Veio e Passou como um Cometa

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Lembrança


Velho destino, poeira do tempo
Para o olfato, o suor como pimenta
Para o paladar, o corpo todo

Caminhada


Caminhar, caminhar. Como é bom caminhar. Os pés se ajustando ao chão, se distendendo ao abranger a zona de equilíbrio do corpo. Era assim que eu pensava ao caminhar em círculos pelo meu quarto. O quarto não é grande mas tem uma saída, a janela. Lá enxergo os pombos asejando de topo a topo dos prédios. Logo ali as caturritas fizeram um ninho na parte alta do pinheiro. Ficam na altura da janela. Levam galhos para a rústica construção. São como eu, voltam para casa o quanto podem e se abrigam das feras. As feras estão em toda parte, menos no meu ninho. Há uma porta, um computador, um rádio, uma janela e um telefone. São canais que me ligam ao exterior. Eu vejo as feras no computador. É quando aparecem mais assustadoras, se pavoneando, mostrando os dentes e tentando ser sedutoras. Eu nunca me manifesto: que não saibam que eu existo. À noite tomo um chá. Queima a boca, eu gosto. Ontem o telefone tocou e eu estava tomando um chá. Respondi com uma voz fumegante. Fiquei com medo que não ligassem mais. Não tenho amigos, mas aí a ter inimigos, não dá! Eu não tomo remédios, mas alguém me indicou o Oxalato de Escitalopram. Mas para comprar só com receita. Então fui ao médico. O homem me examinou, mediu, dissecou. Descobri que eu era um doente, crônico, um neurastênico, quase oligofrênico. E com pressão alta. Observei as pombas da janela do médico e perguntei-lhe se ele gostava de caminhar. Ele me olhou desconfiado e eu imaginei as neuroses que ele estava descobrindo dentro do meu cérebro inocente. Fui saindo de mansinho enquanto ele escrevia alguma coisa. Deveria ser uma sentença. Um diagnóstico. Um epitáfio. Cheguei à farmácia com a receita. Os nomes dos remédios pareciam fórmulas químicas e eu, assustado, não comprei nada. Voltei para o meu quarto e fui ouvir uns discos. Essas coisas modernas não têm cheiro, nem vida. A música do vinil fluía junto com o som da agulha correndo pelos sulcos. Havia ruídos, estalos e uma sonoridade sofisticada e quente. A Wanda Landowska e o chá de capim cidró, isso combinava, mas queimei a boca de novo. O toca-discos era um mecanismo, mas não era uma criação que produzisse um som fantasmagórico como o do CD. Manifestação dos elétrons do micromundo. Já sonhei com os espíritos e mesmo já os ouvi. Ficam sob a minha janela cantando para mim para que eu fique louco. Serei um louco que acha que é médium, ou um médium que ouve espíritos loucos? Uma vez eu comprei uma tartaruga chinesa de pelúcia e dei de presente. Não gostaram. Então eu pedi de volta e nas noites quentes sonho em nadar nos trópicos com a tartaruga em evoluções fantásticas à luz da lua cheia. E também com as minhas bonecas espanholas ao som da salsa e do merengue. Ontem me lembrei de um tio, já morto. Já foi tarde. Como é bom envelhecer e ir ficando livre das malas. Haverá um dia, depois da guerra, da peste e da fome, em que eu estarei sozinho. Tão só que eu não vou ter mais motivo para não me conhecer profundamente. Depois de muitas décadas não haverá gente no caminho e eu vou poder me encontrar comigo. Vou estar em cada esquina, em cada bueiro, em cada ninho de pomba. Vou me enxergar como eu sou, não como agora em que deixo partes invisíveis. Vou me desejar sem a interferência de toda essa poluição humana.

