Vento
Às vezes, o vento sussurra segredos de Deus em meu coração, e ao ouvir, sinto gratidão por ter a chance de viver e compartilhar esse amor com os outros
Teu olhar me despe
antes mesmo do toque,
como vento morno
que percorre a pele
e aprende meus segredos.
Teu sussurro é chama
acendendo devagar
cada curva adormecida,
cada arrepio guardado
na espera do teu abraço.
Teu cheiro me envolve
como noite sem pressa,
e no silêncio do quarto
nossos corpos conversam
num idioma feito de desejo.
Tuas mãos desenham caminhos
que minha respiração acompanha,
e no compasso do teu peito
eu me perco —
doce, inteira, tua. EVER. .. .. ...
CENÁRIO DA PRAÇA
O vento gostoso do mês de maio corria solto na praça. Dia lindo de céu azul. Aquele dia que, de tão bonito, nos anima a sentar em um dos bancos da pracinha. Sentamos a observar, atentos, o que passa. É certo que não existe mais a banda para vermos passar...o tempo da banda passou.
Mas, observando com cuidado, quanta coisa interessante passa na praça. Retrato dos nossos tempos desfilam!
O casal de adolescentes, modelos atuais, calça jeans justinha e blusa de malha, a mostrar o corpo, novinho em folha, esculpido na malhação! Sorridentes, eles correm contra o tempo e o transporte da cidade que os levará ...sei lá aonde! Talvez à Rua da Esperança!
E passa uma senhora de idade, mas não sem disfarçar os fios brancos que lhe tecem a vida, com um amarelo brilhante que lembra o sol dos tempos de juventude a lhe emoldurar o rosto. Ela precisa da ilusão para embelezar a velhice!
Mas a expressão da senhora é tensa! Ela senta em um dos bancos, na sombra da árvore. Tira os pés do sapato, olha para os pés maltratados e balança as pernas sob o banco, na liberdade de quem não se liga mais a normas! Puxa de uma sacola uma banana. Saboreia com gosto e joga as cascas no canteiro da pracinha. Com certeza, veio de longe. Também espera o transporte, mas seu destino é a Rua da Saudade.
Quero de Volta
Quero de volta minhas noites de chuva, minhas estrelas, meu céu nublado e o vento cortado.
Minha lua em todos os estágios. Nova, crescente, quarto crescente, cheia, minguante e quarto minguante.
Deitar na grama, na areia ou na terra para viajar no espaço e ver as figuras que se formam com o movimento das nuvens. Balançar na rede e embalar a rede.
O papo solto, os assuntos proibidos, os assuntos leves e também os pesados. As verdades de qualquer estirpe.
As músicas de qualquer espécie. As espécies que falam da gente e que falam nada. Que fazem sentido e que sentido não tem.
Quero de volta o acordar mais tarde com o peso do teu corpo e o carinho de um beijo.
O roçar de dedos, de mãos, de pernas, de narizes, línguas e corpos, do roçar das mentes. Os prazeres, arrepios e gozos.
As pernas que pesam umas sobre as outras, as pernas que descansam umas nas outras. As pernas que seguem as mesmas trilhas, que caem e se levantam, que se cortam e se cuidam.
Os pés que acariciam outros pés. Os olhos e olhares diretos, furtivos e de lado. O cuidado do corpo, da alma, das feridas, dos achares e dos pensares.
As brincadeiras sem graça com grandes risadas, risadas que não acabam e risadas da seriedade.
Quero de volta a honesta palavra e a atitude honesta. O reto, sem subterfúgios, as escolhas diretas, a prioridade, o correto jeito das coisas.
A transparência das roupas, da alma e da mente. As corridas, os treinos, a endorfina, o prazer da diversão a cada passo, a cada papo, a cada abraço, a cada pingo, pingo de suor, suor que encharca, encharca o corpo e a alma.
Quero de volta meus sonhos, meus pesadelos, minhas ilusões, minhas desilusões, fantasias, viagens e imaginações.
