Sombra
Perdoei quando ardiam as palavras,
não sou cálice de veneno, nem sombra a ser retribuída.
Ainda assim, jamais sentarás à mesa onde repousa minha paz.
Não habita em mim ódio, mas uma justiça que tenho para seguir.
Quem para para descansar à sombra de uma árvore e olha para o céu, contempla a maior de todas as telas — onde as pinturas mudam de forma com o sopro do vento. As paisagens de Deus estão no alto, onde não há nenhuma colunas de sustentação.
Noite Leal
Caminho na sombra
com a lealdade cravada no peito,
como quem guarda um pacto
feito em silêncio antigo.
Meu sorriso?
É lâmina brilhando no escuro:
feliz, afiado,
nascido do que ninguém vê.
E enquanto a luz fria
escorre pelo espelho,
minha mente viaja —
longe, muito longe,
por estradas que só eu conheço.
Ainda assim, permaneço firme,
de pé, inteira,
com a noite ao meu lado
como velha companheira
Dê poder a um tirano e você verá a verdadeira extensão da sua sombra. O poder não transforma, apenas revela.
O musgo e o polvo
Ah! como adora
o seu leito de pedra à sombra da mata,
o musgo verdinho.
Já o polvo no pote de barro, engana-se.
Sua morada é curta
assim como a sua vida!
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A pesca artesanal do polvo, ainda é feita, utilizando-se potes de barro
que são lançados no fundo do mar.
Um haicai de Matsuo Bashô:
Jarros de polvo-
Um sonho efêmero,
luar de verão.
Poema de J.A.Lopes
Uma cama estreita,
Água fresca,
Sombra de um cajueiro,
Noites mais longas,
Dores mais curta,
Um montão daquilo que serve pra tudo, tipo limão.
E tu!
Que a morte espere nossa boa vontade,
Que na vida não exista saudade,
Que a cadeia alimentar seja mito,
E se for preciso eu invento uma máquina que pause o tempo no exato momento que eu conheci você.
Faz tempo que eu penso nisso
Pra mim é igualzinho ao paraíso que tantos querem ir.
🖤 A Ponte e o Rio
O cais que se curva, sombra côncava de pedra e sonho,
Onde o Tágide vasto espelha o céu de chumbo,
E a arquitetura, curva abstrata, forma-me um antro
Para a solidão que me é de berço e de túmulo.
Pedalamos por um limite, entre a terra e a água,
Dois vultos na margem, eu em cada um e em nenhum,
Busco o sentido na travessia da ponte longa e vaga,
Mas o Sentir é o único destino que me é comum.
O vento é a saudade que nunca se soube porquê,
A nuvem é o peso de todos os mundos que não vi,
E o eu que vive é o rascunho imperfeito do eu que devia ser,
Pois toda a realidade é a margem de um rio que não está aqui.
Marco Silva
Quando vires a sombra de um gigante, olha a posição do sol pra ver se não se trata da sombra de um anão.
A desonestidade é uma sombra que, cedo ou tarde, cobra seu preço. À primeira vista, ela pode até parecer um atalho: rápido, conveniente, invisível. Mas todo atalho que se afasta da verdade cobra pedágio — e é sempre mais caro do que imaginamos.
O ato desonesto soa pequeno no instante em que acontece, mas grande nas consequências que deixa. Ele não corrói apenas a confiança dos outros; corrói também a nossa própria relação com quem somos. A consciência, mesmo silenciosa, é um juiz que nunca tira folga. Quando ferimos a verdade, somos nós os primeiros a saber — e esse conhecimento pesa.
A desonestidade nasce quase sempre do medo: medo de perder, de não ser suficiente, de decepcionar, de enfrentar a realidade como ela é. Mas, ao tentar fugir desses medos, acabamos criando labirintos onde nós mesmos nos aprisionamos. Mentiras pedem manutenção, disfarces exigem esforço, máscaras cansam. A desonestidade, no fundo, dá trabalho — muito mais trabalho do que a verdade.
E, no entanto, pensar sobre desonestidade é pensar, sobretudo, sobre a força transformadora da integridade. Ser honesto não é nunca errar; é ter coragem de encarar os tropeços sem se esconder atrás de atalhos sombrios. É manter o chão firme sob os pés, mesmo quando a vida tenta nos convencer de que a esperteza vale mais que o caráter. Não vale.
Brilhar diante da desonestidade é escolher ser luz onde tantos escolhem atalhos. É decidir que sua palavra vale algo, que sua consciência merece descanso, que sua vida deve ser construída sobre terreno sólido — não sobre areia movediça.