Passeio


Lá estava eu, entre os meus coleguinhas, pensando em como passá-los para trás. O que eu podia fazer com o que tinha era fingir que era muito inteligente. Isso não podia funcionar e não era muito inteligente. Mas continuei com a minha farsa, na qual só eu acreditava. A única maneira daquilo dar certo era estudar muito, dedicar a vida ao estudo, mas eu não era idiota o suficiente para fazer isso. Eu não estudava, apenas ouvia o que os mestres falavam. Depois me tornei um cético e um descrente. A ciência tinha argumentos fortes, mas dava para sentir a farsa pela constante e onipresente afirmação dos seus princípios. Eu não ia cair nessa. A ciência e a religião procuravam ovelhas crédulas para vender o seu produto. Em ambos os casos se serviam da ignorância para criar a sua mágica. Um rebanho indefeso para lideranças sedentas de poder. Isso me afastou de todo mundo. O isolamento ajudou a desenvolver a minha criatividade, pois eu acabei tendo só a mim para conversar. Nos momentos de desespero, eu me lamentava por ser um nada, e estava certo! Como nada, eu fui me esvaziando ainda mais e ao mesmo tempo me completando. E fui ficando tão diferente que deixei de ser humano. Na minha ignorância, eu achava que estava doente, quando eu não podia ter mais saúde. Assim, fui tentando me adaptar a um mundo de loucos. Mas não tinha vocação para pirado e fracassei redondamente. Os loucos veem o mundo, mas não enxergam a sua visão, portanto são cegos. Não podem ver que eles são o mundo e o mundo que enxergam são eles. Conversei muito com os médicos, mas também eram doentes, como padres querendo me reformar para que eu coubesse nos seus preconceitos. E ainda demorei para compreender que o médico sou eu. Os meus amiguinhos cresceram e se tornaram peças da engrenagem. Parece que lá atrás eu já tinha a intuição de que ser inteligente não dá certo.

“Contos da Cidade Dourada”

Diziam que existia uma cidade onde o ouro crescia como mato.

Não era apenas uma metáfora. Para os olhos dos conquistadores, a América inteira parecia um jardim onde o ouro brotava do chão, a prata escorria das montanhas e a riqueza esperava, silenciosa, por mãos estrangeiras.

Chamaram-na de cidade dourada.
Uns lhe deram o nome de El Dorado. Outros a procuraram nas montanhas dos Andes, nos vales dos povos originários ou nas minas que pareciam não ter fim. Mas talvez a verdadeira cidade dourada nunca tenha sido um lugar. Talvez tenha sido uma maneira de olhar.

O ouro não era riqueza.
Era cobiça.
E a cobiça transforma qualquer paisagem em mercadoria.
Eduardo Galeano escreveu que a América Latina nasceu com as veias abertas.
É uma imagem impossível de esquecer.
Veias abertas não apenas porque lhe arrancaram o ouro, a prata, o açúcar, o café, a borracha e tantas outras riquezas. Mas porque também lhe roubaram o tempo. Roubaram a possibilidade de crescer no próprio ritmo. Roubaram histórias, línguas, culturas e até o direito de muitos povos contarem a própria versão do passado.

Quando um povo perde a memória, torna-se mais fácil convencê-lo de que nunca foi rico.
As montanhas de prata desapareceram.
As minas foram esvaziadas.
Os navios atravessaram o oceano carregados de tesouros.
Tudo aconteceu à luz do dia.

Sem máscaras.
Sem vergonha.

O assalto mais grandioso da história não precisou da escuridão da noite. Foi realizado sob o brilho do sol, registrado por cronistas, celebrado por impérios e justificado por discursos de civilização.
Há ladrões que escondem o rosto.
Há impérios que escondem a consciência.
A cidade dourada foi desaparecendo aos poucos.
Não porque o ouro acabou.
Mas porque quem o arrancava deixava para trás apenas o vazio.
Existe uma estranha lógica na ganância.
Ela nunca aprende a contemplar.
Sabe apenas possuir.
Tudo aquilo que toca perde o significado e ganha um preço.
Uma floresta deixa de ser floresta para se tornar madeira.

Um rio deixa de ser vida para se transformar em rota comercial.
Uma montanha deixa de ser sagrada para virar minério.
E um ser humano deixa de ser pessoa para tornar-se força de trabalho.
Talvez seja essa a maior pobreza da história.
Não a falta de ouro.
Mas a incapacidade de enxergar valor onde não existe lucro.

O mais inquietante é perceber que essa história ainda ecoa.
Mudaram os navios.
Mudaram as bandeiras.
Mudaram os discursos.

Mas a pergunta permanece a mesma: quem enriquece quando uma terra empobrece?

As veias de um continente não sangram apenas quando lhe retiram os metais preciosos.
Sangram também quando sua inteligência é desprezada, quando sua cultura é tratada como inferior, quando seus filhos acreditam que tudo o que vem de fora vale mais do que aquilo que nasceu em casa.

A cidade dourada continua existindo.
Não nas lendas.
Nem nas minas.
Ela vive escondida na dignidade de um povo que, apesar de séculos de exploração, continua produzindo arte, poesia, fé, música e esperança.

