Textos de Jardim

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IMPERMANÊNCIA


Não saia do seu jardim
para correr atrás de borboletas;
um dia, elas virão a ele;
Tão somente, silencie o caos da mente.
Não rogue aos deuses maldades aos inimigos;
que eles tenham seu perdão.
Tenha a dádiva da consciência limpa.
Ademais, tudo na vida passa,
até os mais fortes de espírito.
A alma, convalescendo no infortúnio,
não se despedirá e nem sentirá
o dia do adeus.


Ysrael Soler

Jardim de Pragas Antigas


Era uma quinta feira normal, fui pra escola como sempre, sentei-me em minha carteira e esperei a aula começar. Tudo estava ocorrendo normal como todos os dias, conversas sem pausa, professores pedindo por respeito e alunos que não fechavam a boca por nada. Até que chegou a aula de sociologia, a professora estava lecionando sobre cultura, e entre uma palavra e outra trouxe o exemplo do carnaval, uma cultura muito forte no Brasil. Quando que do nada percebi os diversos comentários horríveis: ‘O povo que vai pro carnaval deve ir pro inferno’, ‘esse povo da Bahia, que cultua a macumba, é do demônio’. Isso e muito mais foi o que alguns meninos falaram. O clima ficou pesado, senti como se tivesse caído uma tempestade em cima de mim, a umbanda faz parte de mim, e escutar aquilo colocou-me no tão temido inferno que eles acreditam.


Fiquei pensando naqueles meninos, esses atos não são de agora, remetem ao passado, são como ervas daninhas em um jardim florido, mas que apesar de destruir todos os diferentes à sua volta, tem raízes profundas, tão fundas que remetem ao descobrimento das terras que conhecemos hoje. São plantas tão bem estruturadas que não são mortas com qualquer veneno, a cada novo ser que nasce nesse jardim, ele é brutalmente infectado, fazendo-o proferir a mesma praga de seus antecessores. Aqueles que não são contaminados, sofrem com essa praga, combatem-na com toda a sua força, são pessoas que ainda acreditam na salvação desse canteiro. Esses novos seres que nascem, são os únicos que podem acabar com o padrão de contaminação, já que estas plantas jovens têm seus caules mais puros e se olhassem para outro lado, poderiam se agarrar em vegetações firmes, assim seriam livres dessas ervas daninhas.


O silêncio ecoava pelos corredores, era uma quietude que doía e ao mesmo tempo ardia na alma, tudo aquilo estava sem controle, nenhuma palavra vinha para acalmar aquela tempestade, e nem se quer uma tentativa de segurar aquelas pragas. Tudo estava já danificado, eu teria de ser forte, já que ninguém estava lá para arrancar as ervas daninhas. Mas mesmo que calassem-nas, não adiantava mais, raízes profundas não morrem com o corte do caule, devem ser tratadas em essência.


Quando bateu o sinal para finalmente ir para casa, fechei a mochila e fui caminhando para casa. O peso da mochila era gigante, o silêncio amedrontador da escola misturado com todas aquelas ervas daninhas ao meu redor, e aquela tempestade imensa em cima da minha cabeça. Refleti o caminho todo, não sou como eles, pensei, e é isso que importa. Enquanto mergulham em águas turbulentas, eu vivo a minha fé, e caminho por jardins límpidos. Claro, tenho muita vontade de curar suas pragas, mas não sou capaz, só eles próprios podem acabar com um padrão imposto em seu interior. Só sei de uma coisa, algum dia a própria terra em que estão plantadas, cobrará o preço, o inverno chega e só fica quem é verdadeiro e saudável por dentro.

O Jardim Secreto da Sua Essencialidade

A viveza de um jardim secreto para aqueles que não sabem amar;
cultivado pelo amor divino.
No seu âmago, uma flora verdejante
e a flor mais bela em destaque
e a luz do sol iluminando as suas pétalas.
Assim descrevo a sua essencialidade,
revestida pela arte da sua natureza —
atração feita de romantismo e intensidade
na composição da bênção que é a sua integridade.

Este feliz

Ah! Minha amada,
Quem resistirá aos teus encantos?
És flor nova posta ao jardim...
Exultante e de beleza sem fim.

Se em mim jaz o meu coração
Já derramado em prantos,
Não me resta consolo
De vê-la acolhida longe de mim.