Quero de volta as surpresas feitas, as surpresas recebidas.
Quero de volta a alegria pura, a felicidade gratuita, o encontro por acaso e também o descarado.
Quero de volta o namoro na chuva.
Na velocidade do dia, temos a consequência de tudo.
se uma porta se fecha,
É sábio que o vento corra por entre as frestas
e no curso do dia uma boa nova nos traga.
Depois de algumas escolhas
Nada é tão certo quanto a folha que resseca e cai
todos os dias.
"Que a leveza caminhe conosco, feito pena ao sabor do vento, guiando-nos, com esperança, a horizontes onde novos caminhos florescem."
Não te confesso o amor que sinto.
Apenas o deixo viver em mim,
como um perfume
que o vento não leva.
Às vezes, não importa quão forte algo pequeno bata sua asas, se o vento soprar na direção errada, tudo volta a ser exatamente como antes.
(Lady Whistledown)
Ainda tem um passarinho cantando, o vento, a poesia das folhas em qualquer praça, uma estátua, um relógio marcando três horas talvez, uma bicicleta, uma buzina e ao final do dia, sem que ninguém peça!!!! Existe o milagre do cotidiano ....
Você se desgarrou de mim, mulher,
feito vento que vira poeira na estrada.
Diz pra mim o que foi que aconteceu,
teu castelo caiu? tua farsa foi desmascarada?
Chega desse mi mi mi ensaiado,
dessas lágrimas que não molham o chão.
Bandida de promessa quebrada,
não pisa mais no meu coração.
Vai pastar onde você desejar,
corre solta nesse mundo sem lei.
Só não venha bater na minha porta,
porque eu já me vacinei de você.
Eu não tenho espaço no meu mundo
pra você passear, entrar e sair quando quiser.
Pistoleira ingrata, atirando desprezo,
ferindo quem só quis te querer.
No teu universo não habita ninguém,
é deserto de amor e ilusão.
Vai te-dá-qui, ordinária,
meu mundo não é teu abrigo, não!
Você brincou de amar comigo,
como quem troca roupa de ocasião.
Fez do meu peito um circo barato,
e da saudade, uma maldição.
Mas hoje eu ergo minha cabeça,
mesmo sangrando por dentro ainda.
Quem perde não sou eu nessa história,
é você que ficou sem guarida.
Refrão
Eu não tenho espaço no meu mundo
pra você passear, entrar e sair quando quiser.
Pistoleira ingrata, coração de pedra,
não volto atrás pra te acolher.
No teu universo não habita ninguém,
é frio demais pra eu morar.
Vai pastar longe de mim, mulher,
que eu nasci foi pra me valorizar.
Do sol atravessando a janela, do vento no rosto, do riso que nasce do nada, do café que esquenta a alma, dos silêncios que dizem tudo.
Hoje eu pensei na partida, mas foi por amor à vida. Por que quanto mais eu entendo o fim, mais quero estar aqui, sentindo, errando, recomeçando.
Talvez o desejo de viver seja justamente isso:
saber que um dia acaba, e ainda assim querer ficar.
A vida corre como o vento.... sem padrões, sem garantias. No fim, até Salomão nos lembrou: faça o que alegra tua alma, permita-se viver! Por que moralidade sem moralistas seria leveza... e ironicamente, os que mais apontam, são os que mais erram.
O sol nasce, o vento sopra, a água corre, mas é dentro que a vida pulsa... ou se cala. Quem deixa de viver, ainda que ande, já caminha com a morte. O mundo gira, indiferente. Parar é ceder. E às vezes, morrer é só não ter escolhido viver.
Sou vento que não se prende, alma que não se cala. O agora é meu templo e o Espírito que move o Universo respira em mim.
Será que a lua se lembrou do sol,
Ao ver a chuva se atirar no mar,
Enquanto o vento abraçava
Os girassóis,
Sei lá.
Será que o sol gritou pra ela escutar,
Ao ver no horizonte ela partir,
Enquanto ele acordava
Via o luar
Dormir,
Sol e lua, vi vocês daqui.
