Sono
A doçura de sua boca é a única mirra que meu sono aceita, repousar em seus braços é a única maneira de apagar a aridez da ausência.
O passado é meu pesadelo, a obsessão que me rouba o sono. O cerne é que o incômodo não reside no que foi minha experiência, mas na amarga certeza de que isso me corrói por dentro. Afinal, mesmo que o tempo nos concedesse a volta, nesse labirinto irrecuperável, eu jamais teria o poder de alterar o que se consumou.
Tenho um bolso cheio de noites que não cabem no sono. Cada uma delas traz a voz de um passado que insiste em ensinar. Guardo perguntas que não ouso responder em voz alta. O corpo se cansa mas o pensamento não dorme. Há uma leve certeza de que seremos menos estranhos à vida quando aprendermos a perdoar o silêncio.
Existe uma exaustão que o sono não cura, ela reside onde os remédios não alcançam e onde só a ponta da caneta consegue tocar.
Há um cansaço que não se cura com o sono, uma espécie de ferrugem silenciosa que começou nos meus ossos e agora dita o ritmo lento do meu sangue.
Viro os bolsos da alma e só encontro os restos de quem eu prometi ser, enquanto o silêncio da casa se torna um inquilino que não paga aluguel e ocupa todos os cômodos.
Escrevo para não ter que gritar contra as paredes, mas as palavras saem como estilhaços de um vidro que eu mesmo quebrei, cortando a garganta antes de ganharem o ar.
O tempo aqui dentro não corre, ele sangra, transformando cada lembrança num peso morto que eu insisto em carregar como se fosse um troféu ou uma condenação.
No fim, sobra apenas esse corpo que é um mapa de lugares onde ninguém mais quer morar, e a triste certeza de que a solidão é a única coisa que nunca me deixou pela metade.
O sono, para mim, é apenas um campo de batalha onde os monstros do dia trocam de roupa para continuar o cerco sob o véu da noite.
Há um tipo de cansaço que o sono não resolve, pois ele está impregnado na estrutura molecular da nossa vontade de ser alguém. É uma fadiga existencial, uma vontade de ser apenas uma pedra no fundo de um rio, deixando a correnteza levar os problemas embora.
O cansaço que verdadeiramente nos destrói não é aquele que se cura com poucas horas de sono ao fim do dia. É uma exaustão da alma, um esgotamento lento que nasce da tentativa inútil de consertar o que já nasceu quebrado. Às vezes, parar de tentar salvar o desastre é a única forma de salvar aquilo que restou de nós.
- Tiago Scheimann
Existe um cansaço que nenhuma noite de sono dissolve: o cansaço de explicar a própria dor a quem jamais desejou compreendê-la. Depois de inúmeras tentativas frustradas, o silêncio deixa de ser uma escolha e torna-se uma forma de dignidade. Não porque ele cure, mas porque impede que as nossas ruínas sejam transformadas em espetáculo para curiosos.
- Tiago Scheimann
NOVO ACORDAR é para NOVO VIVER!
Cada novo acordar de um sono profundo é um novo nascer como uma nova oportunidade de viver!
Mas,
Repetimos o sobreviver anterior, apegados às situações socioculturais que nos mantêm ansiosos!
É quase uma da manhã e meu sono não vem, está ausente, como você, e odeio essa ausência. Você me deixou com frio, no meio da rua e da chuva, quebrada como uma boneca de porcelana. Só que não posso me sentir assim para sempre porque porcelana é difícil de ser consertada, mas não impossível. Preciso de um amor açucarado para quebrar esse gelo, de um amor com cheiro de outono e sabor de domingo e não importa se não durar até o inverno, apenas preciso de alguém que me segure para eu não desabar como as folhas que caem lá fora.
Vivemos em um mundo onde a maioria das pessoas vive um sono profundo, dorme de olhos fechados, dorme de olhos abertos; e nunca acorda para a realidade, pois a realidade é um despertador silenciado pela mentira.
A morte é como um sono profundo, só que ao invés de acordar no mesmo corpo, acorda em outro, e nem se lembra de como dormiu.
