo.


E assim,
ele naufragava em porto seguro.
Tinha perdão como farol aceso,
mas preferia a culpa como âncora.
Porque às vezes o amor salva —
mas o auto-perdão é quem ensina a voltar à superfície.

É fase


Que seja o vento,
se for pra tocar,
mas que toque como
quem aprende o caminho da pele,
manso e inevitável,
feito segredo que só o coração entende.


Se for pra esperar,
que seja como a lua,
inteira mesmo quando
parece metade,
brilhando paciente sobre
telhados de silêncio,
sabendo que toda ausência
também é fase.


Se for pra amar,
que seja como rio em deságue,
sem medo das curvas,
sem medo do mar,
levando nas águas
o excesso
dos sonhos
e devolvendo ao mundo
a coragem de ficar.


E se for pra viver,
que seja como chama,
dessas que dançam
mesmo sob tempestade,
iluminando o escuro com riso aceso —eterna centelha de felicidade.

O Significado do Amor


Amor não é palavra dita ao vento,
nem promessa feita na pressa do momento.
É escolha diária, silenciosa e firme,
é ficar quando tudo parece partir.


É tocar as cicatrizes sem medo,
beijar as falhas como quem encontra abrigo.
É enxergar o caos no outro
e ainda assim chamar de lar.


Amor é paciência que não se cansa,
é mão estendida no meio da tempestade.
É olhar nos teus olhos e reconhecer
que o meu futuro começa aí.


E se me perguntarem qual é o seu significado,
eu não direi conceitos, nem teorias bonitas.
Direi apenas o teu nome —
porque amar, para mim, é você.

⁠Não há tempestade que nos separe,
nem vento que leve a força que sinto.
Teu amor é abrigo que nunca desaparece,
um fio invisível que me liga ao infinito.

Nos nossos sonhos,
Eu te encontro em cada batida,
Em cada suspiro que o vento sussurra em segredo,
E mesmo acordado,
Levo contigo cada fragmento,
Porque amar-te é atravessar sonhos e torná-los vida.

O tempo é vento traiçoeiro.



Eu te encontrei quando o mundo falava baixo,
quando meus dias cabiam em silêncio e rotina.
Teu nome surgiu como quem não pede licença,
e o coração, distraído, abriu a porta sem defesa.


Tuas mãos não prometeram eternidade,
mas ensinaram o agora a respirar melhor.
Nos teus olhos aprendi que o amor não grita:
ele fica, mesmo quando o medo chama mais alto.


Pintei futuros no contorno do teu riso,
mesmo sabendo que o tempo é vento traiçoeiro.
Ainda assim, escolhi te amar inteiro,
porque metade de amor também é solidão.


Se um dia fores ausência, não te culpo:
há encontros que existem só para salvar.
Ficas em mim como luz depois do pôr do sol —
não ilumina o caminho, mas prova que valeu brilhar.

Deixa o vento soprar o que não ficou,
Deixa o tempo levar o que não brotou.


Se não floresceu, não era estação,
Se não permaneceu, faltou coração.


Guardei silêncio onde havia querer,
Aprendi que amar também é ceder.


E no espaço vazio que ficou em mim,
Planto esperança
— recomeço, enfim.




P.silva3

"Sou vento forte no calor intenso
Sou chuva fraca em meio ao fervor
Te queria perto mas te tenho longe
Não te ouço a voz mas te sinto amor."


- Pekenah

Teixo antigo, arqueiro do tempo:
aprendeu a suportar o vento por anos para, em um único instante,
ensinar à flecha o caminho do destino.

Tua voz é música que dança no vento, Teus gestos, poesia que
toca o coração.
Em teu ser moram sonhos e encantamento, Um amor que floresce sem explicação.

Sou livre


Sou livre como o vento que aprende teu nome ao passar entre janelas abertas do peito;
não me prendo ao medo, faço do silêncio um céu onde teu riso pousa sem receio.


Sou livre como o rio que aceita suas curvas, beija pedras, sangra margens e segue inteiro; teu amor é ponte, não prisão — nele atravesso sem perder-me.


Sou livre porque amar não é jaula,
é asa confiada ao próprio voo;
se fico, é escolha do coração
que encontra em ti um horizonte,
não um nó.

Folhas Secas


Somente ecos ficaram,
como folhas secas levadas pelo vento, memórias queimando em silêncio nas chamas de um verão que não volta.


Teu amor se evapora,
era um rio que prometia oceanos
e se desfazia em gotas mornas
antes de tocar a minha margem.


Ainda assim, meu coração insiste,
como lua que insiste em nascer
sobre noites que não lembram o dia,
buscando a luz que já não me alcança.