Veneno
Trocam a parceria de quem rala na luta diária pelo veneno gratuito de quem só quer plateia para humilhar.
Escolhem o veneno da humilhação diária porque o remédio do afeto exige coragem para mudar — e há quem prefira o calabouço conhecido à luz de um tratamento digno.
"Dizem que o escorpião se faz de morto e só morre no próprio veneno. Certas pragas se autodestroem. Nem perca o seu tempo com elas."
"Um grupo de jararacas escapou do Butantã para peçonhar Cordeirópolis. O veneno anda tão solto que é preciso usar botas tanto na cidade quanto no campo."
A inveja é o único veneno que a pessoa prepara para o outro e acaba tomando sozinha. Nunca gaste energia tentando derrubar ninguém; foque no seu propósito!
O Veneno do Dogma
Usam o nome do Sagrado
Para erguer muros, ditar a dor,
Transformaram a graça em tribunal
E esqueceram o som do amor.
Gente de rosto fechado e bíblia na mão,
Pronta para condenar quem passa,
Adoecendo a si e ao irmão,
Confundindo veneno com graça.
Mas o Divino não mora na opressão.
Não habita no medo, na culpa, na dor.
Se a sua religião sufoca o seu peito,
Ela é só regra de homem, não é amor.
Desarme a mente, acolha o mundo,
Seja a leveza que o céu pediu.
A fé real não destrói ninguém:
Ela resgata o que a rigidez feriu.
veneno.
Sei como ele desce pela garganta e como parece ficar preso no meio do peito antes de chegar no estômago. No começo é quase nada, só um gosto amargo na boca. Depois vem o calor. A barriga começa a apertar, como se tivesse alguma coisa se espalhando por dentro, queimando devagar.
Eu sei que ele está ali porque começo a pensar diferente.
Qualquer coisa ganha outro peso. Uma coisa pequena fica grande. Um silêncio parece esconder alguma coisa. Uma ausência começa a incomodar. Uma conversa que eu nem ouvi parece ter mil possibilidades dentro dela. E eu fico tentando descobrir o que aconteceu sem ter como saber.
Quanto mais eu penso, mais ele queima. Quanto mais tento entender, mais parece que preciso entender outra coisa antes. Eu volto para os mesmos pensamentos, lembro de coisas que já aconteceram, misturo com coisas que poderiam acontecer e, quando percebo, já estou sentindo no corpo alguma coisa que ainda nem aconteceu de verdade.
Minha boca fica seca. A respiração muda. O estômago fecha. Fica aquela sensação quente e ruim, como se eu tivesse engolido alguma coisa que meu corpo sabe que não deveria estar ali.
E eu não sei exatamente do que tenho medo.
Eu tenho medo do que não conheço, do que não consigo ver, do que acontece quando não estou perto. Tenho medo das coisas que não consigo controlar e das coisas que não consigo perguntar sem parecer que estou procurando um problema onde talvez não exista nenhum.
Mas o corpo não entende muito de talvez.
Ele sente primeiro.
Sinto, eu.
Sinto mesmo quando uma parte de mim sabe que pode não significar nada. Sinto mesmo quando não tenho uma resposta concreta. Sinto porque existem coisas que já vivi, coisas que ficaram em mim de algum jeito, e quando alguma coisa toca nesse lugar o gosto do veneno volta.
Eu não escolho sentir isso.
Queria conseguir simplesmente olhar para alguma coisa e deixar passar. Não ficar imaginando, não procurar significado, não sentir aquela pressão no estômago. Só que eu não consigo mandar a sensação embora só porque sei que ela pode estar errada.
Eu sei o quanto esse veneno pode me fazer mal, mas não sei se vou conseguir impedir que ele entre.
Porque não é só uma coisa que eu penso.
Eu sinto no corpo.
Sinto a garganta fechar um pouco, o peito pesar, a barriga queimar. Sinto vontade de me afastar, de ficar quieto, de não falar enquanto tento entender o que está acontecendo dentro de mim.
Guerra interna e é só dentro que acontece tudo.
Eu não quero viver assim. Não quero transformar tudo que não conheço em alguma coisa que preciso temer. Não quero que o medo faça com que eu enxergue perigo onde talvez exista apenas uma coisa que eu ainda não entendo.
Mas também não consigo fingir que não sinto.
Então acho aue é isso que eu ainda não sei fazer, sentir o gosto do veneno sem deixar que ele me convença de que tudo ao redor está contaminado.
Porque algumas vezes ele vai voltar.
E eu ainda não sei quanto tempo vou levar para aprender a sentir a queimação sem precisar descobrir de onde ela veio.
Ele veste-se de prazer momentâneo,
mas esconde em si o veneno da morte.
Sussurra ao coração: “segue-me”,
mas conduz o homem ao abismo sem volta.
No instinto de sobreviver, o veneno se desfaz em silêncio, críticas tornam-se pó,
julgamentos se perdem no vento. E o ser, ainda de pé, atravessa a provação intacto.
A humildade é a armadura invisível que neutraliza o veneno da inveja, pois desarma quem não suporta o seu brilho autêntico.
A nostalgia é um veneno de sabor doce que a gente toma todas as noites, acreditando que o ontem era melhor apenas porque o hoje dói de um jeito novo. Ficamos viciados no que fomos, enquanto o que somos se desfaz como fumaça entre os dedos cansados.
O mesmo mundo criou,
o veneno a o antídoto,
o descrente e a religião,
o mal e o bem,
a guerra e a paz...
a morte e a vida é apenas
uma verdadeira ilusão!