Muito se alegra quem se apaixona,
É feliz quem hoje te ama.
Fosse eu a tua alegria,
Seria eu mais que este feliz...

Edney Valentim Araújo

Deus proibiu que Adão voltasse ao jardim, no éden todos nós vivemos. Para que paraíso maior que esse onde as árvores crescem e produz fruto por conta própria, onde a chuva cai na estação certa, onde o nascer do sol tem hora marcada em cada canto da Terra, onde o pôr do sol embeleza o azul do céu, onde a água passeia pelo Interior da terra formando minas de águas, grandes e enormes reservas, onde o homem colhe o que planta, onde a essência da palavra percorre a veia de todos que se deixam ser conduzidos por ela. Se o homem não vê o éden, com todas essas maravilhas, vai querer ver o éden aonde?


Sabe o jardim de uma casa? Se vc sair da área do jardim, vc ainda assim continua na sua casa. A diferença é que o jardim tem flores, já dentro da sua casa não. Ou seja, o que Adão tinha disponível e sem esforço, passou a ter que adquirir com sacrifício.

Perturbador e puro




A tua voz ainda é música, ela preenchi,


Se esconder no jardim do talvez foi uma doce mentira de outras próximas vezes,


O intenso é perverso e se deixa escapar quando o impossível repousa,


O tentar desistir apenas ensina "que aquilo que não volta é porque nunca foi seu",


sendo assim, no amor a confiança tem um ritmo perturbador e puro.

Encontrei a flor do jardim,
A mais bela que eu já vi,
Meu coração reacendeu em fogo
Quando teus olhos brilharam pra mim.


Teu beijo é névoa constante,
Que cobre a alma devagar,
Um toque doce e distante
Que me faz querer ficar.


E mesmo quando a noite cai,
Teu perfume ainda vem me encontrar,
Como um sonho que nunca se vai,
Como um amor que nasceu pra durar.

Bons Tempos e Maus Tempos


Nos bons tempos, o amor floresce como um jardim iluminado pelo sol. Cada sorriso parece eterno, cada abraço aquece a alma, e o coração encontra paz ao lado de quem ama. Nesses momentos, a vida ganha mais cor e os sonhos parecem possíveis.


Mas os maus tempos também chegam, trazendo saudade, silêncio e lágrimas. As dificuldades colocam o amor à prova, fazendo o coração sentir o peso da distância, das dúvidas e das despedidas. Ainda assim, é nesses dias que descobrimos a verdadeira força dos sentimentos.


Quem ama de verdade aprende que bons e maus tempos fazem parte da mesma história. O amor não é apenas alegria, mas também coragem para permanecer, perdoar e acreditar. No fim, cada dificuldade vencida torna o sentimento ainda mais forte e mais bonito.

No Jardim do Entardecer


No cair da tarde, meu coração desperta como um jardim sedento pela chuva.
As flores inclinam suas pétalas ao vento, esperando o som dos teus passos. Há um perfume que nenhuma estação consegue apagar, porque nasceu no dia em que tua voz
encontrou a minha e fez do
silêncio um lugar de encontro.


Procurei-te entre as sombras das árvores, onde a luz beija a terra antes de desaparecer. Chamei-te pelo nome que só a alma conhece, e o vento levou meu clamor pelos caminhos do jardim. Meus olhos buscavam tua presença como a terra seca espera o orvalho, porque uma única palavra tua vale mais que todos os tesouros escondidos sob o sol.


Se tua voz voltar a atravessar o entardecer, as figueiras florescerão outra vez e os rios cantarão o teu nome. Meu coração correrá ao teu encontro como quem reencontra a própria vida, pois teus passos transformam desertos em pomares e teu olhar faz renascer tudo o que parecia perdido.


Enquanto o dia se despede, permanecerei junto ao portão do jardim, guardando o lugar onde um dia caminhamos. Não deixarei que a esperança adormeça, porque sei que o Amado visita aqueles que o esperam.
E quando tua voz romper o silêncio da tarde, saberei que o jardim nunca deixou de ser teu...
apenas aguardava o dia do nosso reencontro.

Ah, deixa-me entrar nessa alma tua,
Nesse jardim de espinhos e de rosas!
Sei que choraste noites dolorosas
Sozinha, à espera de uma luz que flua.