Porque há uma riqueza que nenhum conquistador conseguiu embarcar em seus navios.
A capacidade de recomeçar.
Talvez esse seja o verdadeiro ouro da América Latina.
Um ouro que não pode ser fundido, vendido ou roubado.
Um ouro que corre, silenciosamente, nas veias de quem ainda acredita que a história não termina com o saque, mas com a coragem de reconstruir aquilo que parecia perdido.
E talvez seja por isso que a cidade dourada nunca tenha sido encontrada.
Ela nunca esteve enterrada debaixo da terra.
Sempre esteve pulsando dentro das pessoas.
Dentro de cada um de nós; Latino Americano.

Seu corpo é como uma poesia

Seu corpo é como uma poesia
que meus olhos nunca se cansam de ler.

Cada verso revela um segredo,
cada curva guarda uma palavra
que somente o amor consegue compreender.

E quanto mais leio você,
mais desejo me aprofundar
nas entrelinhas da sua pele,
nos silêncios dos seus gestos,
na beleza dos detalhes
que nenhuma palavra consegue explicar.

Há poemas que lemos uma vez
e esquecemos.

Você, não.

Você é daqueles versos raros
que, quanto mais conhecemos,
mais profundamente nos apaixonamos.

E talvez amar seja exatamente isso:
passar uma vida inteira lendo a mesma poesia
e, ainda assim,
encontrar em cada página
uma nova razão para se apaixonar.

“Sonhos Quebrados”

Sim, quebraram-se os sonhos que tecemos juntos,
Caíram como vidro ao chão, em mil pedaços,
E cada fragmento corta fundo,
Lembrança afiada dos nossos abraços.

Mas não vim aqui chorar sobre as ruínas,
Nem lamentar o que o destino desfez,
Vim recolher os cacos, as esquinas
De tudo que amamos uma vez.

Porque mesmo quebrado, o sonho teve valor,
Mesmo partido, brilhou enquanto durou,
E não vou fingir que não houve dor,
Nem negar que profundamente me marcou.

Eu te amei com a força de quem acredita,
Com a coragem de quem não teme se entregar,
E se o sonho quebrou, a verdade está escrita:
Valeu cada risco que ousei tomar.

Não me arrependo dos castelos que erguemos,
Mesmo que o vento os tenha derrubado,
Não lamento as promessas que fizemos,
Mesmo que o tempo as tenha transformado.

Sonhos quebrados ainda contam histórias,
Falam de quem fomos quando ousamos sonhar,
De batalhas perdidas que são vitórias,
De um amor que se atreveu a existir sem calcular.

E eu aprendi, entre os destroços e a dor,
Que é melhor ter amado e perdido,
Do que viver sem conhecer o ardor
De um coração completamente rendido.

Então recolho os pedaços com firmeza,
Não como quem desiste ou se resigna,
Mas como quem honra cada certeza,
Cada momento em que a vida foi divina.

Porque nós fomos reais, intensos, verdadeiros,
Queimamos como chama que não se contém,
E mesmo que os sonhos tenham sido passageiros,
O amor que vivemos não pertence a ninguém.

Ele é meu, é nosso, é eterno,
Guardado onde o tempo não alcança,
No lugar mais profundo e interno,
Onde a memória vira esperança.

Sonhos quebrados não são o fim da história,
São apenas capítulos que se fecham,
E eu carrego nossa memória
Como ferida que as cicatrizes confessam.

Sim, dói. Não vou mentir dizendo que não dói.
Mas a dor prova que foi verdadeiro,
Que não fomos covardes, que não foi casual,
Fomos fogo, tempestade, amor certeiro.

E se um dia os cacos desses sonhos
Se juntarem novamente de algum modo,
Ou se seguirmos caminhos medonhos,
Separados, carregando o lodo,

Saiba que você foi meu sonho mais bonito,
Mesmo quebrado, ainda reluz,
E no silêncio do meu peito aflito,
Você ainda é a minha luz.

Sonhos quebrados, sim, mas não perdidos,
Guardados como joias imperfeitas,
Amores vividos, não esquecidos,
Feridas abertas, mas aceitas.

E eu sigo, firme, apesar da ruptura,
Não como quem desistiu de sonhar,
Mas como quem aprendeu que a vida é dura,
E mesmo assim, vale a pena amar.