No fim, a verdade é sempre o caminho mais longo… até o momento em que percebemos que é o único que nos leva a algum lugar que realmente vale a pena.
A saudade é como voltar a um
rio que já não tem peixe,
é sentar-se à sombra de uma
árvore que já não dá frutos,
mas ainda abraça com sua
quieta proteção.
Estar vivo é isso:
é sentir saudade, é temer a perda,
é compreender que tudo passa —
e que nós também passaremos.
Até lá, seguimos vivendo,
e viver exige coragem para sentir
tudo o que a alma insiste em tocar.
Lembra-te…
Que eu te amei, mesmo quando eras apenas sombra nos meus pensamentos.
Amei-te na ausência, no silêncio que gritava teu nome,
na distância que não apagava tua essência.
Ainda assim, eu te amei.
Amei-te como quem guarda fogo no peito,
como quem se perde e se encontra na mesma lembrança.
E mesmo quando o tempo tentou roubar tua imagem,
eu te mantive vivo em cada suspiro,
em cada palavra não dita,
em cada madrugada que se vestia de saudade.
Lembra, porque eu não esqueço:
o amor que te dei não foi pequeno,
foi tempestade e calmaria,
foi ferida e cura,
foi eternidade em instantes.
Ainda assim… eu te amei.
A sombra do meu pecado me trai — um vulto que conhece meus passos antes de eu os dar.
Atrai-me para o submundo onde a escuridão tem voz e os nomes se desfazem,
um convite sem luz, uma promessa que cheira a ferro e a lama.
Somos dois náufragos: eu e essa sombra que me habita,
invisíveis aos olhos que ainda acreditam em salvação.
Envolvidos como raízes emaranhadas, presos no pântano do desejo,
onde o tempo apodrece e as horas se tornam moscas.
Caímos sem alarde, amordaçados pela própria culpa,
a boca cheia de terra, o grito reduzido a um eco de ossos.
A decomposição não é só do corpo — é do nome que eu dava às coisas,
do mapa que traçava para me encontrar, agora rasgado e úmido.
Há um frio que não passa, uma sede que não se sacia;
cada passo afunda mais, cada lembrança vira lodo.
E, no entanto, há uma clareira de silêncio dentro desse breu,
um lugar onde a traição aprende a dizer o seu próprio nome.
Não peço perdão — não ainda — porque o perdão exige luz que não trago.
Quero apenas ver, por um instante, a sombra desvelada:
que se revele inteira, sem disfarces, para que eu saiba com quem divido o corpo.
Se a escuridão é casa, que seja ao menos honesta;
se o pântano é prisão, que me mostre a porta que não consigo ver.
E se a decomposição é destino, que me ensine a colher do próprio fim
a semente que, talvez, um dia, resista e floresça na lama.
No limbo escaldante, onde o tempo se dissolve em brasas,
meu pecado se ergue como sombra que me trai,
um espectro sedento, arrastando-me ao submundo da escuridão.
Ali, invisíveis correntes se entrelaçam,
envolvendo corpos e almas em cárceres de silêncio,
presas no pântano pecaminoso,
onde cada suspiro é lama,
cada lembrança é veneno.
Caídos, amordaçados, em lenta decomposição,
somos ossos que ainda gritam,
somos ecos que não cessam,
somos o reflexo da culpa que nunca se apaga.
E no abismo, onde a noite não conhece aurora,
a traição se torna eterna,
o pecado se torna carne,
e a carne se torna pó.
Esse estilo mistura intensidade, imagens fortes e ritmo poético, quase como um cântico sombrio. Quer que eu leve esse texto para um tom mais místico e esperançoso, como se houvesse uma saída da escuridão, ou prefere que ele permaneça sombrio e visceral.
Olhei para trás e vi ecos marcados como passos na neve seca, intocáveis como a sombra que reflete a pouca luz.
Vestígios de sangue deixaram rastros de sentimentos que mergulham nas profundezas da dor.
Mas, quando olho para frente, vejo apenas cicatrizes silenciosas que me lembram que tudo já passou.
_Elisa Morales
Ser livre exige despir-se inteiro,
Aceitar a sombra que nos invade.
O medo é muro, frio carcereiro,
Que nega ao ser sua própria verdade.
William Contraponto
Não aceite um amor que te pede para diminuir o seu brilho para que o outro não se sinta na sombra. O amor verdadeiro é combustível, nunca extintor.