Foste sempre a que ama e que se entrega,
A que dá tudo e fica com o nada,
Três vezes desposada, e nenhuma amada
Como o teu peito, ardente, o exigia e nega.


E se não fosse assim tão fundo o teu tormento,
Se Apeles não te houvesse ido roubar
Metade do teu ser, do teu alento,


Talvez pudesses hoje, devagar,
Trocar o Veronal por um lamento
Dito em verso, e ficar, só para amar.

O Espinho da Alma

Você olha o jardim e só vê o que fere,
Julga a rosa tão linda por ter proteção.
Aponta o espinho, diz que não tolera,
Mas esquece que a flor não tem má intenção.

É fácil culpar a defesa do outro,
Quando o seu próprio peito é um campo de dor.
Você rasga as pétalas, faz tanto alvoroço,
Mas no fundo, o espinho é o seu próprio temor.

Quem fala mal do espinho da rosa,
Só quer arrancar o que fere por dentro!
Disfarça a ferida, a alma espinhosa,
E joga na flor o seu próprio tormento!

A rosa não ataca, ela só se defende,
Faz parte do ciclo, do jeito que é.
Mas quem tem espinhos na alma não entende,
E tenta cortar pela raiz, pelo pé.

Olhe no espelho, encare a verdade,
A flor não tem culpa da sua tempestade.
Abrace os espinhos que moram em ti,
E deixe a rosa florescer por aí!

Quem fala mal do espinho da rosa,
Só quer arrancar o que fere por dentro!
Disfarça a ferida, a alma espinhosa,
E joga na flor o seu próprio tormento!

Aqui está a poesia e a música que você pediu!

A Flor e o Espelho

A flor encanta, o toque fere,
O dedo aponta, o medo insere.
Critica o espinho que a rosa sustenta,
Esquecendo a dor que na alma aumenta.

Quer podar o outro, arrancar o perigo,
Mas é seu próprio ego seu maior castigo.
O que te espeta no alheio jardim,
É o seu espinho, brotando em mim.

Quem fala mal do espinho da rosa!
Quer arrancar o que em si repousa!
Quer tirar de si, a ponta afiada!
Numa busca em vão, por estrada errada!

O espelho reflete, a mão se recolhe,
O que o peito esconde, o olhar não acolhe.
Aceite a ferida que a flor traz consigo,
Antes que o espinho se torne o abrigo.

Ontem invadiram meus canteiros,
Espezinharam minhas flores,
Partiram todos os vasos
Do meu jardim
Rasgaram minhas vestes
Ultrajaram meu nome,
Alagaram de sangue
Os meus olhos.
Apedrejaram meu rosto
Ainda de menina
Onde resplandeciam quimeras
Numa rua com nome de poeta
Defronte a tanta gente…
E gritaram urros de vitória,
Zombaram,
Rebolando álcool, chapinhando
No sangue da imbecilidade,
Ocos estes crânios de gente.


Hoje bem tentam devastar
No absurdo da existência
As sementes que guardei
Daquele anoitecer
Parido de Primavera.


Mas eles não sonham,
Nunca o fizeram
Eles não podem pensar,
Foi-lhes vedada a lucidez.


Agora tenho tulipas, cravos,
Roseirais, girassóis
E até ervas do campo a crescer
Num coração que continua a bombear
O mesmo sangue outrora profanado
Numa rua com nome de poeta.


Célia Moura, in "Terra de Lavra"

O seu ego joga maus dizeres a minha pessoa que se tornam flores no meu jardim.
Meus sentimentos e pensamentos são uma vasta floresta o sois diante do ecossistema.
Nos valores da moral e a ética ganhamos uma divisão de valores.
O psicológico do ser humano está abalado pelo stress diário e alienação social é um triunfo da tecnologia...

Flores e Cosmos
​Flores no jardim,
Sentimentos ao vento frio.
Meros atrozes artificiais...
Portais da imensidão.
Me vejo em teu nu, na vastidão.
​Flores que morrem no inverno,
Flores mortas no vaso...
Tantas possibilidades no universo,
Sois a poeira que o vento levou,
Mas a saudade inflamou.
​Nos níveis mais profundos estás viva,
Nas obras do destino te encontrei...
Aonde o espaço e o tempo dobram a realidade.
​Rosas do galho seco voltam à vida.
Na luz cálida da lua, suas pétalas caem
Sobre o mar remanescente da vida.
No brilho das estrelas, vejo o fogo da sua paixão.