“O Mundo e as Palavras”

Como fazer uma poesia se o mundo não vive uma poesia? Olho pela janela e vejo pressa, vejo indiferença, vejo gente passando por gente como se fossem sombras. Onde está o verso nesse corre-corre sem sentido? Onde está a rima nesse barulho que não cessa?
Como falar de amor se o mundo não ama mais? As pessoas tocam telas, não mãos. Enviam corações digitais, mas esqueceram como se abraça de verdade. O amor virou pressa, virou conveniência, virou algo que se descarta quando incomoda. E eu aqui, com palavras antigas tentando descrever um sentimento que parece fora de moda.
Como escrever histórias se o mundo não faz mais histórias bonitas que tocam o coração? Tudo é rápido, superficial, descartável. As narrativas viraram manchetes, os encontros viraram notificações, os sonhos viraram metas de produtividade. Ninguém mais se senta para ouvir uma história completa. Querem o resumo, a versão curta, o final sem o caminho.
Como prometer um mundo diferente se o mundo não quer mudar? Ele insiste nos mesmos erros, repete as mesmas dores, ignora as mesmas lições. Falo de esperança e me olham como se eu falasse língua estrangeira. Falo de transformação e dizem que sou ingênuo.
Mas talvez seja exatamente por isso que preciso continuar. Porque se o mundo não vive poesia, alguém precisa escrevê-la. Se não há amor suficiente, que eu possa oferecer o meu. Se as histórias não tocam mais, que eu insista em contar aquelas que fazem o coração lembrar que ainda bate.
Talvez mudar o mundo comece justamente quando nos recusamos a aceitar que ele não pode ser diferente.​​​​​​​​​​​​​​​​

A arquitetura da alma

Assim como uma casa não se sustenta sem alicerces, o homem também não permanece de pé sem uma estrutura interior. A alma possui sua própria arquitetura. E tudo nela depende daquilo que, em silêncio, foi sendo construído ao longo do tempo: hábitos, valores, renúncias, convicções, memórias e fidelidades.

Há homens belos por fora e arruinados por dentro. Há homens simples por fora e majestosos por dentro. Isso porque a verdadeira grandeza não está no acabamento aparente, mas na solidez do que foi erguido no invisível. A alma mal construída desaba diante de elogios excessivos, críticas duras, desejos desordenados ou perdas inevitáveis. Já a alma bem arquitetada atravessa tempestades sem perder completamente a forma.

Construir a alma exige trabalho paciente. Ninguém se torna justo por acaso, nem sereno por impulso, nem sábio por aparência. Cada escolha é um tijolo. Cada renúncia limpa o terreno. Cada verdade aceita fortalece as colunas. Cada queda enfrentada com humildade reforma rachaduras internas. O homem vai se tornando morada de si mesmo.

Mas toda arquitetura revela uma intenção. A pergunta essencial é: para que estamos construindo? Há almas erguidas para a vaidade, para o poder, para a aprovação. E há almas construídas para a verdade, para o amor, para a responsabilidade e para o bem. Só estas permanecem habitáveis quando a vida endurece.

No fim, o legado de um homem não é apenas o que ele deixou no mundo, mas aquilo que ele edificou dentro de si. Porque a alma é a obra mais importante que alguém pode construir. E quando ela se torna firme, clara e justa, passa a servir de abrigo não apenas para si mesma, mas também para todos os que dela se aproximam.

Os inimigos mais perigosos não vêm armados, mas disfarçados, elogiando e sentando-se à mesa como grandes amigos.

O Natal, para muitos, é como ir ao aniversário de alguém querendo receber os parabéns e todos os presentes.

Atravessar o inferno é doloroso, mas fortalece como nenhum outro lugar; quando você conhece o caminho da saída, nada mais é capaz de te abalar.

O paradoxo da justiça: culpados compram inocência; inocentes são vendidos como culpados.

O auge do branding é quando
o consumidor paga empresas
para usarem seus corpos
como vitrines ambulantes.

O arrogante que se julga sábio usa o silêncio como forma educada de desprezo.

Adorar a Deus ignorando Jesus é como tentar compreender Sócrates rejeitando Platão.

Antes de existir o crime, havia o pecado que o condenava como errado. Acima de todas as leis está a lei de Deus.

Temos a ilusão de ser “os donos da casa” e ver os outros apenas como visitantes; mas todos somos visitantes na história de Deus.

Sem saber o que fazer, a noite passa como se fosse infinita, o relógio gira às voltas, mas o mundo gira com surpresas que têm duas respostas para uma só pergunta e eu acabo escolhendo a terceira resposta.

Tenho a agonia de ser frio como o fogo na veia. É minha aura narcisista tentando se auto-aquecer para arrefecer a mente quando o mundo só sopra vento.

Conhecimento é poder e poder é como você utiliza esse conhecimento para fazer coisas incríveis, utilize-o de forma sábia.