Sementes de um Jardim Secreto Página... RUISDAEL MAIA

Sementes de um Jardim Secreto
Página 2017 — 12/07/2026 • 493 dias

Para Minha Eterna Esposa Jessica Milena dos Santos Maia


Há dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra.


Hoje faz 493 dias que o jardineiro aprendeu que a ausência também tem voz. Ela não grita, não exige, não se impõe. Apenas permanece, como a terra que espera pela chuva sem saber quando o céu voltará a se abrir.


É insuportável amar uma flor e não poder contemplá-la ao amanhecer. Caminhar pelo jardim sabendo exatamente onde ela florescia e encontrar apenas a lembrança do perfume que um dia encheu o ar. O coração continua reconhecendo o lugar onde ela estava, como quem procura instintivamente uma estrela que já não aparece no horizonte.


Descobri que existem dores que não diminuem porque o amor não diminui. O tempo ensina a respirar, mas não ensina a esquecer. Há raízes que crescem tão profundamente que nenhuma estação consegue arrancá-las da terra da memória.


Às vezes imagino que o vento ainda passa por ela. Que as manhãs ainda tocam suas pétalas com a mesma delicadeza com que Deus desperta as flores do campo. E faço uma oração silenciosa para que jamais lhe falte luz, ainda que meus olhos já não possam contemplar seu florescer.


Foi então que me lembrei das palavras das Escrituras: **"As muitas águas não poderiam apagar este amor, nem os rios afogá-lo."** (Cantares 8:7).


Talvez seja isso que torna certas ausências tão difíceis de suportar. O amor verdadeiro não desaparece quando a distância chega. Ele continua existindo como uma raiz escondida, invisível aos olhos, mas viva debaixo da terra.


Sei que o jardineiro não é dono das flores. Apenas recebeu o privilégio de cultivá-las enquanto Deus permitiu. E, mesmo quando as estações mudam, ele continua agradecendo por cada primavera que viveu.


Ainda há noites em que o jardim parece grande demais para um único coração. Ainda há manhãs em que a saudade chega antes da luz. Ainda há momentos em que tudo o que desejo é ouvir novamente a voz que transformava o comum em lar.


Mas escolho permanecer.


Porque amar nunca foi apenas possuir a presença de alguém. Amar é desejar que a flor continue viva, mesmo quando o próprio jardineiro aprende a conversar apenas com a lembrança do seu perfume.


E, se um dia Deus permitir que os caminhos voltem a se encontrar, o jardim saberá reconhecer a flor que jamais deixou de amar. Se não, o Criador será testemunha de que houve um jardineiro que permaneceu fiel ao amor que plantou.


— O Profeta Elias
P.S.:Há flores que deixam de estar ao alcance das mãos, mas jamais deixam de habitar o coração que aprendeu a amá-las.