*O Uniforme da Virtude*


O jornal apareceu no meu jardim numa manhã em que eu não estava esperando por notícias.


Não era assinante. Nunca fui muito chegado a jornais, principalmente depois que descobri que as tragédias do mundo chegavam mais rápido pela internet e as mentiras continuavam chegando no mesmo ritmo.


Peguei o jornal pela ponta, como quem recolhe alguma coisa suspeita.


Levei para a varanda.


Sentei na cadeira velha e coloquei os pés sobre o parapeito. O gato estava deitado no degrau. Olhou para mim. Miou.


Parecia perguntar:


— Você vai realmente ler isso?


Não respondi.


Ele se espreguiçou, virou de costas e foi cuidar de assuntos mais importantes. Provavelmente dormir.


Abri o jornal.


Na primeira página havia um cidadão sorrindo.


Era um dos homens que ocupavam um dos cargos eletivos daquela nova cidade. O sorriso tinha aquela medida exata que os fotógrafos gostam. Nem alegria demais, nem preocupação demais. Apenas o suficiente para parecer humano.


Ao lado da fotografia, um título falava sobre dignidade humana.


Li.


O homem defendia respeito, inclusão, empatia, tolerância e todas aquelas palavras que hoje aparecem juntas com a mesma facilidade com que antigamente se escrevia “atenciosamente” no fim de uma carta.


Continuei lendo.


Não havia nada errado com o que ele dizia.


Esse era justamente o problema.


O sujeito tinha aprendido a dizer tudo certo.


Fiquei alguns minutos olhando para o papel.


Pensei que talvez eu estivesse ficando velho demais para certas coisas. Talvez o problema fosse comigo. Talvez fosse apenas implicância de um homem que já viu muita gente falar bonito antes de fazer alguma coisa feia.


Mas então lembrei que tratar alguém com respeito nunca foi o problema.


O problema começa quando a virtude vira uniforme e a consciência passa a usar crachá.


Parei de ler.


O gato voltou.


Sentou ao meu lado.


Olhou para o jornal.


Depois olhou para mim.


— É — eu disse. — Também achei estranho.


Voltei ao texto.


O homem falava sobre uma sociedade mais humana. Era uma boa ideia. Quase bonita.


Só que eu conhecia aquele tipo de discurso.


A cidade continuava cheia de gente que passava por moradores de rua sem enxergá-los. Velhos continuavam conversando sozinhos dentro de apartamentos silenciosos. Crianças aprendiam cedo que certas coisas eram vendidas antes mesmo de serem compreendidas.


E nós continuávamos medindo pessoas.


Pelo salário.


Pela aparência.


Pelos seguidores.


Pela utilidade.


Pela capacidade de nos servir.


Depois chamávamos aquilo de sociedade civilizada.


Talvez fosse por isso que a expressão “politicamente correto” tivesse adquirido tanta importância.


Não porque respeito fosse ruim.


Respeito é necessário.


O problema é quando a palavra passa a substituir o comportamento.


Trocaram a ética pela etiqueta.


É mais fácil.


Etiqueta exige apenas que você saiba onde colocar o garfo.


Ética exige que você saiba onde colocar a própria crueldade.


E isso dá trabalho.


Continuei lendo.


O político falava sobre empatia.


Eu pensei em quantas pessoas conhecia que publicavam frases sobre empatia e não conseguiam ouvir cinco minutos de alguém que discordasse delas.


Era uma coisa curiosa.


A crueldade havia aprendido gramática.


A hipocrisia descobrira o vocabulário da inclusão.


A mentira tinha feito faculdade.


E eu não estava completamente fora disso.


Foi aí que a leitura começou a ficar desagradável.


Porque é fácil apontar o dedo para o sujeito da fotografia.


Mais difícil é olhar para a própria mão.


Eu também já fui injusto.


Já tratei pessoas como inconvenientes porque estavam atrapalhando meu dia.


Já concordei com alguém em público e pensei o contrário em silêncio.


Já me calei diante de uma covardia porque falar custaria alguma coisa.


