Veneno
Eu sou...
O teu pecado
Refém do teu costume degenerado
Venerado cálice de veneno destilado
Apreciado como absinto que te inebria
Distinto vício que ao seu instinto
desatina
Intrínseco desejo libertino
no âmago impresso e reprimido
Sórdido delito de um "mito" sádico
Que desfruta o fruto proibido
O hábito de um ávido sátiro
Oculto um segredo conspícuo de uma efêmera e lisonjeira ilusão
Arraigada obsessão de
uma insensata fantasia abstrata
Incrustado sentimento vil e estéril
No seu insano íntimo
Se permita ser completo e pleno
mesmo que a partida vá doer.
Se permita dar adeus ao veneno
mesmo se ele for teu bem querer.
"O boato é um veneno rápido,
de efeito tardio...
Mata a reputação de hoje e anula confiança futura."
O amor tem a incrível capacidade de ser tanto remédio, quanto veneno.
Tudo depende de quem o dá e de quem o tira.
Diante de acusações, maledicências e julgamentos, é melhor deixar o veneno escorrer do que bebê-lo ao reagir.
Peço por um copo de veneno — um copo mínimo em que só em um trago me faça suavizar a vida porque a vida agora me parece áspera.
A ganância pelo poder é como um veneno que corrói a integridade e a ética, levando indivíduos e sistemas a priorizar interesses próprios em detrimento do bem comum. A corrupção, então, se torna uma sombra que acompanha o poder mal utilizado.
A regulação virou o veneno do progresso. O Brasil é um museu de leis velhas e ideias mortas. E toda vez que aparece algo novo, o governo mata antes de nascer.
Gosto Amargo
Sabendo que eras veneno,
ainda assim bebi.
Gole por gole,
como quem tem sede de infinito.
Era amargo —
mas eu disse a mim mesmo
que era amor.
Afundei-me nesse sabor fugaz,
ardendo na língua,
queimando por dentro,
e mesmo assim
não larguei o copo.
Tinha tanta sede
que me afoguei em ti.
Inocente fui,
ao acreditar que era eterno
o brilho do teu sorriso —
sorriso que, pouco a pouco,
devastou o que havia em mim.
Hoje restam
solidão e dor,
filhas de uma tragédia veloz,
sem aviso,
sem direção.
Caminho agora
entre ruínas,
recolhendo pedaços
de um eu que já não existe.
E o que sobrou de mim
não sonha,
não espera,
não ama —
apenas respira
no silêncio pesado
de quem aprendeu
que o veneno
às vezes
tem gosto de eternidade.
O CONVITE
Cara de marrento, teus olhos são puro veneno, parecem que me prendem naquele momento.
Homão na altura, mas aparenta ser um menino quando se fala de ternura, mas será que se comportaria assim se me visse toda nua?
É trabalhador, honra seus compromissos com fervor, e isso me faz ficar ainda mais encantada com tantos atrativos, ou será que estou viajando ao sentir tudo isso?
A voz nem se fala, o timbre me apavora, me dá vontade de beijar ele na hora!
Fantasia existe, queria saber o que é realidade e o que é fetiche, mas já te fiz um convite.
A Iguaria do Abismo
Provei do cálice sem aviso,
como quem aceita um veneno por engano.
Não era morte o que ali estava,
mas uma mutação que não aceita plano.
Fui invadido por essa substância estranha
que agora corre onde antes era apenas sangue.
Dizem ser lenda, chamam de platônico,
falam que o que sinto é fumaça ou ficção.
Mas como pode ser nada, se pesa tanto?
Como pode ser vento, se me aperta a mão?
É real como a lâmina, como o corte vivo,
que se deixado ao relento, faz sangrar o chão.
Carregarei esse gosto para além do tempo,
em bagagens que a carne não pode segurar.
É um nó cego feito de seda e de espinho,
que não me solta, nem me deixa desatar.
Pois na doçura que cura e no amargo que fere,
descobri a verdade que o mundo ignora:
a vida, sem provar desse perigoso banquete,
seria apenas um relógio contando a hora.
Que sabor teria a existência, afinal,
sem essa iguaria que nos devora?
"Só quem já provou do veneno amargo das palavras, conhece o valor adocicado do silêncio."
-Aline Lopes