Calma na Alma,
Vento nos cabelos,
Alegria nos lábios e no coração. Sempre um passo de cada vez... seguindo no caminho que escolhi: Expansão de consciência!
"O INVENTÁRIO DA AREIA E DO VENTO..."
Ah! Alcancei a crista da onda, aquele ponto cego onde o oceano se torna abismo e as águas, memória; um ápice que não é o topo da montanha, mas o momento em que a descida se torna a única forma de abraçar a terra. Já tenho em mãos o inventário do mundo: o sangue ramificado em filhos, o suor cristalizado em ofícios e os pequenos templos de tijolo que chamo de lar, mas à mesa, o banquete é de silêncio e o tilintar do garfo no prato vazio ecoa uma fome de ser...
A água na geladeira, guardada em vidros gélidos, retém o gosto de todos os rios que não naveguei, sabores de partida, espera e esquecimento que se misturam aos meus pensamentos, cavalos selvagens chicoteados pelo cronômetro. Eles galopam para o ontem em busca de um rastro, caem mortos no solo estéril do agora e fixam o olhar vítreo num amanhã que nunca se deixa tocar, enquanto meu centro se desfaz como um catavento enferrujado tentando ler o sentido dos ventos em dispersão...
Aos quarenta e oito invernos, o corpo reclama o aluguel do tempo e a força, antes uma lança de ferro, hoje é um fio de seda segurando o peso de uma existência que parece ter durado séculos. O álcool deixou de ser celebração para tornar-se um solvente, um mergulho em águas turvas para ignorar o naufrágio das células e os pequenos motins que minha própria biologia organiza contra mim...
Sinto a falta daquela euforia bruta dos finais de ciclo da juventude, da liberdade que cheirava a asfalto quente, antes que o acúmulo de dias se tornasse uma biblioteca de angústias. O livro da [minha] vida decidiu queimar suas próprias páginas; a história quer se abreviar, quer o ponto final antes que a tinta acabe, transformando-me em um ancião que assiste à própria biografia ser devorada pelas traças da finitude, enquanto o horizonte insiste em escrever capítulos sobre minha pele cansada...
Nesse processo de liquefação, aprendi a coreografia secreta do riso para mascarar o estrondo das quedas, descobrindo o luxo de chorar por dentro, uma chuva privada que irriga jardins que ninguém visita. Distanciei-me das âncoras que me prendiam a portos de gente falsa, buscando uma ecologia do ser onde o propósito é a presença da luz e o silêncio dos pensamentos que já pararam...
Não há mais o que explicar sobre a vista que embaça ao tentar ler o que está perto; talvez a alma tenha decidido focar apenas no que é infinito, desdenhando o que é ainda palpável. Sigo agora por este desfiladeiro onde a avalanche dos dias transforma o concreto em névoa e as lembranças em espectros sombrios e distantes, aceitando que tudo morra finalmente em mim, para que eu possa, despojado de tudo, renascer, quem sabe um dia, no vazio...
--- Risomar Sírley da Silva ---
Tudo que vai, volta, pode acreditar
O que você joga para o vento um dia vem te buscar
Eu também estou perdido, mas sigo em pé
Mesmo sem mapa, eu confio na fé
- música Nasci pra ser selvagem do dj gato amarelo
O quarto agora guarda um frio que não vem do vento, é o peso o "nós" transformado em esquecimento.
A mesa posta para dois, o café que esfria no centro, enquanto a verdade corrói o que eu guardava por dentro.
As paredes repetem promessas que o tempo mentiu, amoldura sustenta um riso que a traição destruiu.
Não foi só a carne, foi o templo que ruiu no chão, deixando o silêncio ser a única voz da solidão.
Onde havia abrigo, agora existe um deserto de dor, as cinzas do que fomos sufocam o resto do amor.
Dói saber que o abraço que outrora me salvava, era o mesmo que, em segredo, a minha cova cavava.