Já fui educado quando deveria ter sido honesto.


E talvez essa seja uma das formas mais discretas da hipocrisia.


Não mentir para os outros.


Mentir para si mesmo com boas maneiras.


Fechei o jornal.


Fiquei olhando para o jardim.


O gato tinha encontrado uma sombra e dormia dentro dela.


Ele não precisava escrever sobre dignidade.


Não precisava defender ninguém.


Não precisava publicar uma frase bonita.


Se alguém o incomodasse, ele simplesmente iria embora.


Talvez houvesse alguma sabedoria nisso.


A verdadeira decência nunca precisou de cartilha.


Ela aparece quando ninguém está olhando.


Quando você poderia humilhar alguém e decide não fazê-lo.


Quando poderia esmagar e prefere não usar a força.


Quando discorda sem precisar transformar o outro em inimigo.


Quando ninguém está fotografando.


Quando não existe plateia.


Quando não existe recompensa.


Talvez seja aí que começa o caráter.


Todo o resto pode ser teatro.


E o teatro sempre foi um esconderijo confortável para quem tem medo de ser visto sem maquiagem.


Voltei a abrir o jornal.


A fotografia continuava ali.


O sorriso também.


Pensei que talvez o homem da fotografia acreditasse sinceramente no que havia escrito.


Isso também me incomodou.


Porque seria mais fácil se ele fosse apenas um canalha.


Mas ninguém é apenas uma coisa.


Nem eu.


Nem ele.


Nem o sujeito que fala sobre moral enquanto pisa no outro.


Talvez o maior escândalo do nosso tempo não seja a existência de pessoas ruins.


Elas sempre existiram.


O problema é outro.


Aprendemos a vestir a roupa da virtude.


Aprendemos quais palavras provocam aplausos.


Aprendemos quais indignações rendem aprovação.


Aprendemos a parecer bons.


E, em algum momento, esquecemos de perguntar se ainda somos.


Olhei novamente para o gato.


Ele abriu um olho.


— Você tem alguma opinião sobre isso?


Ele fechou o olho.


Justo.


Talvez a humanidade pudesse aprender alguma coisa com os animais.


Eles não costumam fingir que são melhores do que são.


Nós fazemos o contrário.


Construímos discursos para esconder nossos dentes.


Chamamos isso de civilização.


Chamamos de progresso.


Chamamos de consciência.


Às vezes, talvez seja apenas medo de admitir que continuamos sendo animais assustados, egoístas e famintos por aprovação.


A diferença é que agora sabemos escrever sobre isso.


E escrever bem sobre humanidade não torna ninguém humano.


Fechei o jornal de vez.


Coloquei-o sobre a mesa.


O gato continuava dormindo.


Fiquei ali, olhando para ele e pensando que talvez eu tivesse passado a manhã inteira procurando hipocrisia nos outros para não precisar encontrá-la em mim.


Essa foi a parte que mais me incomodou.


Porque a consciência também sabe usar uniforme.


E, quando quer, sabe até sorrir para a fotografia.

Companheira

Tu és a flor mais linda do jardim de Deus.
Isto tudo se comprova, no meio dos teus.
Mulher dedicada,
Digna de ser amada.
Não somente por sua dedicação
Mas sim pelo amor dentro deste coração.
Companheira e grande amiga
Sempre juntos achamos saída.
Seja na hora da luta e dificuldade
Vencemos unindo forças e vontade.

Nós e as Flores 🌹


Se o amor fosse jardim, o nosso teria seu nome.
Você seria a rosa que desabrocha devagar,
e eu o sol teimoso que insiste em te aquecer
até a noite virar dia no seu olhar.


A gente briga igual chuva de verão:
molha, bagunça, mas faz florir depois.
A gente se perdoa igual perfume:
chega quieto e fica na pele um do outro.


Me dá sua mão que eu planto promessas.
Me dá seu tempo que eu cuido das pétalas.
Pra gente ser casa, ser colo, ser chão...
e todo dia, escolher se regar.


Porque nós dois, amor,
somos raiz e flor no mesmo vaso.

A PELEJA DA ABELHA COM A MOSCA


I


Num jardim nasceu a peleja,
Que o destino foi traçando;
Abelha, rainha das flores,
Seu trabalho cultivando.
Mosca vinha do outro lado,
Cada qual seu rumo andando.


II


Disse a Abelha, muito altiva:
— Eu vivo do puro mel,
Faço cera, gero vida,
Cumpro um nobre e bom papel.
Quem visita flor perfumada
Nunca perde seu troféu.


III


Respondeu logo a Mosca,
Sem baixar sua cabeça:
— Cada ser tem seu caminho,
Sua sina e sua peça.
Não escolhi meu destino,
Nem a vida que me cerca.


IV


A Abelha retrucou ligeiro:
— Gosto bom é o da flor!
Quem procura coisa limpa
Leva paz, perfume e cor.
Quem vive entre imundícies
Não conhece o verdadeiro amor.


V


A Mosca falou sorrindo:
— Prazer muda de pessoa;
O que é doce para uns,
Pra outros não se entoa.
Cada qual segue o costume
Que a existência lhe abençoa.


VI


A Abelha fez ferrão,
Defendendo seu reinado;
A Mosca bateu as asas,
Sem mudar de seu traçado.
Cada qual julgando a outra,
No seu mundo fechado.


VII


Uma buscava o néctar
Nas campinas coloridas;
Outra rondava os caminhos
Das sobras já esquecidas.
Duas formas de viver,
Duas rotas tão distintas.


VIII


Mas o tempo, velho mestre,
Ensinou sem humilhar:
Nem só flores dão sustento,
Nem só lixo há de ficar.
Toda vida tem seu ciclo,
Seu nascer e seu findar.


IX


Disse então a Natureza:
— Parem já de discutir!
Cada qual cumpre um serviço
Que não pode se medir.
Quem condena a escolha alheia
Pouco aprende a refletir.


X


Abelha produz o mel,
Mosca limpa o que apodrece;
Uma encanta os jardins,
Outra evita o que fenece.
Mesmo sendo tão diferentes,
Cada qual à vida tece.


XI


Gosto, hábito e costume
Nem sempre são iguais;
Cada um faz sua estrada
Entre erros e ideais.
Não existe um só caminho
Para todos os mortais.


XII


Terminou-se a velha peleja
Com lição de igualdade:
Quem despreza o semelhante
Só cultiva a vaidade.
Abelha e Mosca, no fim,
São iguais nas diferenças da humanidade.

O IMPERDOADO.
A infância não chegou como jardim.
Veio semelhante a um corredor austero de vozes severas.
Mãos invisíveis moldaram-lhe os ossos da alma.
Ensinaram-lhe a curvar-se antes mesmo de compreender o peso dos céus.
Disseram-lhe que sentir era fraqueza.
Que o homem digno deveria transformar lágrimas em silêncio.
Que a obediência era mais importante que a verdade interior.
Então ele cresceu.
Cresceu como crescem as árvores atingidas pelo inverno perpétuo.
Fortes por fora.
Mortas em regiões ocultas.
Carregava nos olhos um oceano imóvel.
Os dias passavam semelhantes a procissões de ferro.
O mundo exigia máscaras.
E ele as vestia uma após outra.
O filho exemplar.
O homem disciplinado.
O rosto imóvel diante das tragédias.
A criatura útil diante das engrenagens sociais.
Mas cada renúncia enterrava um fragmento de si.
As cidades iluminavam-se enquanto sua consciência escurecia.
Os salões celebravam triunfos vazios.
Os homens brindavam conquistas sem perceber o abismo que carregavam no peito.
Toda civilização possui seus palácios.
E seus cemitérios invisíveis.
Ninguém ouviu o colapso dentro dele.
Certas dores não produzem gritos.
Produzem desertos.
Durante anos caminhou entre multidões como um espectro filosófico.
Falava pouco.
Observava muito.
Aprendera que o mundo teme aqueles que enxergam excessivamente.
Então certa noite.
Quando os sinos interiores da existência estremeceram sua memória.
Ele viu.
Viu a própria vida semelhante a uma catedral incendiada.
As virtudes impostas.
Os afetos mutilados.
Os sonhos executados lentamente pela disciplina cruel dos homens.
Percebeu que fora domesticado para sobreviver.
Jamais para viver.
E naquele instante o universo tornou-se pesado.
As estrelas pareciam lápides suspensas sobre a humanidade.
O vento possuía gosto de ruína antiga.
Os rostos humanos tornaram-se máscaras fatigadas buscando sentido entre guerras, vaidades e solidões intermináveis.
Então o Imperdoado ergueu-se.
Não como herói glorioso das antigas epopeias.
Mas como sobrevivente metafísico de uma civilização emocionalmente enferma.
Sua revolta não nasceu do ódio.
Nasceu do esgotamento da alma.
Ele compreendeu que muitos homens morrem décadas antes do túmulo.
Que inúmeras existências continuam respirando mesmo depois da destruição interior.
Que existem corpos vivos carregando espíritos exaustos pelas avenidas do mundo.
E chorou.
Não por fraqueza.
Mas porque finalmente encontrou os escombros de si mesmo.
As muralhas emocionais desabaram como impérios antigos.
Toda a dor silenciada regressou semelhante a uma tempestade sepulcral.
As humilhações esquecidas.
Os amores sufocados.
As palavras jamais pronunciadas.
As despedidas jamais compreendidas.
Tudo voltou.
E diante da eternidade indiferente das constelações.
Ele fitou a própria existência e disse silenciosamente.
“Roubaram-me a essência antes que eu pudesse conhecê-la.”
Desde então tornou-se andarilho das sombras interiores.
Não buscava glória.
Não desejava absolvição.
Procurava apenas um fragmento intacto da própria identidade sob os destroços do mundo.
Porque certas almas não desejam vencer.
Desejam apenas não desaparecer completamente dentro daquilo que os homens chamam civilização.
E os céus permaneceram imóveis.
Como sempre permaneceram diante das tragédias humanas.

NO JARDIM DO EVANGELHO.
No jardim do Evangelho, cada palavra do Cristo assemelha-se a uma semente lançada sobre a terra fatigada da alma humana. Algumas germinam entre lágrimas silenciosas. Outras florescem apenas depois de longos invernos interiores. Contudo, nenhuma delas perece diante da Eternidade, porque a verdade espiritual possui raízes mais profundas do que os abismos da dor humana.
Os homens edificaram impérios de pedra e orgulho. Levantaram muralhas para proteger os próprios interesses e coroaram a inteligência sem compaixão. Entretanto, sob a claridade serena do Evangelho, toda soberba transforma-se em pó transitório. Apenas o amor permanece incorruptível diante das eras.
O jardim do Cristo não é cultivado com triunfos mundanos. Suas flores crescem na renúncia silenciosa da mãe que sofre. No perdão do homem humilhado. Na oração daquele que chora sozinho durante a madrugada. Na mão estendida ao miserável quando ninguém mais deseja vê-lo. Cada virtude é um lírio invisível brotando sobre os escombros morais da humanidade.
Muitos procuram Deus nos estrondos exteriores da glória humana, mas o Evangelho continua florescendo em regiões discretas do espírito. Ele vive na consciência que desperta para o dever. Na lágrima que se converte em entendimento. Na dor que educa sem destruir. E na esperança que permanece acesa mesmo quando o mundo inteiro parece coberto pela noite.
O Cristo jamais prometeu caminhos adornados de facilidades. Sua voz, porém, atravessou os séculos oferecendo ao homem algo infinitamente maior do que o conforto terrestre. Ofereceu sentido. Ofereceu redenção moral. Ofereceu a possibilidade sublime de o espírito transformar as próprias sombras em claridade.
No jardim do Evangelho não florescem apenas rosas. Também existem oliveiras antigas de sofrimento, ciprestes de saudade e espinhos necessários ao aprendizado da consciência. Ainda assim, sobre cada dor sincera repousa a luz educadora da Providência Divina, conduzindo lentamente a criatura para estados superiores de entendimento e sensibilidade.
Feliz daquele que aprende a caminhar entre essas flores invisíveis da alma. Porque o mundo poderá retirar-lhe os bens passageiros, as honrarias efêmeras e até os afetos terrenos. Porém, jamais conseguirá arrancar do espírito humano a fragrância eterna do Evangelho vivido em profundidade.
Quando os séculos consumirem os monumentos da vaidade humana, ainda permanecerá intacta a voz do Cristo ecoando entre os jardins silenciosos da consciência, chamando cada criatura para a grande ascensão moral do espírito imortal.


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